ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Henrique Dória


Inteligência artificial e devir espiritual da humanidade

A ciência dos futuros — disse Platão — é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses. Aos primeiros homens, a quem Deus tinha infundido todas as ciências,nenhuma lhes faltava senão a dos futuros, e esta lhes prometeu o Demónio com a divindade, quando lhes disse: Eritis sicut Dii, scientes bonum et malum. Mas ainda que experimentaram o engano, não perderam o apetite.
PADRE ANTÓNIO VIEIRA,“História do Futuro”

 

No século XXI, o terceiro grande projeto da humanidade será adquirir poderes divinos de criação e de destruição e de transformar o HOMO SAPIENS no HOMO DEUS.
YUVAL NOAH HARARI, “Homo Deus—História Breve do Amanhã”

 

Maravilhemo-nos: aquilo que, há apenas quatrocentos anos, António Vieira considerava o primeiro atributo de Deus, está hoje no domínio dos homens. O homem tem já a certeza do seu futuro na terra: sabe que dentro de cerca de cinco mil milhões de anos o sol se transformará numa gigante vermelha e engolirá a terra, desaparecendo a vida do homem no planeta azul. Também sabe que, certamente muito antes disso, conseguirá aquilo que era atributo exclusivo de Deus, o triunfo sobre a morte, o supremo mal.

 

Façamos um curtíssimo resumo da história do homem atual, aquele que se designou a si próprio como homo sapiens.

 

Apareceu sobre a terra há apenas cerca de 70 mil anos, um nada comparado com a existência de vida na terra, que surgiu há cerca de 4 milhões de anos. Até há cerca de apenas 200 anos estava totalmente dependente das forças da natureza e dos seus acasos.

 

Nas pequenas glaciações e nas grandes secas morria de fome. Um exemplo: durante toda a revolução francesa, entre os anos de 1789 e de 1794, fim do período do terror, terão morrido em França cerca de 70 mil pessoas devido à violência revolucionária, número que inclui os mortos na batalha de Valmy. Mas na pequena glaciação que ocorreu entre o final do século XVI e o princípio do século XIX, só entre os anos de 1692 e 1695 morreram de fome em França mais de três milhões de pessoas numa população que não ultrapassava os 20 milhões, isto enquanto Luis XIV se entretinha com as suas amantes e a gastar em guerras rios de dinheiro que extorquia ao povo.

 

Hoje, só cerca de 70 mil pessoas morrerão de fome, por ano, em todo o mundo. E a morte pela fome de uma só pessoa na Europa é assunto de primeira página da comunicação social.

 

Pode uma grande parte da humanidade estar subnutrida ou malnutrida, mas não morre pela fome. Hoje morre-se sim, de excesso de nutrição, e estamos num tempo em que os pobres levaram à prática a sugestão de Maria Antonieta: comem brioches em vez de pão – enquanto os ricos comem saborosas ervas, tofu e quinoa. No período da pequena glaciação, os pobres comiam ervas dos campos cozidas, se as houvesse, porque nada mais havia para comer.

 

Os progressos na tecnologia da produção de alimentos e nas comunicações que permitem o acesso a eles fizeram com que só por corrupção, incompetência do poder governamental ou guerra se morra à fome no mundo de hoje. A multiplicidade de organizações de combate à fome e a informação que corre em tempo real por todo o mundo faz com que seja hoje inaceitável que alguém morra à fome em qualquer lugar do planeta.

 

A doença sempre foi considerada, pelo menos até ao século XVIII, um castigo dos deuses, sinal do seu poder porque com a doença vinha a morte, e aquela nunca se sabia quando vinha. Durante o período da peste negra, perante a total impotência dos homens, entre 1330 e 1370, a peste terá dizimado cerca de 150 milhões de pessoas numa população calculada em 450 milhões. Estima-se que Portugal terá perdido entre um terço e metade da população, e a Florença de Boccaccio perdeu 50 mil dos seus 100 mil habitantes.

 

Quando os espanhóis chegaram ao México, em 1520, as tropas de Hernán Cortés levavam algo de muito mais letal do que as suas armas de fogo: o vírus da varíola. Esse vírus fez com que uma população nativa de 22 milhões de pessoas passasse, em 1580, para 2 milhões.

 

A gripe espanhola, a maior epidemia do século XX, e mesmo de toda a história, entre 1918 e 1919 terá matado até100 milhões de pessoas em todo o mundo, tendo dela perecido os nossos Amadeo de Souza Cardoso e António de Lima Fragoso. Num só dia, da casa dos pais de António de Lima Fragoso saíram sete caixões pela janela, entre familiares e serviçais da casa – pela janela para que a tragédia não entrasse novamente pela porta.

 

O mundo passou alguns momentos de pânico devido às epidemias que se revelaram depois da segunda guerra mundial, nomeadamente o Ébola e o SIDA. Porém, a ciência mostrou-se extraordinariamente capaz de combater essas epidemias, e o Ébola não matou mais do que 11.000 pessoas, enquanto o SIDA terá matado cerca de 30 milhões antes de ser controlado.

 

As doenças hoje existentes estão cada vez mais ligadas a excessos alimentares e à velhice, ao contrário do que sucedeu no passado.

 

Os avanços científicos permitiram que, nos países desenvolvidos, em 100 anos, a esperança média de vida passasse dos 40 para os 80 anos, que se aproximam do prazo de validade do corpo humano enquanto que, durante milénios, essa esperança de vida não se alterou substancialmente, variando entre os 30 e os 40 anos.

 

O homem do século XX conseguiu controlar os grandes inimigos históricos da humanidade: a fome e a peste. Conseguiu controlar também o último grande inimigo do homem: a guerra.

 

Apesar de o século XX ter sido, em números, o século mais mortífero da história da humanidade, em percentagem da população mundial esteve, ainda assim, longe disso. Os grandes conflitos do século XX terão aniquilado cerca de 5% da população humana, mas os maiores massacres, tendo em conta a percentagem da população humana foram os perpetrados pelos mongóis, em primeiro lugar Gengis Kahn, que terá exterminado pelo menos 13% da população mundial do século XII, princípios do século XIII, calculada em 300 milhões de habitantes. Já os massacres do seu sucessor Tamerlão não terão ultrapassado 5% da população, cerca de 350 milhões de habitantes.

 

No massacre de Béziers, em 1209, os exércitos papais mataram, num só dia, 20 mil pessoas, toda a população daquela cidade de maioria albigense. Tendo em conta a população da França, ao tempo, de 7 milhões de pessoas, tal corresponderia hoje ao massacre, num só dia, de toda a população duma cidade francesa com 200 mil pessoas.

 

Os 47 milhões de mortos na segunda grande guerra, de longe a mais mortífera do século XX, em percentagem da população mundial não chegaram aos 2%.

 

A tecnologia da segunda metade do século XX, em particular o equilíbrio do terror a que conduziu a energia atómica usada para fins militares, tornou a guerra um incidente limitado: em 2012, por exemplo, a guerra matou 120 mil pessoas, enquanto a criminalidade matou 500 mil pessoas.

 

Por outro lado, os meios de informação tornam cada vez mais a guerra naquilo que ela é: um ato cruel e desumano, portanto inaceitável para a opinião pública.

 

Durante séculos, nas igrejas cristãs, os fiéis pediam a Deus para os livrar da fome, da peste e da guerra. Deus não os ouviu. Teve de ser o homem a libertar-se a ele mesmo dessas três bestas da humanidade.

 

Durante milénios, o homem acreditou que a vida e a morte estavam nas mãos dos deuses ou de Deus.

 

Hoje sabemos que, num futuro próximo, tendo em conta a idade do Homem, isto é dentro de 100, 200 anos (alguns apontam para antes disso, até 2050!), o homem triunfará sobre a morte graças à biotecnologia, tendo esta como suporte a inteligência artificial.

 

O termo inteligência artificial (sigla IA) foi usado pela primeira vez pelo cientista americano John McCarhy apenas em 1956, embora o inglês Alan Turing se tivesse referido a ela já em 1948, usando os termos separadamente. A IA era (e ainda hoje é assim considerada) um modo de criar inteligência idêntica à dos humanos por meios mecânicos, incluindo nestes a programação de computadores, sendo que as correntes com maior aceitação científica, entendem que a inteligência humana resulta da interação de inúmeros meios mecânicos.

 

Desde então para cá, quanta mudança no mundo! Hoje, qualquer telemóvel barato tem mais inteligência artificial do que o foguetão que levou o homem à lua. E poderemos dizer sobre a IA que sucede com ela o que sucedeu com o brâmane Sissa e o seu jovem sultão: basta colocar um grão de trigo no primeiro quadrado e dobrar em cada quadrado seguinte o número de grãos do anterior, sempre até ao número 64. Como o sultão da lenda, verificaremos que seriam precisos, para preencher a 64ª casa, todos os grãos de trigo produzidos na Terra em 61.000 anos.

 

A IA produz o mesmo efeito multiplicador do tabuleiro de xadrez de Sissa.

 

Estaremos hoje num lugar algures apenas na 5ª casa, representada pela 5ª geração de computadores. O primeiro computador, criado pelo exército americano em 1946, tinha apenas 25 bytes de memória. Qualquer smartphone tem hoje 1.000 milhões de bytes de memória, e num só dia colocam-se na Internet 500 Terabytes de informação, sendo que um Terabyte é um bilião (milhão de milhões) de bytes.

 

Já hoje verificamos que grande parte da nossa ligação com o mundo está nos telemóveis que trazemos nos nossos bolsos. Percebemos que o impacto da automação no mundo do trabalho irá ser avassalador. Os políticos, os economistas e os cientistas fogem a encarar o problema de frente, mas é possível que, no final deste século, os robôs (e robô é um termo criado em 1921 que vem da palavra checa robota, que significa trabalho forçado) levem a cabo praticamente todas as tarefas que são ainda hoje do domínio humano.

 

Suspeitamos que a invisível evolução da inteligência artificial poderá ultrapassar a barreira da sabedoria, como vaticinou Stanislaw Lem, autor da obra Solaris, que deu origem ao conhecido filme de André Tarkovsky, no seu extraordinário romance de ficção científica intitulado Golem XIV (Biblioteca do Século XXI na tradução em Português), referindo-se à 14ª geração de computadores. Basta pensarmos na possibilidade de o homem utilizar a luz em vez da eletricidade para percebermos que isso será uma alteração de paradigma, a usar as palavras de Thomas Kuhn. Fala-se já hoje já em Petabytes, PB, 10 elevado a 15, em Exabyte, EB, 10 elevado a 18, em Zettabyte, ZN, 10 elevado a 21, e em Yottabyte,YB, 10 elevado a 24. Estima-se que o número de partículas de todo o universo observável é representado por 10 elevado a 80.

 

Cito StamislawLem:
«Na realidade, a diferença entre as máquinas antigas e as novas era parecida com a que existe entre um inseto e um ser humano. Um inseto vem ao mundo “programado por completo”, mediante os seus instintos, aos quais se submete de forma irreflexiva. O homem, pelo contrário, tem de aprender comportamentos adequados, mas esta aprendizagem possui efeitos emancipadores, já que o homem pode mudar os programas de comportamento atuais graças à sua capacidade de decidir e de conhecer.»

 

Não será difícil dotar estas máquinas de sentimentos, ou melhor, que elas próprias se eduquem de modo a dotar-se de sentimentos, como vimos no belíssimo filme Blade Runner, retirado do romance de ficção científica de Philip K. Dick (curiosamente, é mais difícil dotá-las do sentido de humor do que de sentimentos). Quer S. Lem quer Isaac Asimov perceberam que, antes de dar o salto qualitativo, os robôs tinham de ser dotados de uma consciência ética, que Asimov resumiu em três leis:

 

► 1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.

► 2ª Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.

► 3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira ou segunda Leis.

 

Mais tarde, Asimov acrescentou a “Lei Zero”, acima de todas as outras: um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.

 

Não entramos pelas inúmeras questões que essas leis colocam, nomeadamente a de saber se retirar o trabalho a um ser humano é ou não fazer-lhe mal, sendo certo que no futuro não haverá nenhum trabalho que os robôs não possam fazer melhor que qualquer ser humano.

 

Com essas leis, os robôs dotados de inteligência suficiente para tomarem as suas próprias decisões, teriam uma convivência harmoniosa com os humanos.

 

Porém, tudo isto, não passa de atribuir aos seres dotados de inteligência artificial a caraterística que distingue o homem de todos os restantes seres vivos: a espiritualidade (embora até esta asserção seja discutível, pois há quem entenda que espécies como os macacos, as baleias e os elefantes, por exemplo, têm vida espiritual).  Os robôs não seriam mais O Contador de Areia, de Arquimedes. Então, os robôs, isto é, a inteligência artificial, dotada de uma sabedoria em muito superior à capacidade natural da sabedoria humana (10, 100, 500 vezes superior, como admitiu Stanislaw Lem), ensinam os homens a serem humanos. Eles próprios, ligados ao cérebro humano, poderiam proporcionar aos homens capacidades muitíssimo superiores às que atualmente dispõem, libertando-os das limitações do núcleo inicial do seu cérebro, o cérebro reptiliano. E talvez o século XXI seja então o século da alvorada do Homem depois do homem.

 

Henrique Dória

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Maio de 2018:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Magalhães Zeiner, Alexandra Vieira de Almeida, Bruno Candéas, CARLOS BARBARITO, Carlos Vale Ferraz, Cássio Amaral ; Heleno Álvares, Cláudio B. Carlos, Cristian Barbarosie, Daniel Rosa dos Santos, Diniz Gonçalves Júnior, Fabián Soberón ; Will Moritz, trad., Federico Rivero Scarani, Fernando de Castro Branco, Filipe Papança, Gociante Patissa, Henrique Dória, Hermínio Prates, Inma Luna, Jandira Zanchi, Jean Sartief, João Aroldo Pereira, José Couto, José Gil, José Guyer Salles, Kátia Bandeira de Mello-Gerlach, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Alberto Nogueira Alves, Marcelo Labes, Marcia Kupstas, Maria Estela Guedes, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ngonguita Diogo, Nilo da Silva Lima, Noélia Ribeiro, Nuno Rau, Paulo de Toledo, Reynaldo Bessa, Reynaldo Jiménez ; Rolando Revagliatti, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Tânia Diniz, Vera Casanova, Jayme Reis


Foto de capa:

CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR