ANO 4 Edição 67 - Abril 2018 INÍCIO contactos

Alexandra Vieira de Almeida


A poesia autêntica na obra 110 poemas, de Roberval Pereyr

 

Na Coletânea 110 poemas, de Roberval Pereyr – uma antologia pessoal, temos 8 livros do autor, desde “As roupas do nu” (1981) até “Mirantes” (2012). Esses poemas nos presenteiam com a real imagem do poético, em todo o seu lirismo.


No poema “Canção”, que abre a Antologia, a força do existir, que se traduz como contemplação da vida, soprepuja o eu, este vizinho da subjetividade que se espanta com a vida e morre com ela. Isso é tudo construído num rico paradoxo entre o eu que se apresenta a partir da utilização da primeira pessoa do eu-lírico, criando um maravilhoso e enfático contraste entre o apelo do ser e do existir; e a experiência, matéria da própria vida, ultrapassando o pequeno ego: “Não tenho muitas vontades://contemplo a brisa...”. Por outro lado, temos o recurso estilístico do parêntese que se revela como sofrimento, aproximação com a morte, a partir da pausa, da busca pelo que desconstrói o eu: “às vezes me dói (à tarde) a vida.” Experiência e ego, vida e morte, o ser e o outro se entrechocam, formando a primazia do poetar que subverte a dicotomia, traduzindo os pares opostos, numa reunião entre a existência e o ser que a habita.


No livro, “Ocidentais”, de 1987, temos o belíssimo poema “Tao” que novamente cria o imaginário poético de Roberval Pereyr, através deste apelo ao inaudível da palavra, do caminho que se bifurca, cabendo ao leitor escolher a sua via mais potente: “Na diferença que há/entre o que sou e o que quero...”. E continua: “Na tensão que a vida gera...” Esta tensão se recompõe, não nutrindo o acesso a uma tragicidade incontornável, mas também não apresenta uma solução fácil, unindo satisfatoriamente os elementos tensos. Apesar de contraditórios, eles convivem, não trilhando a via única, mas deixando ao inteligente leitor esta tarefa, pois o poeta trabalha com a questão, com a pergunta, que ousadamente, cabe ao leitor responder, não de maneira facilitadora, mas plena em significados, pois cada Tao/caminho é pluridimensional na sua univocidade, eis a riqueza estratégica composta por Pereyr na sua dissonância harmoniosa: “entre meu corpo e meu sonho/ali, deus e fera, ali/me componho”. Se o espelho é o leitor, traduzindo em imagens estes versos no seu pensamento ou no seu falar, temos um discurso vário/bravo, se o leitor se retraduzir como coautor, se ele fizer esta ponte entre o texto e sua criação em verbo poético.


O “Labirinto” se mostra como reflexo deste paradoxo construído pelo poeta em questão, excepcional e original em sua criação literária: “Vou me perder/nas pistas pantanais opostas”. No devir da nulificação, quando os opostos não são mais imbuídos desta lógica binária e sacrificante do vazio, encontramos a poesia em toda sua essência. O sentido se traduz no nadar no silêncio desta paz poética, que não é a “paz caduca”, mas a inaugural, na origem de tudo, que se demonstra como “caos”: “e evocar a música do caos”. Ovídio, no seu grande e pertinente livro, As Metamorfoses, já revelava esse caos movente, em que os opostos se atraíam em sua massa dinâmica. E Octavio Paz, no seu revelador texto sobre a imagem poética, em “A imagem”, do livro Signos em rotação, apresentava a convivência necessária entre realidades opostas, pois o “pesado” poderia ser o “leve”, na sua relação tensa e dinâmica, não se escolhendo uma identidade e indo contra o princípio da não contradição. A máxima aqui nesse poema magistral de Roberval Pereyr é mostrar como a tensão se distende no vazio original do caos. O lirismo rico e latente na sua poesia mostra a grandiosidade deste poeta que recria as palavras de forma a nos abismar na força do próprio “poético”.


No último livro da Antologia, “Mirantes”, temos, no poema “Lírico”, o encontro com o mais vivo na chama do poético, que é o lirismo. A riqueza lírica dos versos de Roberval Pereyr retorna à “recordação” da lira, que traz de novo ao coração, como diria Emil Staiger, o movimento pendular do mistério do existir, desdobrando aqui neste poema na feição imagética do poetizar, que rememora imagens por sons, pensamentos e palavras: “na selva de meus dilemas/tratei com feras: palavras...”. Toda uma natureza é sobreposta ao verbo. Assim, a palavra ganha contornos líricos por musicar a experiência, o que vem de fora, por recordar o momento original da visão, o “estranhamento”, de que falavam os Formalistas Russos. Esta aurora do lírico se revela como violência, força, que fere e é ferida pela natureza. “Selvas”, “éguas”, palavras próximas por sua sonoridade, avizinham-se para mostrar o matiz mais dinâmico na poesia, que é a música da beleza.


Portanto, nesse livro refinado, afiado e lírico, temos o tempero necessário da verdadeira poesia, criar o elo entre sons, pensamentos e imagens superpostas, mirando o olho vivo na poesia autêntica. Como nos apresentou o poeta moderno norte-americano Ezra Pound, a poesia tem de ter três elementos necessários, a melopeia, a fanopeia e a logopeia, algo que Roberval Pereyr traduz com maestria neste livro aglutinador de diversas faces, leves, bravas, várias, descortinando para o leitor a poesia na sua essência, como o vigor da natureza e sua música, a lira.

 

Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, ensaísta e resenhista.Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Tem quarto livros de poesia publicados, sendo o mais recente Dormindo no verbo ( Penalux, 2016). Tem poemas traduzidos para vários idiomas e publica constantemente em jornais, revistas, antologias, e alternativos por todo Brasil e também no exterior.

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2018


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Paginação:

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