ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Maria Estela Guedes


O mais antigo Festival de Poesia em Portugal

 

Decorreu, de 23 a 25 de Abril de 2018, o Festival de Poesia e Música de Vila Nova de Foz Côa. Contou com umas dezenas de participações, locais, nacionais e estrangeiras. Neste caso, Angola, nas pessoas de Chalo Correia, compositor, cantor e músico, e de David Capelenguela, escritor, deu o tom estrangeiro a que de há anos aspira este evento, o mais antigo de quantos, na sua espécie, se realizam em Portugal. Tem 34 anos, sempre organizado por Jorge Maximino, com a boa colaboração da Câmara Municipal, da Escola Secundária e de associações locais. Este ano, com apoio também da Junta de Freguesia e pároco de Almendra, pois uma das sessões, com Zetho Cunha Gonçalves, Aurelino Costa, Rui Fonseca e comigo, teve lugar numa bela igreja de Almendra.


Mais participantes, além de Chalo, na música, foi o seu guitarrista, João Mouro, o maestro António Victorino de Almeida que, com o poeta Aurelino Costa nos presentearam com um recital de poesia e música memorável, e o grupo fozcoense Os Fiarresgas, constituído por umas dezenas de jovens músicos e cantores, longe de serem crónicos solteirões, como insinua o regionalismo «fiarresga». Duas alunas dos últimos anos da Escola Secundária, orientadas por Rui Pinto, um dos professores mais dedicados ao Festival e à organização de outros eventos, sobretudo na Escola Secundária, junto dos seus alunos, também demonstraram que têm boa e bela voz, basta treino para desenvolverem as suas capacidade musicais.


Rui Fonseca, poeta, cantor e guitarrista, natural de Vila Nova de Foz Côa, esteve presente, como de costume, em várias manifestações do Festival, em especial na capela da Misericórdia, em Almendra, e no dia 25, em que se comemorou o 25 de Abril.
Mais poetas presentes, além dos mencionados, foram Raquel Patriarca, Minês Castanheira, Zetho Gonçalves e eu mesma. Nas «Leituras Instáveis», a bordo do barco rabelo «Senhora da Veiga», além dos poetas e além de noutros auditórios, também fez a sua prestação o ator Rui Spranger.


Thierry Proença dos Santos e Jorge Maximino fizeram a apresentação de «A dinâmica dos olhares», volume coletivo de ensaios, e outro livro lançado no Festival foi «Gadanha», de Aurelino Santos, com poemas comentados pelo organizador do Festival, Jorge Maximino.


O Festival tem forte componente pedagógica, com deslocação dos escritores às escolas, em especial Escola Secundária, cujo auditório é preferencialmente constituído pelos alunos dos últimos anos.


Passando a questões práticas, o alojamento, este ano, foi super-confortável, nas novíssimas instalações do Centro de Alto Rendimento, construção primacialmente dedicada a desportos não poluentes e não destrutivos do ambiente como a canoagem e o remo, próprios para o Douro e Côa, ali ao pé. Como sempre, os responsáveis pela alimentação, no «Senhora da Veiga» e na Escola Agrícola, apresentaram pratos excelentes. O «Senhora da Veiga» é uma embarcação dedicada ao turismo, faz pequenos cruzeiros no Douro.


Uma visita guiada ao Museu do Côa coroou os três dias de Festival, sempre carregados de eventos, que agradeço sobretudo a João Paulo Lucas, vereador da Cultura a chefiar a equipa executiva do Festival. Era muito bom para os escritores e músicos uma visita guiada a um dos recintos arqueológicos. Para a Câmara tal visita não levanta obstáculos, é apenas questão de reservar uma tarde para o efeito na agenda da parte literária e musical, a cargo de Jorge Maximino, a quem peço atenção também para esse lado das gravuras. É mesmo possível desafiar os artistas a que se inspirem na "escrita" das pedras, para que os materiais resultantes se apresentem posteriormente no Festival. Acredito que todos fiquem fascinados, como eu, ao serem informados de que os registos arqueológicos até agora encontrados, e patentes em réplica no Museu do Côa, demonstram que a ocupação humana na região tem pelo menos setenta mil anos, e que as marcas culturais, a que volto a chamar «escrita», fazem remontar a atividade cultural humana a pelo menos trinta mil anos. Estas datações estão em permanente atualização, não dizem respeito a factos humanos absolutos, sim à maior antiguidade das informações a que até agora têm chegado os peritos. Parte das gravuras está submersa, cada gravura é uma espécie de palimpsesto, os desenhos sobrepõem-se uns aos outros em camadas (como os layers, nos programas de imagem para Internet), de modo que só temos à vista o mais recente e o mais superficial. De certeza que imagens mais antigas farão recuar ainda mais as datas de presença humana na Terra.
Por este motivo e por todos os outros, a participação no Festival de Poesia e Música de Vila Nova de Foz Côa é sempre um grande acontecimento na minha vida científica e literária, acrescentado às amizades que se vão criando. Um manifesto de gratidão justifica-se, a todos, desde o Presidente da Câmara e Jorge Maximino até ao Líbano e aos meninos da Escola Secundária, que se comportaram na perfeição.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Maio de 2018:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Magalhães Zeiner, Alexandra Vieira de Almeida, Bruno Candéas, CARLOS BARBARITO, Carlos Vale Ferraz, Cássio Amaral ; Heleno Álvares, Cláudio B. Carlos, Cristian Barbarosie, Daniel Rosa dos Santos, Diniz Gonçalves Júnior, Fabián Soberón ; Will Moritz, trad., Federico Rivero Scarani, Fernando de Castro Branco, Filipe Papança, Gociante Patissa, Henrique Dória, Hermínio Prates, Inma Luna, Jandira Zanchi, Jean Sartief, João Aroldo Pereira, José Couto, José Gil, José Guyer Salles, Kátia Bandeira de Mello-Gerlach, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Alberto Nogueira Alves, Marcelo Labes, Marcia Kupstas, Maria Estela Guedes, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ngonguita Diogo, Nilo da Silva Lima, Noélia Ribeiro, Nuno Rau, Paulo de Toledo, Reynaldo Bessa, Reynaldo Jiménez ; Rolando Revagliatti, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Tânia Diniz, Vera Casanova, Jayme Reis


Foto de capa:

CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR