ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Jandira Zanchi


Poemas

Como não sonhar com
a eternidade
se somos o vento e o
sal da natureza.....

 

 

 

 

CERTEIRO

 

tão certo quanto certeiro
retesado é o arco e seu arqueiro

 

as flechas movimentam-se ao longo de pedras ruídas de um novo deserto – cores para o palácio divino/dádiva de domésticos gatunos no quase nu perfilado altar ao lado e voam pequenas aves (aqui o ar é mais rarefeito nas rotações articuladas com desdém)

 

a mesa servida
os cálices úmidos

 

nas brancas paredes um nicho de ventura e esquecimento anuncia a subida crescente, lume e contrabaixo, em cada dia de batida surda sonora reinventada na clave marítima sem forma nas bordas multifacetadas de ouro e prata

- palavras como botões de uma nova escultura –

 

enquanto o vento verifica suas iscas....

 

 

 

 

O RELENTO DA NOITE


Curva-se à sina
e ao senão
dos varados
solventes ventos
varados
lá no ângulo
- dos capatazes –
rebenta a moura corda
do passado
danado
danoso
doloroso
(ao fundo um céu
de chafarizes)


jasmim ribanceira
lareira de lábios
umedecidos
conchas cavadas
no relento da noite

 

 

o assobio de uma estrela espuma na terra
como a vingança do açoite da vida.

 

 

 

 

MANDALA

 

Núbil, dúbia de loureiros
e louvadas raízes de lis
caibo em qualquer
                  contramão
em vias de erguer-se
com mácula e luz

 

mandala esquecida
essa espada lume
corcel de curvas
            calientes
mural de lenta incerteza

 

nas mariposas lilases das
tardes curtas de rompimentos
instantes inquietantes
arquejantes de alucinações

                        enquanto que deus
                        é uma margem
                        sem imagem
                        o nada dourado
                        dos profetas
                        incultos
                        e sem arestas.

 

 

 

 

UNIFICADO

 

Espanto-me do ser
              único
              unificado
              acordado
              depositado
              ascendente
e vigoroso

 

flutuando
por dentro
das nobres águas

 

acolhido e escolhido
para ditar o verbo
e apontar a mente

 

estonteado do primeiro prazer
afeito a algum infinitésimo
de amor e descanso.

 

               talvez ainda me engane
               mas, é quase certo,
               que o Mago do Chapéu Azul
               é estriado e remodelado
               por muito sol

(aquelas cigarras
envaidecidas de brisas
cacarejando
a valentia da noite).

 

 

 

 

LÍNGUA CIFRADA

 

Língua cifrada
de Arcanjos
NEGROS
Lençóis de agulhas ao vento
lilases as metáforas da sina
em frente e por sobre
a fralda do Tempo
(Anjo Arcanjo
de mim)


na casa do pai
em nome do Santo
Amém
teu verbo é ósculo
de pranto e pompa
arena de sereno
quase estupidez
que flor de vida
nas cores do jardim
.

 

 

 

 

RAPSÓDIA

 

São tantos os murmúrios da noite
suas insanidades de lá e fá
seus arquejos de estilos e rodeios
quando se desfaz – quase soturna –
de seu baile de máscaras
que – tremida dessas vertigens -
faço crescente e rapsódia
em um único solo 
violoncelo de bar e fundo
nos costados de suas estrelas.

 

 

 

 

LÁCTEA

 

 

Os tempos de migração batem as asas

 

Esquento dois pedaços de néctar
- espremido e vacilante -
para minguar a quantia de fugas
grinaldas de lince e lua
                                                                 ainda a magia do nada
o olfato benfazejo

 

creio-me láctea  e feroz na madrugada
passos estreitos andarilhos
calçadas vazias em lentos lamentos
          de escrita e esperança.

 

 

 

 

SONETO

 

O vazio de noites e navegações
só interrompe
o soneto do silêncio.

 

 

 

 

OLHOS D’ÁGUA

 

O Instante do nada, livre,
arejado de dunas e de contas
cubículos de flor e certeza

 

Clonagem das  folhas brancas
nascidas sem o estriado
marca-tempo
                    marca-passo
eternizando-se por sobre a tarde.

Comestível esse jejum de
jasmins brancos e velozes
quase estranhos à
ciência da liberdade.

 

 

 

 

O VAPOR DA NOITE


No vapor da noite
em meio aos
             estertores
da Grande Nave
- quase santa em
minhas verdadeiras
vaidades –
espio o canto primo
das nebulosas
que antecedem os
eleitos do silêncio.

 

 

 

 

CRISTALINO

 

Cristalino da água
beijo teu selo
no olho do tempo

 

é solar e apolíneo

esse outro renascimento.

 

 

Jandira Zanchi: Poeta, ficcionista e editora (singularidade). Curitibana, é licenciada em Matemática pela Universidade Federal do Paraná e possui extensa experiência no ensino de matemática e física. Entre os vários colégios e faculdades que atuou inclui-se a Universidade Agostinho Neto em Luanda - Angola nos anos 80. Publicou os  livros de poesias: A Janela dos Ventos (singularidade, 2017), Área de Corte (Patuá, 2016),  Gume de Gueixa (Patuá, 2013), e Balão de Ensaio (Protexto,2007). Co-editora de Amaité poesia e cia.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


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Colaboradores de Maio de 2018:

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Foto de capa:

CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


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