ANO 4 Edição 69 - Junho 2018 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


A Bíblia e a agitação sindical

É visível, sente-se, a agitação sindical. É a federação dos professores comandados por  Mário Nogueira, são ordens e sindicatos de médicos e enfermeiros, funcionários judiciais, associações e sindicatos de militares e polícias, ferroviários e camionistas, guardas prisionais  todos de súbito e à uma acometidos de urgências reivindicativas,  em ordem de batalha, prontos para a luta, com gritos de guerra. 


Estamos em junho. É natural e bíblico este frenesim. Diz o Antigo Testamento (Samuel):


“E aconteceu que, tendo decorrido um ano, no tempo em que os reis saem à guerra, enviou Davi a Joabe, e com ele os seus servos, e a todo o Israel; e eles destruíram os filhos de Amom, e cercaram a Rabá.”


O “no tempo em que os reis saem à guerra” do trecho acima relata um dos costumes relativos aos enfrentamentos bélicos na época do Antigo Testamento. Os combates aconteciam numa época do ano em que os celeiros estavam cheios e os camponeses deixavam as ferramentas de trabalho para pegar em armas, além de as condições atmosféricas serem favoráveis às campanhas.


As greves e as ameaças de greve desta época para a qual alguns dirigentes sindicais até deixaram crescer as barbas são a época da barganha pelos despojos antes da batalha do orçamento que está a ser preparado. O orçamento é o celeiro que, não estando cheio, só pode encher os alforges dos mais afoitos, dos mais determinados, dos mais dispostos a tudo, dos condutores de maiores mesnadas.


Todas as armas são convocadas, todas as munições disparadas sob a forma de slogans e palavras de ordem: que se respeitem as promessas, que se cumpram as leis, que se dignifiquem as funções, que se chamem mais soldados, porque faltam recursos humanos, que se vire a página da austeridade e se entre da abundância, que se respeitem os domingos e feriados, as noites e os fins de semana.


Como sempre acontece antes dos reis saírem para a guerra, o inimigo deve ser vilipendiado e o seu tesouro fantasiado: vamos a ele que é um malandro e tem os cofres cheios. Vai ser assim até outubro.


Já na Antiguidade, os chefes dos corpos de camponeses transformados sazonalmente em guerreiros (neste caso manifestantes sindicais) antes dos assaltos às cidades, discutiam com o senhor da guerra a divisão dos despojos da batalha que iam travar, enquanto as tropas eram acirradas nos arraiais.


A onda de greves de vários corpos do Estado é a representação atual da mesma velha barganha a propósito da divisão dos despojos que resultarão das próximas eleições e do orçamento que as precede.


Os chefes de corpos sindicais descobriram - de repente -, que apenas para bem dos cidadãos, os ferroviários devem fazer greve para  os passageiros viajarem descansadinhos, e os professores querem ser descongelados para que não faltem aos estudantes aulas de acompanhamento que lhes evitem esforços nas meninges, os funcionários judiciais reúnem-se para que os processos se desatem, os profissionais da saúde deixam os doentes de senha na mão para eles próprios não saírem dos turnos exaustos, porque nos hospitais privados não lhes perdoam faltas de energia.


Em resumo, este é o tempo em que os reis levam anualmente os súbitos à guerra.
Como nos dizem os seus arautos, são sérios os motivos da saída à anal à guerra. Não se trata de nenhuma romaria anual, a ida à guerra nada tem a ver com o orçamento, nem, credo!, com luta partidária,  ainda menos com eleições, votos e política em geral! 
Nós, os cidadãos a bem de quem tanto se esforçam os reis que estão a afiar vozes como espadas antes de iniciarem a campanha, temos também o direito a reivindicar alguma coisa: saqueiem mas não nos dêem música!

 

Vivemos os tempos da barganha e da chantagem, como o dos pólens nas vias respiratórias,  das pragas de piolhos nas cabeças das crianças, das traças nos armários.  Para o ano há mais.

 

Carlos Matos Gomes

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2018


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Paginação:

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