ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Cássio Amaral ; Heleno Álvares


Heleno Álvares: fio da poesia é a palavra que dá origem ao labirinto

Heleno Álvares é um catalizador da verba verbal, vende palavras e lucra sentidos.
Em 2001 o conheci numa escola, fomos convidados a participar de um momento literário. Ele com seu  primeiro livro “Desordem Contemporânea” de 1998,  e eu com meu livro  “Lua Insana Sol Demente” de 2001.


Ele é um guerrilheiro da poesia. Vive dela e vive para ela.


É, ele vive dela, seu ofício, seu trabalho é vender seus livros de bar em bar. Apesar de ser jornalista cultural, ter entrevistado muitos artistas interessantes, entre eles  Ângela Rorô. Sempre gentil, camarada e com um bom humor. Assim consegue fazer novos amigos, ampliar seu  círculo de parceiros e amigos.


Sua poesia é lírica, versos simples  com domínio de linguagem amplo de forma e conteúdo.


Alguns de seus poemas já viraram música. Seu último livro “Labirintos” (2016) é uma reunião de poemas que falam do labirinto.  Ele vem pelejando com ele e nosso papo é sobre este labirinto literário, fazer de seu ofício a saída dele e de como a liberdade de sua linguagem se expressa através dele. É muito válido e bom ler alguns poemas desse livro:

 

 

 

Labirinto Literário

 

Vivo em um labirinto
onde a palavra me diz
na verdade que minto
que no fundo sou sincero
pois a mentira é a raiz
de tudo o que é vero
a palavra me pede bis
e se diz toda verdadeira
na verdade ela é o verniz
mentindo que é madeira
e a mentira que não é de Lei
diz que não é interesseira
mais vive na boca do Rei
fazendo todo o seu mal
e nesse labirinto  que vivo
a linguagem é o escambau
onde me livro e me motivo
palavreando a minha vida
nessa contraditória verdade:
só o labirinto é minha saída


preso encontrei  liberdade.

 

 

 

Pílulas Poéticas

 

Amar é um barato
Mas, o amor é caro


**


Quero palavras que desdigam
Ignorâncias
mas eu as ignoro;
quero palavras  que desdigam
silêncios.

 

II


Quero palavras mineiras
grávidas de montanhas

 

**

 

Cuidado com a Certeza:
ela não lhe dá razão.

 

Coisas da Vida


Quero morrer
morrer de alegria
morrer de só rir.

 

10   Perguntas para Heleno Álvares

 

   1.  O que é um labirinto Literário?

 

 O labirinto literário é a forma de falar da prisão (literatura) onde você se prende para se libertar na poesia. "só o labirinto é minha saída/preso encontrei liberdade", digo em meu poema ”Labirinto Literário”.

 

   2.  Como se faz literatura nesse labirinto literário?

 

 Fazer literatura é difícil de qualquer maneira, mas, em um labirinto pode ser ainda mais. Mas, se você achar o "fio de Ariadne" poderá sair desse labirinto com certa facilidade. O detalhe é que este fio é quase invisível...
*este fio literário.

 

   3.  Quais suas influências na literatura?

 

Tenho algumas influências. Na poesia, três poetas me marcaram muito: Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Leminski. No entanto, o autor que mais me influenciou foi um prosador, o Campos de Carvalho.

 

   4.  Por que todos dizem que adoram poesia, mas não a compram?

 

O público brasileiro lê pouco. Tem pouco hábito de ir à livraria. Quando vai, compra mais prosa. Poesia fica por último. O interessante é que quase todo mundo já escreveu algum poema na juventude. Penso que encaram a poesia como uma coisa "pueril", infantil, passageira, coisa de adolescente. Enfim, não encaram como a prosa, onde o autor passa uma imagem formal, enquanto o poeta tem a imagem do porra-louca

 

   5.  Qual sua experiência de vender o seu livro de poesia de mão em mão, nos bares à noite?

 

Minha experiência de vender meu livro nos bares é ótima. Gosto do ofício. Tenho conseguido sobreviver desta forma há um ano e meio.

 

   6.  Quais os atuais poetas que gosta?

 

Esta é uma pergunta difícil. Tem poetas muito bons que estão nas páginas da internet, que é um espaço muito interessante. No momento, prefiro não me arriscar em citar algum nome, com medo de esquecer algum outro

 

   7.  Seus poemas são líricos e com influência do concretismo. O que acha desses gêneros?

 

Gosto de um lirismo que tenha humor, ironia. Não aquela coisa romântica. E o concretismo é uma "aula" sobre estética, linguagem. Tenho também grande influência do surrealismo. Na verdade, esta é a minha verdadeira influência. Por isso, Campos de Carvalho me influenciou tanto

 

   8.  Você acha que os festivais de literatura são opções interessantes para autores iniciantes participarem? Como vê isso?

 

Os festivais literários são espaços excelentes para todos os escritores, iniciantes ou não. Penso que este espaço, no entanto, deve ser mais dedicado à literatura do que ao espetáculo que se faz em torno.

 

   9.  O Labirinto Literário hoje é melhor na internet como forma de propagação ou no livro impresso? Como vê as redes sociais para os autores?

 

                   A internet é um espaço maravilhoso para divulgar o hábito da literatura. O objetivo é atingir o livro, mas, pra isso a internet funciona muito bem. Penso que são linguagens convergentes.

 

   10.  Você tem um livro de Contos pronto. Fale sobre ele.

 

O meu livro de contos está quase pronto, só faltam uns dois contos para dar o arremate. O título já diz muito de minha intenção: "Curtas-Linguagens". Ou seja, são contos curtos, tipo sketch, um quadro, um ângulo diferente sobre um determinado tema a se desenvolver.

 

        Estou gostando dessa experiência em prosa

 

 

 

Nasceu em Araxá-MG em 1973. Professor de História.  Autor dos livros  de poesia: “Lua Insana Sol Demente”-2001, “Estrelas Cadentes”- 2003, “Sonnen”-2008,  “Enten Katsudatsu”- Haikais  E-book (Germina Literatura) - 2010 “Faísca”- 2014 e “Milenar” – 2016.

Heleno Álvares nasceu em Araxá (MG) no ano de 1960. Tem quatro livros de poemas publicados (Todos de modo ”independente”): “Desordem Contemporânea” – três edições: 1998, 2000 e 2002; “Observatório Insólito” (2004), “0 Escambau” – duas edições no ano de 2010 e “Labirintos” – três edições, duas em 2016 e uma em 2017.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


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Colaboradores de Maio de 2018:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Magalhães Zeiner, Alexandra Vieira de Almeida, Bruno Candéas, CARLOS BARBARITO, Carlos Vale Ferraz, Cássio Amaral ; Heleno Álvares, Cláudio B. Carlos, Cristian Barbarosie, Daniel Rosa dos Santos, Diniz Gonçalves Júnior, Fabián Soberón ; Will Moritz, trad., Federico Rivero Scarani, Fernando de Castro Branco, Filipe Papança, Gociante Patissa, Henrique Dória, Hermínio Prates, Inma Luna, Jandira Zanchi, Jean Sartief, João Aroldo Pereira, José Couto, José Gil, José Guyer Salles, Kátia Bandeira de Mello-Gerlach, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Alberto Nogueira Alves, Marcelo Labes, Marcia Kupstas, Maria Estela Guedes, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ngonguita Diogo, Nilo da Silva Lima, Noélia Ribeiro, Nuno Rau, Paulo de Toledo, Reynaldo Bessa, Reynaldo Jiménez ; Rolando Revagliatti, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Tânia Diniz, Vera Casanova, Jayme Reis


Foto de capa:

CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


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