ANO 4 Edição 68 - Maio 2018 INÍCIO contactos

Noélia Ribeiro


Cinco poemas de Noélia Ribeiro

MINHA VEZ

 

Tenha paciência.
Você diz.

 

A pele do meu rosto mira o chão
e cai. Na boca, as bactérias se
reproduzem sem trégua. O inverno
inflexível nos surpreende.

 

E você quer de mim paciência.

 

Aceno para o ônibus que não
espera. Motoristas buzinam
para o carro da autoescola.

 

Paciência?

 

Açodado, o câncer traga a
mulher de cabeça raspada.
Crianças dormem menos.
Adultos dormem menos.
Você prefere um amor sem
a agonia do encontro.
Eu, não.

 

O painel avisa. Minha vez.
O auxiliar de enfermagem não
encontra a veia e pede calma.
O silêncio dele é igual ao seu.
O garrote no braço me faz chorar.
Doeu.

 

 

 

 

PRESSA

 

 

Do poema que fiz
sobre sua falta
de tempo
ele só leu
o título

 

 

 

 

AMANTES

 

 

O amor não é esquizodrênico.
Não anoitece com o sol
nem amanhece com a lua.

 

Desfaz a couraça de Reich,
os vícios e a falcatrua,
que interrompam o encaixe.
Raspas, restos, migalhas
dormidas de Agenor
(não, obrigada.)
mancham o assoalho
onde repousa o amor.

 

Assoma à janela
a noite sagrada
de prazeres abundantes.

 

O amor não é esquizofrênico.
Esquizofrênicos são os amantes

 

 

 

 

DOMINGO NO PARQUE

 

 

A espera já dura
nove semanas e meia.
Ela ajeita-se no banco.
As costas não doem mais.
Pisca uma dezena de vezes,
sob a luz estroboscópica do sol.
Puxa o vestido até os joelhos.
Retira da bolsa a foto dos dois.

 

A criança de fralda deixa
esvair da mão um punhado de terra
e pega novamente outro punhado.
Não espera.

 

 

 

 

SERÁ QUE O SOL JÁ VEM?

 

 

A chuva forte pelo vidro
Da janela
Realça o verde
Da folhagem.
Formam-se pequenos
Montes de argila
Que moldam sugestivas formas.
Tudo se renova!
A água procura
Um lugar para o lixo:
Insetos mortos
Versos fúteis, restos
De feitiçarias, guimbas
De afetos e vícios.
O cinza esmaltado do céu
Sugere algo essencial:
O prazer inexorável e diário
De expectar o mais livre dos sóis

Após o temporal.

 

Noélia Ribeiro é pernambucana e residente em Brasília. A poeta  lançou “Expectativa” (independente), em 1982; “Atarantada” (Verbis), em 2009; “Escalafobética” (Vidráguas), em 2015, e “Espevitada” (Penalux), em 2017. Graduada em Letras pela Universidade de Brasília, tem poemas publicados em antologias, jornais e revistas eletrônicas. Em 2017, recebeu da SECULT-DF o Prêmio FAC 2017 – Igualdade de Gêneros na Cultura e foi poeta homenageada no 31º Salão Nacional de Poesia Psiu Poético, em Montes Claros (MG). Os poemas escolhidos são do livro “Espevitada”.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2018


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Colaboradores de Maio de 2018:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Magalhães Zeiner, Alexandra Vieira de Almeida, Bruno Candéas, CARLOS BARBARITO, Carlos Vale Ferraz, Cássio Amaral ; Heleno Álvares, Cláudio B. Carlos, Cristian Barbarosie, Daniel Rosa dos Santos, Diniz Gonçalves Júnior, Fabián Soberón ; Will Moritz, trad., Federico Rivero Scarani, Fernando de Castro Branco, Filipe Papança, Gociante Patissa, Henrique Dória, Hermínio Prates, Inma Luna, Jandira Zanchi, Jean Sartief, João Aroldo Pereira, José Couto, José Gil, José Guyer Salles, Kátia Bandeira de Mello-Gerlach, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Alberto Nogueira Alves, Marcelo Labes, Marcia Kupstas, Maria Estela Guedes, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ngonguita Diogo, Nilo da Silva Lima, Noélia Ribeiro, Nuno Rau, Paulo de Toledo, Reynaldo Bessa, Reynaldo Jiménez ; Rolando Revagliatti, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Tânia Diniz, Vera Casanova, Jayme Reis


Foto de capa:

CÂNDIDO PORTINARI, 'o lavrador de café', 1934.


Paginação:

Nuno Baptista


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