ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Ngonguita Diogo


Dois textos

LUANDA EM QUEDA LIVRE

 

Meu  carro reluzia ao brilho do sol. Ao vê-lo luminoso sorri  satisfeita, a falta de água em casa, a roupa mal passada em mim porque a energia é fraca, bem como outros contratempos forçaram a minha saída para espairecer.
 


Acarinhei a viatura conseguida com muito esforço e pensei nas injustiças sociais que matam aos poucos a maioria dos angolanos. A minha mão ficou suja de pó. “que desolação!” Pensei em limpa-la, mas percebi que estava desprovida de material para o fazer. Sacudi-a  roçagando uma mão contra a outra.

 

Abanei a cabeça tentando afugentar as lembranças que me incomodam diariamente: hospitais engolidos com pessoas doentes e carentes, crianças com fome e a expressão familiar que me namora dia a dia “ é a crise” – diz-se por ai. Entrei na viatura liguei a ignição e logo a seguir, a rádio Luanda para ouvir as notícias do dia.

 

 “ Para quê indispor-me ainda mais com notícias desestabilizadoras?- Pensei. Coloquei um CD de música romântica e segui o meu destino à caminho da Ilha de Luanda, passando pela zona dos Coqueiros.

 

As ruas estão cada vez mais esburacadas. Com isso  precisei contornar pedras, buracos e animais de estimação estendidos sem vida no que resta de tapete asfáltico, porque seus algozes nem sequer paravam para proteger-lhes o corpo, deixando-os expostos às várias mutilações. Nem os bombeiros, cristãos, ou até mesmo os vaidosos defensores dos animais em Angola, acodem os seres vivos simpáticos que doam ao bicho homem toda a sua vida.

 

Os roboteiros1 carregando mais do que os seus veículos conseguem suportar juntaram-se aos empecilhos que, naquela manhã ensoleirada feriu minha sanidade.

 

Apesar disso, a paisagem é ainda bela, decorada com mulheres de todas as cores e gingares, umas mais faceiras em seu rebolar, deixando energia luxuriosa pelas ruas por onde passam.

 

No largo do Baleizão lembrei-me nostálgica do tempo em que sentava num dos bancos com um gelado na mão, sonhando com uma Angola diferente onde o amor, a solidariedade e a união seriam as pedras basilares para o seu desenvolvimento. Contornei o largo, a esquerda e enxerguei a obra imponente que cobre a linda Fortaleza de Luanda, lugar histórico de grande valor cultural.

 

Ao intruso erguido deram-lhe o nome de ”Shopping Fortaleza”. Indignada, pensei na quantidade de terra virgem que circunda a cidade e arredores. Tive pena da minha capital asfixiada pela ambição desmedida de alguns, falta de saneamento básico,  escassez de iluminação publica  e  água canalizada.


 
A viatura continuou o seu percurso pela Ilha de Luanda. Parei para apreciar o edifício branco que um dia foi referência na cidade, agora renegado ao abandono. O Hotel Panorama preserva ainda traços esculturais de sua beleza. Nos poucos minutos em que aí fiquei, um redemoinho de lembranças me visitou. Voltei para a minha juventude e estava lá dançando e sorrindo feliz!

 

Continuei o percurso e voltei a parar. Estava em frente do Jardim Zoológico. Desci, empurrarei a porta enferrujada e adentrei no recinto que mais parece uma sepultura de almas, aí o vento sibila a cantilena da morte, gemendo um coro de lamentações. O silêncio espelha ilusões extintas. Os segredos dos amores nascidos no encontro de olhos juvenis, o sorriso das crianças e a ansiedade dos pais, agora transformada em escombros e lugar para defecar.

 

O jardim ainda guarda emoções, sentimentos profundos, lágrimas, segredo e sonhos, o manto de esquecimento cobriu e sepultou para sempre naquele lugar.

 

Regressei. Não deu para espairecer. Estou como Luanda, em queda livre.

 

Notas

 

1 Carregadores de carga em transporte artesanal

 

 

 

 

A SOGRA VENENOSA

 

O dia despertou febril.

 

Zola esfregou os olhos ainda na cama e espreguiçou-se. Era muito cedo mas a imagem da senhora perfumada não lhe saia da cabeça, suspirou desgostoso por não conseguir dormir. Ao seu lado a mulher dormia sossegadamente, remexeu-se apenas para mudar de posição e continuou a ressonar agarrada na almofada.

 

Ele estava sem sono como nos últimos cinco dias, desde que a visita chegara inesperadamente. Ao vê-la pela primeira vez, não conseguiu esconder o impacto que sua presença lhe causara. A mulher trazia a tentação no rosto, no perfume e no corpo.

 

- Apresento-te a minha mãe! – Disse-lhe a mulher.

 

- O quê!? – A pergunta foi leviana e todos olharam para ele sem entender. Nem ele mesmo entendeu. Se fosse uma situação normal teria esboçado um largo sorriso e beijado o rosto da visita, mas não conseguiu nem dar boas vindas, para surpresa de todos.

 

- Desculpa, estou com a cabeça em reboliço, hoje tive um dia complicado! – Afirmou e retirou-se da sala, perdido em seus pensamentos perversos.

 

Levantou-se da cama devagar para não acordar a companheira e voltou a espreguiçar-se. Depois moveu-se exercitando o pescoço, a seguir rebolou a anca para todos os lados e por último baixou o dorso e subiu-o em movimentos cadenciados até se cansar. Fazia isso todos os dias ao sair da cama para manter-se em forma.

 

Encaminhou-se para o corredor e ligou o telefone. As mensagens deram vida a casa que estava silenciosa mas já perfumada. O cheiro do café convidativo vinha da cozinha aonde se dirigiu a passos lentos. Ela estava lá, vestida com uma batinha floreada e esvoaçante, bem cheirosa como sempre. No corpo levemente arredondado, a bunda era ligeiramente empinada; tinha um olhar de gazela atrevida, os lábios grossos estavam pintados com batom vermelho escuro, as curvas perfeitas da visita atormentavam-lhe desde que evadira a sua casa.

 

Lembrou-se do frenesim de seu alembamento, o quintal estava enfeitado de mulheres mas ela não estava lá, tinha sido representada por uma irmã mais velha. Naquela altura já vivia em Lisboa e no momento não podia viajar, disseram-lhe. Tentou em vão lembrar-se da razão que a levou a faltar a um encontro familiar tão importante, mas não conseguiu.

 

Ao longo dos anos que se seguiram viu sem interesse algumas fotografias dela. Agora estava aí naquela hora da manhã em sua cozinha, assustadoramente irresistível. Ela retirava e punha os utensílios nos devidos lugares com movimentos suaves, ao contrário dos grotescos movimentos familiares.

 

E assim começou o seu purgatório. Olhou-a em silêncio angustiante, temia que fosse descoberto pelo palpitar de seu coração. Mas foi o olhar lascivo que o denunciou, quando se virou e o viu encostado á porta entreaberta da cozinha, a olhá-la perigosamente flagelado. Ele tremeu inquieto quando sentiu a quentura do olhar da mulher que o arrebatara e o colocara nos pícaros do Himalaia, mas, não conseguiu balbuciar uma palavra, seu coração batia incontrolável. Ela sorriu encantadoramente e o deixou ainda mais fragilizado.

 

- O café está quente. Queres uma chávena?

 

- Por favor!

 

Ela debruçou-se para abrir a gaveta do armário e tirar de lá a tolha individual que colocou na mesa. Aquele movimento inebriante desconcertou-o. Imaginou-se perdido num mundo inacessível. Encolheu-se para esconder a chuva lasciva que o visitou e enalteceu a vida entre as pernas. Ela continuou a sua faina, retirou do armário a chávena, o bule e na outra gaveta o talher, colocou a loiça na mesa em silêncio. Dirigiu-se ao fogão e segurou a cafeteira com uma pega para proteger-se do calor e voltou-se para o servir. Ele continuava escondido atrás da porta como uma criança envergonhada.

 

- Senta-te! – Ela ordenou com voz rouca e ele obedeceu.

 

Ela chegou perto para servir o café. Ao debruçar-se o perfume inebriou-o, os seios orgulhosos ameaçaram agredir-lhe fisicamente. Ele ouviu o murmurejo de indecências em seus ouvidos. A agressão vinha de lábios vermelhos como o mais feroz gindungo de cahombo. As palavras dançavam em seu pescoço a Kizomba do amanhecer e no corpo desperto a leve pluma tocou. O vento se encarregou de expulsá-la.

 

- Com açúcar? – Perguntou espreitando-lhe o rosto que não escondia a impudência.

 

- Sim.

 

- Com leite? – A menção da palavra “ leite” deixou-o ainda mais excitado e ele que já estava mergulhado na orgia carnal, pareceu ouvir gemidos a sugerir o alimento da vida.

 

- O quê? – Perguntou sem entender.

 

- Perguntei se quer leite no café!

 

- Desculpa, estava distraído. Prefiro café preto!

 

E essa agora? Retirou-se da mesa sem tocar no café. Voltou para o quarto em ponto de bala e suspirou aliviado ao ver a sua nudez deitada no leito, precisava do calor dela para arrefecer a fogueira e serviu-se do banquete autorizado sem remorsos. No vai do sabor do pecado, relampejava o rosto de sua mulher, o vem do gozo trazia o rosto da intrusa de paladar europeu.

 

 

***

 

O cenário era um bar moderno. Aquela hora ouvia-se música romântica em volume baixo, para deixar o ambiente um pouco nostálgico, propício para conquistas. Zola brincava com o gelo que derretia no seu copo de whisky, enquanto aguardava ansioso pelo amigo, que não demorou a chegar.

 

- Estou perdido pá, naufragando entre as pernas de duas mulheres.

 

– Zola deixou vazar uma atmosfera de inquietação no olhar que dirigiu ao amigo.

 

- Ah, ah, ah, essa é boa! Naufragas entre as pernas de duas mulheres e te sentes perdido? Eu gostaria de naufragar apenas entre as pernas de uma, com certeza que me reencontraria!

 

- É sério meu! Estou sendo comido apenas por uma!

 

- Gosto dessa ideia de sermos degustados pelo belíssimo sexo frágil!

 

- De frágil não têm nada meu amigo! Frágeis somos nós!

 

- (risos) Quem te come afinal?

 

- A minha mulher! Daquela não me safo tenho sido o prato preferido!

 

- O único que eu saiba!

 

- Sim! Mas o pior é que quando estamos juntos não é com ela que gozo!

 

- Seja claro agora quem está perdido sou eu!

 

- Quando estamos juntos sinto a presença da visita!

 

- Como assim? Convenhamos que é difícil perceber o que me dizes!

 

- Sei! Vou tentar explicar não é fácil, acho que estou a enlouquecer!

 

- Muitas mulheres ao mesmo tempo confundem a cabeça de qualquer pessoa. Mas diga-me de que visita se trata?

 

- A visita que tenho em casa!

 

- O quê? A sogra? – Escandalizou-se o amigo.

 

- Sim!

 

- Ché! Será que ouvi bem, a sogra? – Voltou a perguntar.

 

- A própria! Agora entendes não é? Tenho fugido dela como o diabo foge da cruz desde que chegou de Lisboa quase não durmo, ela deixa-me louco!

 

- (risos) Não sei o que te dizer amigo e agora?

 

- Ainda tenho alguma decência meu amigo, ela é a mãe da minha mulher, luto para tirá-la de meu pensamento mas está difícil. Ela tem umas mamas, uff!

 

- Instigado pelas mamas amigo?

 

- Não só! Ela é excitante mente inteligente.

 

- Meu Deus! Fica em tua casa até quando?

 

- Não sei, acho que vou inventar uma viagem para fugir da tentação!

 

- E ela?

 

- Evito olhá-la nos olhos, tenho medo de denunciar-me!

 

- Achas que percebeu alguma coisa?

 

- Disso não tenho dúvidas amigo, ao lado dela fico perdido, até a minha mboa já percebeu!

 

- Epá! E como reagiu?

 

- Tenho sabido disfarçar!

 

- Ainda bem!

 

Sentiram a presença de um vulto, inebriados com o perfume que se espalhou pelo recinto. Instintivamente viraram para ver de onde vinha o cheiro e, avistaram a mulher que os deixou sem fôlego, tamanha beleza ofuscou as jovens que se encontravam na sala. A sua entrada iluminou o bar, não houve mesa indiferente aquela aparição.

 

Ela passou por eles destilando veneno, o gingar luxurioso espalhou sémen em todas as mesas na mesma proporção. Zola sentiu o corpo electrizante, sua bobina motorizada acelerou para ouvir sinais languidos de uma leoa acossada no prazer da selva. O abismo do desejo conectou-se e ele subiu até atingir a dimensão do Quilimanjaro. Ela estava acesa como o cigarro que acendeu para esconder a tempestuosa paixão que deixou impudico seu safado corpo.

 

 - Meu Deus que mulher linda!

 

- É ela!

 

- Baza meu, baza!

 

Ngonguita Diogo é pseudónimo literário de Etelvina da Conceição Alfredo Diogo. Nasceu em 1963, em Cazengo, Província do Kwanza Norte/Angola. É formada em Administração de Empresas, poetisa e declamadora.

Tem as seguintes obras publicadas: “No Mbinda o Ouro é Sangue“, 2010 - Conto; “Weza a Princesa“, 2010 - Infanto-Juvenil; “Sinay“, 2011 - Romance; “A Minha Baratinha“ 2011 - Infantil; “Acudam Maria do Rangel“ 2013 - Romance;“Da Alma ao Corpo“ 2014 – Poesia “E Assim Virei Maria“ - CD de poemas. Tem poemas publicados no Suplemento “Vida e Cultura” do Jornal de Angola, no Semanário “O Independente” e na “Revista Omnira“ em Salvador da Baia. É Membro da Academia de Letras do Brasil e do“Movimento Lev arte Angola“.

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Colaboradores de Maio de 2018:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Magalhães Zeiner, Alexandra Vieira de Almeida, Bruno Candéas, CARLOS BARBARITO, Carlos Vale Ferraz, Cássio Amaral ; Heleno Álvares, Cláudio B. Carlos, Cristian Barbarosie, Daniel Rosa dos Santos, Diniz Gonçalves Júnior, Fabián Soberón ; Will Moritz, trad., Federico Rivero Scarani, Fernando de Castro Branco, Filipe Papança, Gociante Patissa, Henrique Dória, Hermínio Prates, Inma Luna, Jandira Zanchi, Jean Sartief, João Aroldo Pereira, José Couto, José Gil, José Guyer Salles, Kátia Bandeira de Mello-Gerlach, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Alberto Nogueira Alves, Marcelo Labes, Marcia Kupstas, Maria Estela Guedes, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ngonguita Diogo, Nilo da Silva Lima, Noélia Ribeiro, Nuno Rau, Paulo de Toledo, Reynaldo Bessa, Reynaldo Jiménez ; Rolando Revagliatti, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Tânia Diniz, Vera Casanova, Jayme Reis


Foto de capa:

CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


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