ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Daniel Rosa dos Santos


O cara da manutenção

Eu sou aquele que nunca lembram nos bons momentos, não sou convidado para comemorações, nem para a partilha. Sou lembrado apenas quando precisam de mim. Afinal, sou eu o cara da manutenção.

 

Ele é como todo mundo: crê que é único, crê que é diferente, crê que é especial, crê que é incompreendido pelos outros, enfim, um ser humano normal.

 

No começo ficava aborrecido, agora não mais, até prefiro que seja assim. Sou eu mesmo o cara da manutenção.

 

Veio ninguém sabe de onde, mas é certo que veio de algum lugar.

 

- Baruc!? Baruc é nome de cachorro.
- Não é não, Baruc é um nome hebraico. Significa: “o abençoado, o bendito”.
- Quem disse que teu nome quer dizer isso que você falou?
- O ministro disse.
- Ah meu filho, não acredita em tudo que diz o ministro, aquele não dá pra gente acreditar. Ele é como vendedor, que diz sempre que tem o melhor produto e o preço mais baixo. Por mais caro e ruim que seja o produto que eles querem te vender.
- É, mas isso do meu nome ele tá certo, eu vi num livro de nomes.
- Meu vizinho tem um cachorro que chama Baruc, um pit-bull meio vira latas. - Eu nunca havia reparado antes, mas o Baruc realmente parece um cachorro. Late muito mais que morde. Isso no território dele, porque sozinho anda com o rabo entre as pernas, tipo cachorro caído do caminhão de mudança longe de casa.
- Mas não é nome de cachorro, é um nome importante, tem um significado importante.
- Pra mim, é nome de cachorro. Conheci o cachorro do vizinho antes de te conhecer.

 

É, meu querido, o sonhador sou eu, mas você é quem acredita nessa ilusão chamada vida real.

 

- Na ratolândia, precisa estar vestido de rato, caso contrário não vai muito longe. Você tem de conhecer bem da sua própria, além das outras, se quiser transitar entre as diferentes castas.

 

 Claro que eu não sei se vou estar vivo amanhã, ainda mais que vivo é um significado muito diferente de pessoa para pessoa. Hoje por exemplo, estou morto.

 

É como se houvesse um muro invisível entre nós. Estamos no mesmo ambiente, mas não estamos. Na verdade é como se houvesse um muro invisível à minha volta. É como se eu não existisse. Eles aí, bebendo suas bebidas importadas, comendo petiscos exóticos, e eu aqui, desentupindo o encanamento. Agora imagina, eu dar uns três passos, tomar um gole desse troço, mordiscar um petisco, rir das piadas sem graça que eles contam. Imediatamente me tornaria visível. Visível e ameaçador.

 

No mundo existem três tipos de pessoas: as que criam problemas, as que chamam alguém para resolver os problemas, e as que efetivamente resolvem os problemas. Nesse caso, esse terceiro tipo de pessoa, sou eu, “o cara da manutenção”. Cruz em credo, parece até início de filme de aventura, tipo de espião. Mas não é nada disso, é só a bosta da minha vida, sem espião, sem aventura nem porra nenhuma que valha a pena ser relatado. O Baruc, por exemplo, é o tipo de cara que vive criando problemas. Ao invés de facilitar as coisas, o cara só complica. Ontem mesmo, o seu Zé esqueceu o crachá, o Baruc fez o velho voltar em casa só para buscar o crachá. Porra, não conhece o cara? Tinha alguma dúvida que era o velho? Custava deixar entrar? Não, mas fez o cara voltar em casa só para buscar o maldito crachá, como se aqui fosse algum Banco Central, como fosse a NASA. Tem meia dúzia de empregado, todo mundo conhecido. Só pra complicar. E nesse caso eu nem posso fazer nada, que os problemas que eu resolvo são da manutenção mesmo, é coisa quebrada, entupida, esses são os tipos de problemas que eu resolvo, sou literalmente: “o cara da manutenção”.

 

Ela diz que eu falo muito palavrão. O que ela diria se ouvisse meus pensamentos? Não falo nem a metade dos palavrões que eu penso.

 

Certa vez assisti a um filme que, em determinado momento, o principal lá da história, perguntava para alguém, mas a cena pensada de tal maneira, que parecia que ele perguntava ao público. Ao público não, a pergunta era feita diretamente a você, assim a queima roupa. Ele perguntava se a sua vida, no caso você, eu e qualquer outro imbecil que estivesse assistindo ao filme, perguntava se sua vida daria um filme. Depois daquele dia, sempre me pergunto isso, se minha vida daria um filme. Acho que toda vida daria um filme, mas a maioria, e me enquadro nessa maioria,  dá filmes que não me interessam assistir. Filmes sem graça. Nem drama, nem comédia, não é aventura, definitivamente não é aventura, nem fantasia, nem cinema catástrofe. Uma história catastrófica, de tão ruim, de tão mal contada. Ainda se eu fosse como o Baruc, que odeia o que faz, quem é, de onde veio, mas a inveja que sente dos outros o motiva: “queria ser fulano, queria ser cicrano...”. Mas nem isso, não acho graça em nada, nem na minha vida, menos ainda na dos outros. A melhor coisa que já inventaram, para gente como eu, é o serviço braçal. Numa época até tentei dar aulas, pensei em ser professor, pensei num mestrado, mas foi logo que saí da faculdade, tava ainda influenciado por aquele meio, a atmosfera acadêmica, a formatura, mas passou. Graças a Deus passou. Hoje eu sei que sou feliz quando estou apertando um parafuso, cortando um pedaço de cano, trocando um disjuntor. Essas coisinhas. O resto é conversa fiada, cansei das teorias. Falo bastante, mas é só comigo mesmo, eu e minhas ideias. Conversar com os outros, falar mesmo de verdade, eu não gosto. Sou assim meio quieto. Não gosto muito de gente. Gosto é de ferramentas e de máquinas, gosto de consertar coisas quando estragam, para que continuem funcionando, para fazerem o que sempre fizeram. Gosto de manter as coisas como são, por isso não ligo mais que me chamem “o cara da manutenção”, esse é o meu trabalho, manter as coisas funcionando, tenho orgulho disso.

 

Sou menos notado que o abajur, pois visitas comentam da beleza do abajur antigo, quanto vale, em relação a mim nunca comentam nada, no máximo olhares de canto de olho, reprovando minha presença. Como se a merda do cano fosse desentupir se não fosse eu para botar a mão. Ou me toleram, ou ficam com o cheiro de merda, seus merdas.

 

- Desses autores que você cita às dezenas, li dois ou três, no máximo. O terceiro nem terminei de ler, e, para falar a verdade, os dois primeiros, li, mas não entendi patavinas.
- Não importa, já não temos mais a quem culpar, não temos a ditadura, e nem mesmo a direita vendida e fascista está no poder.
- Agora é a esquerda vendida e fascista que está no poder.
- Esse pessoal direitinho que se diz de esquerda, não assusta, não merece nada, nem mesmo a culpa. Até mesmo as grandes potências hoje, não passam de baratas grandes e tontas andando em círculos, procurando as últimas migalhas do capital. Os meios de produção estão aí para quem quiser, pois nem as regras de ouro, nem o método são mais um só.
- Se fosse assim, me diga por que continuamos na merda? Por que ainda somos escravizados?
- Escravizados a quê? Nunca fomos tão livres e nunca desejamos tanto, alguém que nos direcione, que nos ordene. Estamos sós, restamos nós. Aliás, nós não, restaram selfie's. Vários eus, e o peso da liberdade e mediocridade do nosso tempo. Já volto, vou no banheiro - levanta e vai, no caminho pede ao garçom mais uma cerveja e um conhaque. O cara da manutenção fica sentado, olha uma rachadura no teto, calcula o quanto de massa resolveria o problema. O problema da rachadura no teto.

 

Se no meu tempo tivesse, tinha feito uma dessas, à distância. Diploma serviu pra nada mesmo, não aumentou salário, não trouxe promoção, e o tal do conhecimento adquirido só me fez ver a vida com amargura, com nojo dessa coisa podre.

 

- A questão é: deve o carteiro ser culpado pela má notícia que ele traz nas cartas? A outra questão é: deve o poeta ser culpado pela falta de poesia em quem lê seus poemas?
- Na verdade a questão é que nem poeta é carteiro, nem poema é mensagem. - sente vontade de perguntar ao dono do estabelecimento, se quer que concerte a rachadura no teto. Para arrumar uma rachadura como aquela, seria rápido, coisa assim de dois palitos.

 

Escreve uma carta a uma antiga namorada. Escolheu carta, ao invés de e-mail, mensagem no celular, WATHS APP, porque é uma namorada antiga.

Acorda com a boca seca, gosto ruim. Outro corpo caído, não no sofá, mas no chão porque o sofá está vomitado. Levanta rápido, tudo escurece, fica tonto, cai. Cai de lado no sofá, o braço, a mão e o lado do rosto, no vômito. O quase desmaio passa, recupera o equilíbrio e a visão. Vai ao banheiro lavar as mãos, o rosto, tirar um pouco do vômito do braço e do casaco. O barulho da agulha indo e vindo no final do vinil é o único som na casa, além de um ronco alto na sala ao lado. Se lava como dá, tenta limpar o casaco, lava as mãos, joga um pouco de água fria no rosto, vai embora. A festa acabou. Todos já foram. Todos que interessam já foram. Precisa caminhar muito para chegar em casa.

 

 

Daniel Rosa dos Santos é Contador de Histórias, além disso é editor e afiador de facão na Butecanis Editora Cabocla. Publicou os livros “Pequenos Segredos Sujos”, “Quando Cai Um Rio do Céu”, “Queda Não É Voo”, “Pau de Mulungu” e “Recontos Assombrosos de Catarina”.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


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Paginação:

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