ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Matheus Guménin Barreto


Poemas

POESIA

 

Ou fruto apenas entre os dentes
prestes prestes prestes a romper-se.

 

*

 

 

 

 

POEMA AMARELO

 

a faca tem de ser eloquente
e falar sabendo o porquê

 

e falar o discurso de chaga
ferida
na carne que a faca lê

 

*

 

 

 

 

EQUAÇÕES MATEMÁTICAS

 

1)
na curva, na nuance encontrei Deus
no limpo da linha reta o perdi

 

2)
quando se escuta o marulho da noite
e as coisas ganham contorno insuspeito
a geometria do silêncio aflora
e a vida vale

 

3)
o silêncio anterior
ao construto da fala no lábio

 

4)
não diz
se sabe que o dito não condiz
com o que se queria dito
e,
         dito,
é outro dito no ouvido que o apascenta.

 

*

 

 

 

 

POEMA DO AMADO PARA SEU AMADO

 

                                     “Penteei-me para o rei
                                     Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu                    
                                     cabelo”
                                     – Ana Paula Tavares, Manual para amantes   
                                      desesperados, 2007.

 

a)

 

os dentes
teus amanhecem quando me veem
e compreendo
o inerte ofício das pedras
– plenas completas alegres.

 

b)

 

a voz amanhece na tua boca
ilumina: da garganta
ruminando o que não fora dito,
inaudito, e o que se ficou por dizer

 

pois

 

a voz amanhece na tua boca
e o contorno do sol posto
fica pregado
fica pregado
nas pálpebras

 

fechadas de pôr do sol

 

c)

 

e tua boca anoitece
quando o silêncio pousa e faz ninho nos teus lábios

 

até que
então nasce outra vez
o sol
da tua garganta áspera
raia outra vez, já à espera paciente
da hora de se pôr

 

flor
que anoitece

 

– e o eclipse do corpo meu
é violento

 

*

 

 

 

 

O NULO POETA/EMA

 

quando hutus exterminaram tutsis 
quando hutus exterminaram tutsis 
quando hutus exterminaram tutsis 
quando tutsis exterminaram tutsis 

 

 

e quando o poeta escreve 
                               [quando tutsis exterminaram tutsis 
pecado 
pecado 
pelo pecado pelo pec- 
ado 
peca/do 
pecado de não saber o que são tutsis 
tutsis o que são 
o que são tutsis 
quem são 
hutus 
o que 
exterminaram 
tutsis 
e procura onde fica Ruanda 
Ruanda¿ 
e chora de não saber onde fica 
onde fica 
exterminaram tutsis 
Ruanda 

 

– a maioria a golpes de facão. 

 

*

 

 

 

 

MANHÃ

 

a –

 

Notícias da manhã
informam que o tempo, de
                                 fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

 

b –

 

O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

 

c –

 

A manhã ruge
nos dentes das árvores.

 

*

 

 

 

 

NESTE TEMPO

 

Neste tempo de horror
neste tempo
neste tempo sem tempo
de mãos crispadas e inverno nos dentes
de risos que não são
– só o amor que há é o dos bichos
e o das memórias frescas,
recém-cortadas.

 

*

 

 

 

 

MISSA DE 7º DIA

 

A cama que criam absoluta
porque carregou ali quem morria
e, morto, tomou posse
                                [do que
                                [a cama é

– essa cama foi batida
                           [ao sol,
                      [refrescada, posta
                      [ao craquelado
                      [da luz
                      [de algum quintal

e perdeu seu morto
como quem perde um tostão.

*

 

 

 

 

PARA O POEMA DESTA PÁGINA


“Dedicado a Matilde Campilho, que sem saber me ensinou.”

 

para o poema desta página:
a – abrir a janela mais próxima
b – faltando a janela, criar uma
c – ver: flor. ou muro. ou golfo. ou merda. ou um casal descobrindo o mapa-múndi no corpo um d’outro.
d – repetir os passos anteriores.

*

 

 

 

 

PENSAR QUE DORMEM TODOS

 

pensar pensar
pensar que todos deitam por baixo
                         da sombra do sono,
que dormem todos pensar que
o assassino o belo o tímido o
                 sagaz o corrupto o
            miserável o tranquilo
dormem dormem deitam por baixo da
rede do sono
e dormem

pensar
nos seus rostos à meia-luz
entre os panos e o tear de silêncios
                                           da noite
pensar
nessa estranha escura sem-querer
irmandade
entre os --------------------

pensar nos seus rostos
por baixo da sombra do sono
o peito respirando
a boca meio aberta
             à meia-luz

pensar que dormem todos
irmãos

 

Matheus Guménin Barreto (1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Nascido em Cuiabá – Mato Grosso, é pós-graduando da Universidade de São Paulo (USP), onde traduz a poesia de Ingeborg Bachmann. Barreto estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Publicou traduções de Ingeborg Bachmann em Dito ao anoitecer (2017) e Lira argenta (2017), de Bertolt Brecht em Cântico de Orge (2017) – parcerias entre Selo Demônio Negro, Editora Hedra e a editora portuguesa Douda Correria. Também disponíveis no Brasil e em Portugal estão alguns de seus poemas, publicados em: Escamandro, Enfermaria 6, Revista Lavoura, Revista Escriva – PUC-RS, Diário de Cuiabá e Ruído Manifesto; entre outras. É editor do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Paris-Sorbonne. Matheus Guménin Barreto é autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (2017, Editora 7Letras) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (2018, no prelo).
Os poemas abaixo são do livro A máquina de carregar nadas.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


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Foto de capa:

CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


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