ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Marcia Kupstas


O falso caldeirão das bruxas

Se tem uma coisa que incomoda -- pra não dizer assusta -- é  quando, numa palestra para jovens, conversa com o leitor ou carta enviada por ele surgem perguntas do tipo: Por que o Personagem X fuma e tem 14 anos? Por que a personagem Y não namorou Beltrano ou Sicrano? Por que Alguém morreu ao final do livro ao invés de viver um “happy end”?

 

O pior, e talvez mais decepcionante para o leitor, é que a primeira resposta para esse tipo de pergunta sobre meus personagens é “eu não sei”. Ou o que pode até parecer mal-educado, mas verdadeiro, é dizer “pergunte a eles”! Em qualquer desses casos a verdade pura e simples é que eu não sei mesmo…

 

Para quem não tem familiaridade com a criação de personagens, esse tipo de resposta soa vazio ou mesmo hipócrita, como se o escritor estivesse querendo “esconder o jogo”, simplificar uma vivência que deve ser muito mais misteriosa, rica e onisciente sobre os enredos e personagens. Pode parecer que por critérios escusos estamos afastando o “leigo” de algum caldeirão mágico, em que, feiticeiros oniscientes e poderosos, remexemos a imaginação com a longa colher da habilidade literária e de lá retiramos pessoas inteiras, desejos e intenções completas, para instalar em nossos feitiços-livros.

 

         Na verdade, duvido muito que existam autores que possam, efetivamente, se dizer donos absolutos de seus personagens. Os caminhos da inspiração são múltiplos e variados, certos personagens podem surgir da observação casual de alguém na rua, nascer de uma notícia de jornal, do acompanhamento metódico de um amigo ou vizinho cuja personalidade é especial, vir num estalo durante madrugada qualquer ou ser fruto de longas entrevistas com muita gente. Para mim, um ele inteiro, com motivações completas, é tão difícil de se conseguir como foi difícil para dr. Frankenstein costurar a sua Criatura com os pedaços de cadáveres e lhe dar vida. Além do quê, a Criatura se revelou tão horrível e solitária, doente no corpo e na alma, que mais assustou que fascinou. (Fascinou sim, como personagem literário de Mary Shelley. E não como arremedo de gente de verdade).

 

         Personagens que nascem de intenções (tantas vezes boas - mas aí temos o provérbio de que o inferno está cheio dessas) geralmente rimam com desastre. Acabam se tornando “personagens de papel”, que agem assim ou assado e falam com esse ou aquele registro porque os autores assim o desejam, e não porque tenham efetivamente uma alma, um corpo e uma boca para se expressar e viver. E aqui, é bom deixar claro que não estou criticando sinopses anteriores à escritura do livro, ou trabalhos de encomenda, em que uma editora, por exemplo, pede que o escritor faça uma história sobre “um menino que perde o cachorro” ou “garota que tem ciúmes da amiga” etc.. Falo da realização interna do texto, da necessidade até visceral do personagem respirar, agir, falar. E ah! Nessas horas, ele tem de fazê-lo por si mesmo.

 

         Por isso, o susto grande quando leitores se atrevem a vir cobrar de mim certas atitudes de Fulano ou Beltrano e querem saber do futuro dos personagens, como se fossem meus vizinhos e eu tivesse obrigação de saber seu dia seguinte e o outro, nas suas vidas além-livro. (Isso me parece tão estranho quanto alguém perguntar como foi a semana de vida em comum da Bela Adormecida e seu príncipe, depois do casamento. Soa quase blasfemo: afinal, a história acabou!

 

         Ah, as histórias! Estas, que são na verdade o caldo onde nossos personagens nadam, feito estranhas figuras de massa boiando na sopa da imaginação. Por  que as ouvimos e contamos? Qual a importância delas, para nós, seres humanos? Afinal, não somos pessoas lógicas e práticas, que trabalhamos, criamos filhos, fazemos sexo, compramos coisas, construímos objetos e estudamos, teorizamos e compreendemos logicamente boa parte dos fenômenos à nossa volta? Qual o espaço que as histórias podem ter na nossa vida do século XXI, quando a maioria dos fenômenos materiais está  explicada, temos cura e remédios para a maioria das doenças que matavam nossos antepassados, vamos em poucas horas da América à Europa de avião, ou nos ligamos com o mundo via Internet?

 

         Talvez as histórias estejam sim, em nossa vida, de maneira muito semelhante como estavam na vida de um guarani ao ouvi-las do pajé ao pé da fogueira, ou na boca de uma avó viking contando sagas para o neto ou nos poemas de um trovador provençal... a herança das histórias é muito forte e permanece.


          Claro que existe outro tipo de herança. Talvez nem estivéssemos vivos se nossos antepassados não fossem lógicos o suficiente para dominar aspectos da natureza, construíssem casas, criassem remédios e vacinas, trabalhassem muito e gerassem mais empregos. Esses valores práticos e organizados são fundamentais para a cultura humana. Mas não sei se estaríamos vivos se também não sonhássemos. Se ao lado de remédios eficazes e casas sólidas o homem não fosse capaz de rogar uma praga ou ver fantasmas num sótão. Não fosse capaz de criar leis para uma vida organizada em sociedade mas também não fosse capaz de se estarrecer com um aventureiro que abandona o conforto e sobe uma montanha ou comete um terrível crime movido pela paixão. Nossas exceções, por mais que pareçam intensas e anti-sociais, também nos pertencem e nos fascinam. E quando contamos histórias sobre elas -- aventuras, crimes, fantasias, amores, guerras e visões, sagas e tragédias -- podemos partilhar do enigma de sermos humanos, vivendo nossas contradições extraordinárias.

 

         As histórias. Voltemos a elas, se é que nos afastamos delas. Qual a sua importância? O escritor norte-americano Stephen King, um fecundo contador de histórias, disse no prefácio de um livro que  “fico encabulado e soa pomposo, mas continuo vendo as histórias como uma coisa importante, algo que não só realça as vidas, mas na verdade as salva. Nem estou falando metaforicamente. O que é bem escrito, as boas histórias, são o precursor da imaginação e, creio eu, a finalidade da imaginação é nos proporcionar consolo e proteção em situações e passagens da vida que, de outro modo, seriam insuportáveis”.   
   

 

         Se existe aquele homem lógico e herdeiro da técnica e da ordem ancestral, aquele que sabe que um raio é uma descarga elétrica e que o arco-íris é um fenômeno ótico, dentro desse mesmo homem deve existir um menino que pode ver, nas nuvens, Odin jogando boliche no Céu com Zeus, ou os duendes enterrando potes de ouro ao fim do arco-íris. O fato de sabermos e conhecermos nunca nos deve impedir de imaginarmos.

 

         Porque somos herdeiros de cultura como somos herdeiros de imaginação. Qualquer um, hoje, entra numa sala e acende a luz com um  toque num botão. E sequer reflete sobre o que esse gesto simples representa, em termos de herança cultural: a busca pela iluminação vem desde a descoberta do fogo, nas cavernas pré-históricas, passando pelos archotes e combustíveis, velas, descoberta da eletricidade, da lâmpada, geradores... até ser simplificada no gesto ligeiro de “ligar a luz”. Idem para nossa capacidade de sonhar. Nossa imaginação foi alimentada na infância, com lobos maus e bichos falantes, pelas fofocas da vizinhança no bairro, histórias bíblicas ou lendas que se perdem no tempo, e é alimentada com personagens bons e maus que moram nas novelas de TV, filmes ou páginas de livros... até serem revisitados nos nossos sonhos e desejos mais secretos. Quem alimenta essa luz interna, recontando velhas histórias, cozinhando-as com mais ou menos tempero, burilando-as em palavras e frases, são os contadores de histórias.

 

         Ouvi uma história, certa vez, sobre os fantasmas japoneses e o respeito e temor que eles causavam, na sociedade nipônica. Até início do século XX havia uma curiosa tradição cercando esses fantasmas. Durante certo número de dias, cem homens se reuniam em um lugar ermo, cada qual com uma vela. Cada homem deveria contar uma história de terror, a mais apavorante que conhecesse, e assoprar a sua vela. Ao cabo das cem histórias, quando o centésimo contador apagasse a centésima vela, surgiria um fantasma...

 

         Pessoalmente, não consegui testar a tradição, até porque nunca arranjei 99 parceiros corajosos dispostos a pô-la em prática, mas como jogo retórico essa imagem é poderosa. Adoro a ideia de fazer parte dessa centena de corajosos contadores de histórias, a enfrentar os fantasmas munidos apenas da sua voz e imaginação, a velinha frouxa da linguagem e estilo para trazer apoio. É uma boa ideia, e diz muito sobre nossa fragilidade e pretensão de contar histórias.

 

         Aqui dá para fazer uma ressalva e outra reflexão, sobre nossa pretensão de escrever histórias num mundo que “não lê”, como afirmam alguns. E vêm as críticas tão constantes, aos “tempos modernos”, como se o cinema, depois a TV e mais recentemente o computador e os videogames fossem vilões abismais, a arrancar pobres criancinhas e adultos ignorantes das maravilhas das páginas dos livros para lançá-los no turbilhão das diversões descartáveis e inúteis…

 

         Lamento, mas não faço parte do coro dos inimigos da imagem, como se pertencêssemos a dois mundo distintos: o das letras impressas e das imagens ligeiras nas telas. Acredito sempre mais que fazemos parte sim de um mundo das histórias, e no que se refere a elas, vivemos um século bem servido de apelos e ideias, muito obrigada. Mesmo num mundo “globalizado” continuamos carecendo da palavra  -- e mais que nunca. Critica-se o computador: o que seria de nossa comunicação via Internet se não escrevêssemos a mensagem? Fala-se da perda de tempo com videogames: certas apresentações de jogos são tão elaboradas quanto um filme, e as mensagens em inglês forçam muitos jovens a entender outro idioma desde cedo.

 

         Não se mata a história. E a boa história jamais mata a curiosidade; ao contrário, alimenta-a. A curiosidade -- aliada da imaginação e do sonho -- é fera que se autodevora, querendo mais: do filme ao livro, do livro ao jogo, do jogo ao site na Internet e de novo a outro livro indicado por alguém, a um Banda Desenhada, a um filme... o fim da história? Ah, isso também não interessa. Interessa que o processo é muito interessante, rico e se auto-alimenta, numa roda-viva que cresce a partir da hora em que incorpora mais e mais gente, mais e mais... “leitores?”, “ouvintes?”, “internautas”? Sei lá.

 

         É também voz constante aquela que critica a “qualidade” de filmes, livros, Banda Desenhada. Que parte do pressuposto de que aquilo de que muitas pessoas gostam não pode ser bom -- apenas porque muitas pessoas gostam dele. É uma simplificação -- e como tal, pode incorrer em injustiças. Não se deve pedir a um filme de aventuras que passa na sessão da tarde, por exemplo, para ser assistido entre pipocas e refrigerantes, a mesma profundidade de visão de mundo de um Bergman, com suas sombras e retratos densos da vida. O mesmo espectador porém pode adorar o filme aventuroso aos dez anos de idade e comover-se com FANNY E ALEXANDER, aos trinta. Ou o mesmo intelectual que profissionalmente se dedica a leituras densas, de autores considerados “difíceis”, pode ler nas horas vagas um romance policial como um adorável exercício de reflexão e passatempo. São coisas diferentes - e ambas importantes. 

 

         O mesmo se pode dizer sobre livros e autores em sua época e como a posteridade os encarou e avaliou. Provavelmente a maioria dos leitores brasileiros considera hoje José de Alencar um autor erudito, sério, pertencente à “alta literatura”, nome fundamental, alicerce de nossas “belas letras”. Ora, o Alencar de meados do século XIX escrevia em jornal, romances extremamente populares como A VIUVINHA ou CINCO MINUTOS, que eram oferecidos como brinde para aumentar a circulação e começaram a ser disputados além da edição jornalística, de tal modo cativaram os leitores de então. Alencar passou a vida se defendendo de críticos ranzinzas, que o acusavam de plagiar autores estrangeiros ou de ser um ignorante do vocabulário...

 

         No fundo, essas avaliações externas, de estilo e intenções do autor, têm mesmo um bocado de ranzinzice. Podem ser úteis na análise literária, mas são pouco eficientes no que se refere ao bom e necessário prazer que uma história deve nos trazer. Ninguém lê (ou deveria ler) porque alguém disse que “era importante”; mas sim, porque a história é boa, é saborosa, vai-nos dar alegria ou acrescentar referências sobre nós mesmos, o que somos e queremos, imaginamos e sonhamos. 

 

         E quem é o tal contador de histórias? Como somos, por que o fazemos?

 

         No romance O FALADOR, o escritor peruano Mario Vargas Llosa descreve uma curiosa tribo amazônica, formada por poucos e dispersos membros, soltos na imensidão da floresta. É um grupo étnico de linguagem sofisticada e que sobrevive em regiões tão distantes, que um grupo mal sabe da existência do outro -- porém, eles continuam se sentindo membros de uma só comunidade, formando um só povo. Por quê? Como aquele punhado de gente consegue manter sua unidade e tradição, se são nômades e mal e mal tomam contato entre si?

 

         No romance, a resposta vinha na figura do “falador”. Um andarilho, cuja função na vida era andar de grupo em grupo da tribo, para “falar”. Para apresentar-se durante vinte horas ou mais, falando sem parar, diante de uma plateia atenta, sobre... tudo. Mitos formadores da terra. Histórias lendárias. Cuscuvilhices, crônicas do cotidiano de cada grupo -- fulano casou, sicrano morreu... misturadas ao manancial de histórias que a tribo havia gerado e continuava gerando, trazendo uma unidade para aquele grupo disperso de homens da mesma tribo, que, através das palavras do Falador, sentiam-se pertencentes à mesma comunidade, ao mesmo povo. O que tornava aquele disperso povo nômade uma comunidade coesa era o Falador  -- um contador de histórias.

 

         Gosto da ideia de ser um Falador, de me sentir parte dessa gente que conta histórias. Saber que de uma forma ou de outra somos os guardiães de tantas histórias antigas e alimentadores de imaginação. É muito bom supor que ainda pertencemos à tribo, mesmo que a imensidão amazônica nos separe. É extremamente gratificante, para um escritor, supor que estamos todos à volta da fogueira e que aqueles que nos ouvem (ou leem) podem descobrir que um personagem da história contada pelo Falador é na verdade o seu irmão, esposa ou filho. Que você, leitor/ouvinte/espectador pode estar na pele do adolescente que sofre uma derrota no amor, ou na garota que deseja ser bailarina, ou no menino que descobre o encanto de ser dono de um cachorrinho. Esses personagens tornam-se seus parentes e amigos, fazendo parte de você, incorporados às suas lembranças e imaginação.

 

         Desse modo, sabemos que a tribo continua. Que o caminho pode ser longo e nosso destino, nômade. Mas nos sentimos menos sozinhos. Por isso é importante ouvir histórias, é importante alimentarmos nossa curiosidade e imaginação com os textos dos livros, com os personagens que “parecem gente de verdade”, mas que moram nas páginas ou nas figuras que nos contam histórias.

 

Marcia Kupstas. Escritora e professora,  nasceu em 1957 em São Paulo, capital. Publicou mais de 150 livros, entre eles: Crescer É Perigoso(Prêmio Revelação Mercedes-Benz 1988), É Preciso Lutar (Prêmio Oŕigenes Lessa,1989), Eles Não São Anjos Como Eu (Prêmio Jabuti – Juvenil 2o lugar – 2005), A Namorada de Camões. Está em Lisboa desde outubro de 2017 a escrever um novo romance, BALADA DOS ROCKEIROS MORTOS E ANJOS CAÍDOS.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


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CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


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