ANO 4 Edição 69 - Junho 2018 INÍCIO contactos

Denise Bottmann


Três poemas

Sempre aquém

 

O som das coisas, sempre abafado:
forro de algodão entre sentido e mundo.

 

Não /se/ anula, jamais, a consciência do menos:
o esgar da violoncelista em êxtase,
unir-se a um uno que não há
- ou há, mas pathos não é porto, é apenas esforço -
o eterno vento nas árvores ou
o moderno ronco de um motor.

 

Não /se/ repõe, jamais, essa carência auditiva:
fina antena de um inseto ou um imenso sonar,
guincho de um morcego ou a música do espaço.

 

Infrassom, ultrassom, à prova de som:
tudo /se/ abafa.
O menos que somos: é fato.
O tanto que fazemos: completa?

 

 

 

 

 

 

amós oz

 

códigos, símbolos, emblemas
a feitiçaria dos sinais,
velha como a terra,
gasta como o mundo.
algo sempre cintila, diz o menino.
o judeuzinho que se esconde,
medo, medo, raiva – por que você fugiu?
quero ir ao sol, serei belo, bravo e forte.
algo cintila, eu sei.
eu sei, você está aqui, você que morreu.

 

 

 

 

 

 

o perdão / a caravaggio

 

ou a febre que te acomete na beira-mar.
foi esta corrida, tua vida.
vinho, ou era sangue?
briga, ou era orgulho? amor.
putas, esbirros, rivais e cardeais.

 

vertigem, às vezes, com a fruta passada.
ou o prato amolgado.
ou a coroa torta.
ou a cara inchada.

 

vertigem, às vezes, com a porta fechada.
as pedras, falsas, lisas da garoa,
os gritos da dona, vai-te, vai-te!
um tropeço, uma gargalhada,
e te sobe o rubro do touro à vista.

 

ou o escárnio: na corte, nas tintas.
a boca escancarada,
possa eu te paralisar, infiel!

 

quantos brados, quantas fugas –
e se somam todas elas nesta areia,

o navio zarpado, teus braços a abanar.

 

 

Denise Bottmann nasceu em Curitiba em 1954Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR,1981). Mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1985). Doutorado inconcluso em Filosofia (UNICAMP). Tem experiência na área de docência e pesquisa em História e Epistemologia das Ciências Humanas. Atua na área de tradução de obras de literatura e humanidades desde 1984. Atualmente dedica-se a atividades de tradução e pesquisas sobre a história da tradução no Brasil. 

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Junho de 2018


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Junho de 2018:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, Beatriz Bajo, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cida Sepulveda, Denise Bottmann, Erick Martínez, Eunice Boreal, Felipe Teodoro da Silva, Flávio Otávio Ferreira, Gabriel Jimenez Emán, Gociante Patissa, Henrique Dória, Hermínio Duarteramos, Hermínio Prates, João Bastos de Mattos, Joel Henriques, Leila Míccolis, Márcia Denser, María Lilian Escobar ; Rolando Revagliatti, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ricardo Ramos Filho, Sofia Freire d’Andrade, Sônia Pillon


Foto de capa:

Júlio Pomar: 'Gadanheiro' (1945) | 'Quatro tigres: variantes' (1994)


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR