ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Bruno Candéas


Poemas

OLÁ, MEU NOME É POVO

 

olá
meu nome
é povo

 

sempre
disposto
a começar
de novo

 

sangue
que nunca
escorre

 

sou meu
próprio porre

 

alma
que não
declina

 

sou minha
própria vagina

 

ASSALARIADA

 

rodando
bolsa
na estrada

 

DES-PRO-TE-GI-DA

 

sentada
no torno
da vida

 

preenchida
por tipos
e protótipos

 

por nórdicos
por nordestinos

 

por cretenses
e por cretinos


----------------

 

 

 

 

COM A JANELA ABERTA

 

a vida é mais bonita
no meio da pista

 

meus grandes planos
estão queimando

 

meus bons amigos
foragidos

 

a vida é mais completa
com a janela aberta

 

meus vôos insanos
estão pousando

 

meus bons ruídos
constrangidos


------------------------

 

 

 

 

TEATRAUMA

 

desvende meus medos
não minhas tatuagens

 

dome minha perversão
não meus fetiches

 

perambule pela névoa
não pelo eclipse

 

vasculhe cofres
não estrofes

 

ofereça-me hipóteses
não hipotenusas

 

sou cateter
vascularizado

 

rasgado pela incisão
da navalha

 

teatrauma tosco
mortalha

 

tralha


----------------------

 

 

 

 

ÍNTIMOCOVIL

 

não sou
mas gostaria
de ser vício

 

início
chuvisco
precipício

 

barbariz a r i a
vampiriz a r i a

 

cresceria nas madrugadas
durante a tosse

 

demostraria sempre
mesma intenção

 

seqüelar o passo frio

 

íntimocovil


---------------------

 

 

 

 

MORRER PARA CRER

 

alguém morreu
agora
parte mulher
parte José

 

morte covarde
militarizada
morte banalidade
desdentada

 

alguém morreu
agora
parte Mandela
parte vela

 

morte partidária
viralizada
morte diária
estancada

 

alguém morreu
agora
parte furor
parte flor

 

morte chacina
orquestrada
morte bailarina
discriminada

 

alguém morreu
agora
parte patrão
parte peão

 

morte comercial
tramitada
morte territorial
despautada


-------------------------

 

 

 

 

BANQUETE NEFASTO

 

não sei
se sabem

 

da senhora
que achou carne

 

levou para casa
pensando
ser filé

 

depois descobriu
que era mama

 

lixo
hospitalar
de primeira

 

 

BRUNO CANDÉAS, considerado pela crítica como um dos mais cáusticos e criativos poetas de sua geração.

Reconhecido por nomes de peso da literatura nacional e internacional, entre eles: Tanussi Cardoso, Ariano Suassuna, Leila Míccolis, Fernando Aguiar,  Antonio Carlos Secchin, João Aroldo Pereira, Raimundo Carrero, Rogério Salgado e Jommard Muniz de Brito.

Autor dos livros: “Poeta nu na alcova”, “Filé 1,99” (parceria com o poeta Malungo), “Férias do gueto”, “A Trégua dos ditadores” (literatura de cordel), “Indigestual”, e agora, TEATRAUMA.

Contato com o poeta:
Facebook: Bruno Candéas
Instagram: @poetacandeas

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


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Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Maio de 2018:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Magalhães Zeiner, Alexandra Vieira de Almeida, Bruno Candéas, CARLOS BARBARITO, Carlos Vale Ferraz, Cássio Amaral ; Heleno Álvares, Cláudio B. Carlos, Cristian Barbarosie, Daniel Rosa dos Santos, Diniz Gonçalves Júnior, Fabián Soberón ; Will Moritz, trad., Federico Rivero Scarani, Fernando de Castro Branco, Filipe Papança, Gociante Patissa, Henrique Dória, Hermínio Prates, Inma Luna, Jandira Zanchi, Jean Sartief, João Aroldo Pereira, José Couto, José Gil, José Guyer Salles, Kátia Bandeira de Mello-Gerlach, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Alberto Nogueira Alves, Marcelo Labes, Marcia Kupstas, Maria Estela Guedes, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ngonguita Diogo, Nilo da Silva Lima, Noélia Ribeiro, Nuno Rau, Paulo de Toledo, Reynaldo Bessa, Reynaldo Jiménez ; Rolando Revagliatti, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Tânia Diniz, Vera Casanova, Jayme Reis


Foto de capa:

CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


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