ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


Pequinesa, sim senhor

Não, não é invencionice. Pura verdade, se é que existe alguma verdade impura. Não creio, mas quem sou eu pra contestar o óbvio? Melhor tergiversar menos e ir logo aos fatos.


 Poucos entenderam a chegada do Messias, não o da bíblia, e sim o funcionário da estatal de águas. Veio transferido da capital e não se conheciam os motivos, embora logo jorrassem mil versões na saliva dos maledicentes. Desvios de águas, dinheiros, fraude em compras, sumiço de materiais no almoxarifado? Saber ao certo, quem há de?
Estarei psicografando Machado de Assis? Nem de longe, por desmerecimento de crença e mérito.


Fato é que em poucos dias o Messias conquistou parcerias em mesas de boteco, restaurantes e sinucas. Simpático sim, senhor de boa prosa e saberes muitos, E as mulheres? A curiosidade inicial delas se transformou em interesse, principalmente depois de descobrirem que era solteiro. Na cidade com menos de quarenta mil almas sempre houve mais mulheres do que homens. Elas ficavam na poeira, sem coragem ou meios para aventuras sob as luzes da capital, que a maioria nem conhecia. Os rapazes, abençoados pelos pais e chorados pelas mães, arriscavam na metrópole os dias do amanhã. Uns apenas trabalhavam, outros se diplomavam, poucos retornavam às origens, a não ser nas férias. E as mocinhas suspiravam a falta de namorados na escassez de sempre.


Messias, assediado pelas mais afoitas, numa época de paqueras livres do viés quase criminoso que mais tarde a hipocrisia inventou, apenas retribuía olhares e sorrisos, sem se decidir por nenhuma. Seria um inapetente para o mais doce dos esportes? Insinuações cresciam e se multiplicavam na resenha das esquinas e janelas. O forasteiro apenas ria do que diziam, mas nada fazia para desmentir o disse que é.


Dona Sina, batizada Eufrosina - que nome, santa pia das águas puras! – decidiu intervir:
 - Menino, desculpe, mas tenho idade pra aconselhar. Por que você não namora a Sandrinha?
 
 - Sandrinha? Nem conheço.
 - Conhece sim. É aquela que entregou um convite para o “Baile das Flores”.
 - Ah, lembrei! É uma de tranças.
 - Isso mesmo. Ela trança os cabelos por causa do calor, mas quando solta parece artista de novela. É muito bonita, não é? E ajuizada. Não é por ser minha sobrinha, mas por ela eu ponho a mão no fogo.


Messias quase sucumbiu ao desejo de fazer uma piadinha sobre possível churrasco de mão, mas preferiu rir e encerrar a sugestão com um quem sabe?


E foram tantas e tão belas, que se não fosse diplomado na universidade da bem querença o apontariam como esnobe, metido a sebo, um enjoado. Diziam que estaria rezando o credo com uma viúva, mas era apenas mais uma falseta. O garantido é que Messias, no viço dos 30 anos, nem pensava em conjugar o verbo casar. Até que ...
Até que nas férias escolares alguns filhos da terra retornaram às ruas de poeira e buraqueira, graças à omissão do prefeito. Uma pessoinha, entre algumas beldades, escondia a falta de graça atrás de uma franja alourada. Os olhos, miúdos, em nada se fixavam por temer ofender alguém. A moça era pequena, inquieta, voz estridente. E foi diante dela que o Messias pisou a terra da bem aventurança.


Mistério ou mandinga? Fosse a Nicinha – uma pequinesa na aparência, com metade de pés miúdos - adepta de despachos nas encruzilhadas do destino, alguém poderia até garantir que fora obra de um sapo cururu de boca costurada com o nome do desejado lá dentro. Mas a moçoila não era dessas, rezava o terço de cor e salteado nos dias fortes da credulidade. Digamos que mistério seja a melhor explicação para o inusitado.
Meus chegados, pacientes leitores desse mal digitado palavrório, eu lhes asseguro: nem Machado de Assis, o resenhador da vivência carioca por excelência; Érico Veríssimo, no sopro do minuano; sequer Ariano Suassuna, o nosso mais perfeito Cervantes; ou o fantástico do realismo, Gabriel Garcia Marquez, seria capaz de elucidar tal pendenga. O acontecido, inesperado por absurdo, foi que Nicinha empinou o nariz de cheirar vento diante do pai viúvo; desistiu do curso de Veterinária. E decidiu se acasalar com o pássaro do paraíso, o tal Messias.


 Entre namoro, enxoval e o sim diante do juiz e da batina nem se passaram seis meses. O sogro, vencida a desconfiança inicial, cedeu ao magnetismo do genro e se deu por feliz ao encaminhar a filha única - pequinesa por aparência e não por ter nascido em terra estranha -, à proliferação de herdeiros para as fazendas, gados de não se contar, terrenos e imóveis alugados, um somatório infindo herdado dos avós, patrimônio  aumentado pelos pais e por ele, à espera dos futuros netos. Sim, também havia milionário investimento em ações, títulos do governo e até dinheiro estrangeiro a salvo de impostos dormindo em paraísos fiscais.


Após pedir exoneração do emprego, Messias dobrou o braço e distribuiu fartas bananas para chefes e chefetes. Adeus, horários e chateações! Seu único esforço será inventar diminutivos para agrado da esposa Nicinha, desde que exclua do vocabulário a palavra cadelinha, que ela certamente repudiaria. Lenda chinesa garante que a raça pequinesa seria o improvável fruto do amor entre um leão e uma minúscula macaca. Sapiência secular também produz impossibilidades, como se lê.


E a pergunta, como faria Brás Cubas, em memórias póstumas: o Messias teria visto na aparente pequinesa a salvação da raça – dele, não dos diminutos canídeos - ou certo estará um professor de vida e de mulheres ao afiançar que quem “ama a feia, tesão sempre haverá?”


Não ouso respostar, mas quem é aquela lindeza que alumia a esquina das quimeras e desperta meu querer? Seja quem for, com ou sem bens, a desejo para  meu bem.
Maktub! E assim estava escrito. Não no livro sagrado, mas na poeira do tempo.

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


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Paginação:

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