ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Alexandra Vieira de Almeida


Comentários sobre Retratos imateriais, de Jean Narciso Bispo Moura

 

Em Retratos Imateriais, novo livro de poemas de Jean Narciso Bispo Moura, o poeta consegue a grande proeza de tirar dos fatos mais corriqueiros a densidade do poético. A partir de sua visão cotidiana do mundo, Jean Narciso cria as mais belas poesias metalinguísticas. O tempo adquire materialidade e não é visto como algo abstrato, longe de nossa experiência. Ele diz em “desespero temporal”: “O tempo envelhece a pele da humanidade/os séculos descansam no colo do milênio/o tempo envelhecido caça rã tartaruga/e borboleta”. O tempo é personificado, adquire ares de dramaticidade e se carnaliza na destruição inconteste de tudo. Tempo é o próprio tempo envelhecendo tudo o que é vida, no verdor da originalidade.

 

A presença do corpo é uma constante em seus versos, traduzindo-se como linguagem e pensamento. O corpo adquire uma alma, é animado pela força da poesia, sua anima, sua forma de se movimentar no universo. A matéria é vida animada pela palavra, parece dizer os versos deste escritor excepcional. Jean Narciso com suas tramas e fios bem urdidos apresenta uma poesia rica em metáforas concretas, que expõem o real em toda sua força dinâmica.

 

Sua poética é chama roubada dos deuses, como vemos na figura de Prometeu, a trazer o conhecimento para a humanidade. Thomas Bulfinch fala sobre o símbolo de Prometeu numa das versões do mito: “Prometeu tomou um pouco dessa terra e, misturando-a com água, fez o homem à semelhança dos deuses. Deu-lhe o porte ereto, de maneira que, enquanto os outros animais têm o rosto voltado para baixo, olhando a terra, o homem levanta a cabeça para o céu e olha as estrelas”. Que imagem mais bela para se falar do poder criador da humanidade!!! Jean Narciso toma desse fogo da palavra, do poder criativo que é chama ardente a acender os sentidos mais plenos em algo que vai perdurar ao longo de seus versos.

 

Jean Narciso constrói sua poesia com concisão, mas sem deixar de lado os detalhes, que se apresentam no mínimo de linguagem. Eis a força imagética de seus versos, que seguindo uma lógica toda própria, conduz os leitores a uma viagem pela nave-palavra a alcançar os espaços mais inusitados. Sua poesia ao falar do baixo aponta para o alto. Tecendo uma constelação de pétalas, sua poesia tem a suavidade das flores e a dureza das pedras, unindo realidades díspares no seu artesanato poético. Verdadeiramente, temos um poeta de fôlego que não está desperdiçando sua linguagem em tons menores. Temos um poeta em tom maior a dedilhar as estrelas metafóricas da poiesis.

 

Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Atualmente é professora na Secretaria de Estado de Educação (RJ) e tutora de ensino superior à distância (UFF). Tem poemas traduzidos para vários idiomas. Publicou cinco livros de poesia: “40 poemas”, “Painel” (Multifoco, 2011), “Oferta” (Scortecci, 2014), “Dormindo no verbo” (Penalux, 2016) e “A serenidade do zero” (Penalux, 2017).

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


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CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


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