ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Marcelo Labes


Poemas de “Enclave” (Patuá, 2018)

ii.

 

da
deutsche Schule
do
deutsche Bank
da
deutsche Bahn
do
deutsche Post

 

não herdamos
a escola
o banco
as estradas
os postais

 

apenas nomes
como sombras
que assombram
como assombros
ancestrais.

 

 

 

 

v.

 

o imigrante chegou
faminto
           (acredita-se)
roeu madeiras, indígenas
roeu pedreiras, juntou moedas
e empregou os seus
                     iguais

 

gerações muito exclusivas
de operários muito brancos
muito bem tratados
          (acredita-se)

 

quando o branco escasseou
na mão de obra barata
a cor deixou de ser pré-requisito
         (acredita-se)
mas a posição de imigrante, sim
sobretudo se estrangeiro, sim
sobretudo se faminto

 

as portas da fábrica se abriram
e se podia ouvir
as paredes e os teares
assobiando um
/arbeit macht frei/

 

e um
/lasciate ogni speranza
voi ch’entrate/.

 

 

 

 

xiv.

 

sarney tivesse controlado a inflação
não teria parado a indústria nacional
veja-se a vergonha vejam-se os filhos
desta terra tradicional de braços cruzados

 

acabaram-se os cruzados acabaram-se
parados todos parados inflamaram-se
e o |enclave| desabou à multidão
[seo alfredo passou todo o período da

 

grande greve geral dentro da fábrica
de toalhas talvez coberto de fiapos de
algodão porque precisava alimentar
os três filhos uns porcos talvez

 

um cão] mas a verdade é que não sabia
o que fazer parado não tinha assunto
não acreditava no sindicato e talvez
hoje eu dissesse a ele: pai, eu também

 

não – porém é preciso lutar contra o ostracismo
contra essa mão in(di)visível que estrangula
até o coração parar até o sujeito agonizar
completamente derrotado.

 

 

 

 

xxxi

 

a edu barreto

 

em 1o de dezembro de 1936 houve
o famoso sobrevoo do dirigível Hindelburg
por sobre o |enclave|
as crianças paralisaram maravilhadas
os cães latiram desesperados
as moças da cidade suspiraram profundamente

 

quando a aeronave partiu
tudo pareceu um sonho

 

sonho: quando se vê
o que nunca existiu

 

não se soube de fugas e retornos
não se soube de clandestinos embarcados
de volta ao velho continente
europa: um país muito velho, diz carlos.

 

todos os anos são impressos calendários
todos os dias são impressos diários
na capital do estado de santa catarina

 

uma criança guarani que dorme entristecida
no alto do morro dos cavalos relembra
histórias antigas de conquistas e conflitos
de nomadismo e soberania
como se fosse sonho.

 

sonho: topehyi no idioma guarani.

 

 

 

 

xxxiii.

 

os pais
os pais dos pais
e os pais destes
foram plantados
nesta terra úmida
e rica em minerais
– nunca chegaram
a brotar.

 

a procura por frutos
é a labuta por frutos
é a espera por frutos
é suar sobre os frutos
e reescrever a máxima
que diz nesta terra em
se plantando tudo dá.

 

 

 

 

Outros poemas

 

vinicius chorou quando
declamei um poema com
seu nome e sobre nossa
infância num lançamento
triste num corredor de
shopping a luz branca
tocando a retina com
mão áspera

 

: eu me contive

 

(porque antes de tudo
sou poeta imagina
chorar por qualquer coisa
uma dedicatória de felipe
o carinho de luiza o colo
de minha mãe o olhar azul
de meu pai ou mesmo
vinicius sendo homem na
minha frente)

 

eu, que sempre achei
se tratasse ele dum deus
dum herói de quadrinhos
personagem aquele que
mata o inimigo e salva
a mocinha no final.

 

 

 

 

eu não tenho um amigo
que conheça há cinquenta
anos como deve ser para
o gil e para o caetano
quando besteiam à tarde
e insistem em recontar
alguma história. mesmo
assim levo comigo saudade
de amigos mortos e amigos
distantes – se a distância
for também uma forma de
morrer e/ou uma forma de
matar uma forma de correr
e uma maneira de ficar

 

não sei qual o será o final
dessa corrida morro acima
onde a pedra que deixo
rolar atropela as ovelhas
que pastam

 

tenho comigo trinta e três
e às vezes parece que
bastam.

 

 

 

 

o velho se humilha diante
de outros velhos: canta e dança
o ilariê tendo diante de si uma
caixa de sapatos onde espera
depositemos moedas

 

a velha que pede comida diante
do restaurante diariamente
desde as sete da manhã e o
cego que inventa na flauta doce
o que seus olhos já não podem
lhe contar

 

: humilhados como os bolivianos
e os senegaleses e os haitianos
que escapam da polícia que apanham
da polícia que renegociam com a polícia
as falsificações que comercializam

 

os humilhados de pés no chão
e dedos em feridas que não tomaram
a dose diária de vida e pedem trocados
para comprar o almoço e a sobremesa preferida

 

: estão todos vivos

 

(só não há na rua poetas
os primeiros a se esconder
ou diríamos simplesmente
já estão todos mortos).

 

 

 

 

a rodrigo sarubbi

 

a vida esta vida
manoel já disse
que carlos já disse
e a gente bem sabe
que não presta

 

por que então os
sorrisos porque
então os abraços
por que eles fingem
ser santos talvez
nunca entenderemos

 

mas há qualquer coisa
não dita há palavras
engolidas há semanas
que são sempre mais
difíceis de viver

 

porém eles estão
felizes eles estão
contentes eles não
sabem que gente
é aquilo que nasce
pra ser

 

[eu não acredito
nos seus princípios
eu não acredito
nos seus conselhos
eu finjo ter medo
eu finjo ter medo
para passar longe
desses sorrisos

 

que nunca distingo
se são blasé
ou são botox].

 

 

 

 

como um menino que sonha com
pilhas – substantivo que mal cabe no
poema – amarelas e que soltam
faíscas que acendam as luzes
as engrenagens desse caminhão
de bombeiro desse carro de polícia
– foi papai noel quem deixou na fábrica –
me dizia minha mãe e eu acreditava

 

como o pai do menino que sonha
com pilhas – substantivo difícil, ainda não
encaixa – porque trouxe o presente e
esqueceu o alimento do brinquedo

 

ele sabe que ao abrir para o menino
e retirar do pacote os dois ou quatro
cilindros de dióxido de manganês e
zinco retornará a um tempo que
supunha perdido para fazer ligar
as engrenagens de um carro de
polícia de uma ambulância que
sairá pelo tapete da sala para atender
os necessitados e os feridos.

 

para além de tudo isso, esse poema
queria falar sobre insônia e sobre alfredo
pois descobri que sou cada vez mais ele
: cumprimento as pessoas e sorrio

embora não entenda nada do que dizem

 

(fotografia de Luiza Melo)

Marcelo Labes nasceu em Blumenau-SC, em 1984. É autor de “Falações” [EdiFurb, 2008], “Porque sim não é resposta” [Antítese, Hemisfério Sul, 2015], “O filho da empregada” [Antítese, Hemisfério Sul, 2016], “Trapaça” [Oito e Meio, 2016] e “Enclave” [Patuá, 2018]. Integrou a mostra Poesia Agora (edição carioca), em 2017. Tem poemas publicados em Mallarmagens, Livre Opinião – Ideias em Debate, Ruído Manifesto, Enfermaria 6 e Revista Lavoura. Edita a revista eletrônica ‘O poema do poeta’, onde publica originais manuscritos, esboços e rabiscos de poetas e ficcionistas.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


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Foto de capa:

CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


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