ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Myrian Naves


“Ahetu: vozes desprendidas”, de Cláudia Cassoma: A escrita em gerúndio ou uma escrita rumo à identidade.

Eis a poeta e ficcionista luandense Cláudia Cassoma, residente nos Estados Unidos, aos vinte e quatro anos e em seu quarto livro, “Ahetu: vozes desprendidas”, o primeiro de contos. Vem em contínuo, trazendo esses oito relatos que parecem guardar em si um fio condutor plausível, a percorrer o livro e o formar como coisa inteira. Na costura de histórias, no silêncio suspensivo entre um e outro relato, no ato de coser o cotidiano desse universo plausível que criou a partir do nosso tempo.
 


Traz a figura feminina contemporânea em diferentes tramas e cenários, se angolanos, luandenses, são universais e diversos como o são suas personagens e suas circunstâncias. No mundo das personagens existem diversos temperamentos a compor histórias submersas no caldo social contemporâneo e em uma linguagem que flui com leveza, elegância. Quem as lê, penetra nesse universo e o percorre pela condução e o faz sem grandes sustos.

 

Entre histórias comuns e repetitivas de submissão e dependência feminina não extirpada, há os relatos em que personagens femininas surgem livres para voltar ao relacionamento amoroso rompido _ agir emocionalmente, abandonar a racionalização. Liberdade na busca pelo próprio prazer, sem fazer uso de papéis de subserviência, nem dar a conhecer sua realidade. Também na atitude de abandonar a família, o marido e também algoz. Deixar para trás o estupro, ir. Como possibilidade houvesse apenas no desconhecido. Ir sem opção de voltar se torna uma atitude exemplar à filha, ao filho.

 

Ao narrar os silêncios a dois, também nas relações do cotidiano comum de pessoas comuns, ao optar por narrar cenas silenciosas, mas ativas, a autora encontra uma das várias costuras entre os contos. Expõe o silêncio das personagens durante interações. Olhares, posturas, o monólogo interno, atitudes narradas em detrimento do diálogo expõem o universo posto. O silêncio como método, implica mesmo assim, em gestos, olhares, posturas que dialogam com monólogos interiores. O que é dito não conta tanto como os silêncios contam. Perante as expectativas da aldeia, perante o algoz. Perante o passado onipresente. Narra o silêncio do homem que medita à ausência da mulher versus o da mulher que, no outro lado da porta, em silêncio e sem certezas, reconhece onde está seu desejo. Como se não coubesse mais o diálogo e fosse forma de adiamento infinito. Dada a incomunicabilidade entre os seres, monólogos interiores tomam a cena. E ao abrir mão da esperança de compreensão e diálogo, agir torna-se a comunicação eficaz.

 

Uma leitura sobre a obra da poeta, escritora do século XXI e que chega com testemunho pleno de humanidade a seu quarto livro, não poderia deixar de nos levar à análise da instituição do cânone que determina a literatura representativa, a ordem inteligível da literatura de uma cultura, região, país. E ao fato de que, numa cultura patriarcal, anteriormente a literatura de autoria feminina não aparecia, minoria que não se tornava visível.

 

No contexto, há que situar a produção literária de autoria feminina em seu tempo e lugar, promovendo uma leitura sistematizada que fundamenta o espaço da escrita feminina, garante-lhe “status quo”, a necessária revisão crítica das obras já escritas em sua Língua e permite a continuidade de leitura, a partir de então. A partir no século XXI e dessa equidade em processo, ao mesmo tempo em que se faz uma revisão crítica das narrativas centradas na figura do homem, o mesmo olhar crítico é posto nas personagens femininas em sua grande maioria, advindas de uma visão utilitarista. Revisão crítica que dá maior visibilidade a exceções que cumprem a regra.

 

Uma mulher que escreva num contexto masculinista de uma instituição quebra o paradigma, no caso, de que a Literatura é um espaço masculino. Desse fato podem decorrer ações de internalização e retificação de padrões vigentes; contestação na escrita, a tais padrões; de defesa, dentro da própria instituição, dos direitos e valores dessa minoria. Proporciona a vivência dessa prática literária, a autodescoberta e a identidade própria já numa fase em que toda a instituição seja participante e comungue da lógica de equidade. Um processo em andamento.

 

Cláudia Cassoma, em seu “Ahetu”, escreve ainda num contexto masculinista, se tomarmos como referência a Literatura de seu país ou até da maioria dos países, nos diversos continentes do nosso planeta. Contesta na escrita padrões vigentes, defende direitos e valores dessa minoria com dicção e testemunho humano de densidade, já com identidade e dicção própria.

 

Suas histórias, cenários e tramas apresentam inclinações bem díspares. No universo criado pela escritora coexistem a modernidade, as necessidades de mão-de-obra feminina e masculina no mundo do trabalho, diferenças de classe, a liberdade sexual, a moralidade profundamente conservadora. A atitude de guerrilha de uma jovem personagem, ao minar expectativas familiares e sociais desde a fase inicial da adolescência, convivendo nos relatos com métodos patriarcais para excluir a mulher da produção, visando manutenção de seus papéis tradicionais e mantendo sua dependência econômica ao casamento tradicional. O cerceamento da autonomia causado pela insegurança no espaço público, uma das consequências da guerra. O velamento da violência contra a mulher no espaço privado à família. A coerção, o estupro.

 

Há figuras femininas em plena liberdade de ser, como a personagem narrada pelo olhar do narrador-personagem que a descobre plena, não é correspondido, pois na relação a dois ela se entrega ao próprio prazer e não ao homem. Algumas chegam a lutar por sua individualidade, mas pelos filhos aceitam o feminicídio que as anula em vida.

 

A resolução de seus contos não dá vez à tragédia, em maioria, são resoluções possíveis. Traz o comportamento do feminino contemporâneo funcionando o melhor que pode, dentro de uma pequena perspectiva estanque, delimitada pelas fronteiras do respectivo cotidiano. Suas soluções frente a tradicionais conflitos e a repetitivos rituais de dominação cometidos contra a mulher no dia-a-dia. Isso basta para colocar esse compartimento aparentemente fechado que é cada personagem em contato direto com a História com que cada um de nós convive em seu lugar, em sua cultura, através das pequenas histórias que compõem o seu cotidiano. Mesmo que não saiba e nem queira saber. Faz mergulhar no cotidiano das histórias desse universo ficcional posto no século XXI, onde coexistem mitos e traumas, amores trágicos e não tão trágicos assim.

 

A produção literária de autoria feminina ainda parece incipiente nos países africanos de Língua Portuguesa, o que parece um contrassenso, dada a importância dos papéis desempenhados pelas mulheres durante as lutas pela liberdade nas organizações de luta contra o colonialismo. A literatura angolana se solidificou no final dos anos 1940, e dos anos 1950 e 1960 em diante houve um contínuo processo de crescimento e amadurecimento literário. Hoje tem suas bases literárias consolidadas.

 

“Ahetu”: Mulheres, em kimbundu, a segunda Língua Bantu mais falada em Angola. Agora é a voz de Cláudia Cassoma em expressão de sua subjetividade a juntar seu “Ahetu: vozes desprendidas” às vozes da literatura angolana. Vem com silêncios narrados, sua fala quente, jovem e em gerúndio. Não deve vir só.

 

 

 
Ahetu: vozes desprendidas
Autora: Cláudia Cassoma
Prefácio: Myrian Naves
Posfácio: Domingas Monte
142 páginas
Editor: Kujikula; Edição: 1 (8 de março de 2018)
Coleção: Mulheres
Idioma: Português
ISBN-13: 978-0692084830

https://www.amazon.es/Ahetu-Vozes-Desprendidas-1-Mulheres/dp/0692084835/ref=tmm_pap_swatch_0?_encoding=UTF8&qid=15259746

www.claudiacassoma.com

 

 

 

 

Myrian Naves, poeta, escritora brasileira. É professora de Literatura Brasileira, graduada em Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa, pós-graduada em Literatura Brasileira, ambas pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Cursou Mestrado em Literatura Comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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