ANO 4 Edição 67 - Abril 2018 INÍCIO contactos

Bárbara Lia


“Não o convidei ao meu corpo”: fragmentos

 

Sinto uma mão úmida e tensa a tomar minha mão, ouço uma voz que me pede para não ficar martelando nesta tecla de agonia como se estivéssemos vivendo dentro de uma sinfonia de Stravinsky. Há o ponto de fuga. Penso que é isso que Paul sussurra setenta e sete anos depois de sua morte, nesta sala, na manhã cinzenta de um país tropical. Menos mal. Nasci para negar dor, e penso que devo aferrar-me ao antigo hábito. Gosto deste terno de tecido antigo que ele usa na fotografia e gosto deste rosto que ele veste quando me visita. Não tenho nada a oferecer a não ser café ou um chá de erva-doce. Ele sorri. Aos europeus sempre apresentamos a nossa cachaça. Aos europeus, nosso mundo exótico de Natureza e Música. Eu o levarei a uma roda de samba, Klee. Embora eu não possa dançar, haverá uma mulher para te ensinar a ginga maravilhosa da nossa gente espalhafatosa. Somos tão diversos, Paul. Aqui as cores e as coreografias combinam tanto com seus quadros. De alguma forma, vestistes a liberdade plena de tudo que vi norte a sul deste país gigante, adormecido ainda. Ele pulsa como suas rosas pulsam em seus quadros. Ele tem traços fortes como em suas telas, e aqui tudo é poesia, como os títulos dos teus quadros que foram raptados de seus versos. Vê aquele galho escondido em algum ponto de um lugar onde a natureza é bruta? Breve o galho sacudirá e de lá vai voar uma gralha azul linda. Aqui onde vivo ela é o símbolo, e tudo que tem asas eu sigo. Eu amo. Somos cativos de uma dor sim, mas a vencemos, até que ela nos vença – pela morte. Veja a similaridade e não solte minha mão. Parece estranho te materializar assim, de forma tão plena. Isso é obra de poeta. Sinto falta de um lugar sonhado. Um lugar que se constrói agora como em um filme que se passa cem anos atrás. Vejo uma trilha de chão batido que dá em uma alameda cercada por árvores altas. Adiantando a cena, vejo de costas o teu casaco surrado e tua mão a puxar-me para esta estrada. Longe deve haver um lugar onde a grama é tapete de ternura, o rio, o cheiro das flores silvestres. Tela e tintas. Um dia todo para rir e criar e partilhar tudo que não é dor. Não solte minha mão, Paul! Não solte!

 

Página 66-67

 

 

 

 

Como eu sei que sou Você? Ouço uma incessante chuva no pátio, mesmo que não exista pátio. Uma parte minha vive na Casa Azul, ainda. Ouço uma incessante goteira na pedra quando estou entre o sono e o despertar. Como você e todas as mulheres de sangue indígena, levo esta postura de rainha, o queixo erguido, o olhar que nunca se dobra, nunca em nós uma postura de subserviência. Temos o chão e a floresta e os segredos dos ancestrais. Os teus são toltecas, e os meus são da etnia Tupi. Nossa pele canela conhece o sol e não se irrita com seus raios, e nosso amor pela lua vem de longe, de muito longe. As estrelas amam estas mulheres das tribos e temos sempre uma que escolhemos para ser nosso farol. Nunca soube a tua, mas a minha é a estrela Vésper.


A minha primeira reação ao perder uma paixão é cortar os cabelos e, tal qual você, meu rosto pedra quer ser adornado por uma aura masculina quando um homem se coloca acima de mim, ou tenta se colocar acima de mim.


Diferimos em algo, afinal. Nunca amei ou desejei mulheres. Nunca é uma palavra impossível. Não existe. Nunca é algo que não existe. Por isso, em uma noite, em um ambiente vaporoso de luz pouca e quase vazio. Em uma noite que se perdeu no tempo, diante de uma bela mulher misteriosa e cálida, que me dizia belas palavras sobre a liberdade de amar, senti uma doce atração animal a rasgar-me na altura do baixo ventre. Ela fumava como se fosse uma diva do cinema, e ela tinha aqueles olhos mortiços que detonam, e ela era frágil. Aquele momento de solidariedade fêmea e aquela estampa inacreditável de beleza derrubou uma tênue barreira. Durou segundos, alguns segundos no tempo. E eu soube da incorruptível beleza que pode brotar entre as mulheres. Foi o que aprendi naqueles poucos segundos na Ilha de Lesbos.

 

Página 87-88

 

 

 

 

Em uma primavera qualquer você vê na prateleira de uma loja de produtos naturais o doce de Laranja da Terra que tua mãe fazia. Você compra e chega a casa e o devora, e toda a viscosidade da calda de sol claro escorre pelos lábios, e tu saltas no tempo e revive os dias em que tinhas dez anos: o sol escandaloso virgem que te fez feliz, a poeira de uma cidade pobre. Lembra a ida ao sítio de um amigo de seus pais e, na volta, aquele saco de estopa cheio de laranjas imensas quase do tamanho de uma bola de futebol. A mãe a dizer que era imprestável o sumo da fruta, dela ela queria apenas a grossa crosta que a envolvia, o doce era da casca. Retirava a pele mínima da superfície e os gomos do interior, cortava aquela casca grossa em pequenos pedaços hexagonais e colocava naquele tacho de cobre com água e açúcar. Depois de cozidas, ela ficava transparente e deliciosa. Sempre o mistério da transparência das frutas depois de cozidas. Os mamoeiros do quintal também eram visitados por minha mãe, antes de as frutas ficarem maduras. Ela colhia ainda verdes aqueles pequenos mamões, e o doce ficava com o mesmo aspecto transparente das laranjas, um verde pálido delicioso. Ainda amava mais o doce de laranja. De forma clara tu percebes aquele fio entre os doces da infância e a maturidade não desperdiçada: algumas vivências vão transparecendo a beleza dentro das pessoas. O fogo e o cozimento, o processo de se transformar em doce transparência que alimenta. Não endurecer e enegrecer enquanto se leva bordoada da vida é como se transformar em iguaria dos deuses. Lembrar agora o tempo imenso em que o fogão à lenha levava  para aquecer o suficiente às frutas, engrossar o caldo, ir deixando no ar aquele aroma delicioso, dava água na boca. Depois, a mãe colocando em potes de vidros transparentes, qual aquele que eu vi aos sessenta anos em uma prateleira qualquer: a infância recuperada.

 

Página 152

 

 

 

 

Texto da contracapa

 

Transformar dor em arte é intenção de Lily Elm, protagonista desta autoficção de Bárbara Lia. Lily tem poliomielite na infância e minimiza o fato, convive com a “coisa” e insiste em uma vida normal de estudos, trabalho, paixões. Já adulta, casa, tem filhos, se separa. Tardiamente assume a verdadeira vocação: escrever. Mas o espectro da pólio volta na idade madura com a ‘síndrome tardia da poliomielite’ e ela passa a viver com dor como algumas pessoas emblemáticas para ela: Paul Klee e Frida Khalo. E como eles, ela exorciza – através da arte – o “intruso” que invadiu seu corpo. O texto não é linear, é todo fragmentado, saltando do passado para o presente, voltando ao passado, entrando na vida de Paul Klee e Frida Kahlo e se projetando no futuro onde a personagem sonha outras vidas onde terá um corpo são e viverá o amor, este que ela encontra – enfim – mas não pode tocar por ser quase miragem, inalcançável. 
Escrito com sangue, o romance de Bárbara Lia é um soco no estomago do leitor, que passa a ser cúmplice da dor de Lily ao sentir em seu corpo os estilhaços que saltam da escrita ardente e apaixonada, marcando com ferro em brasa nossos corpos e mentes.

 

 

Bárbara Lia nasceu em Assai (PR). Poeta e Escritora. Professora de História. Publicou os livros: O sorriso de Leonardo (Kafka edições baratas), O sal das rosas (Lumme), A última chuva (ME), Constelação de Ossos (Vidráguas), Paraísos de Pedra (Penalux), Solidão Calcinada (Imprensa Oficial do PR), Respirar (Ed. do autor), Forasteira (Vidráguas), entre outros. Integra várias Antologias, entre elas: O que é Poesia? (Confraria do Vento / Cáliban), O Melhor da Festa 3 (Festipoa), Amar - Verbo Atemporal (Rocco), Fantasma Civil (Bienal Internacional de Curitiba), A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo).

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2018


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Colaboradores de Abril de 2018:

Henrique Prior, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Johnson, Bárbara Lia, Berta Lucia Estrada, Caio Junqueira Maciel, Cecília Barreira, César Bisso ; Rolando Revagliatti, Daísa Rizzotto Rossetto, Demétrio Panarotto, Diogo Fernandes, Eduardo Wotzik, Frederico Klumb, Henrique Dória, Hermínio Prates, João Diniz, José Gil ; Barbara Pollastri, Leila Miccolis, Lenita Estrela de Sá, Leonardo Almeida Filho, Lucas Rolim, Luiza Maciel Nogueira, Marcia Kupstas, Marinho Lopes, Mickael Alves, Moisés Cárdenas, Ngonguita Diogo, Nilo da Silva Lima, Nuno Rau, Paulo Pignanello, Ricardo Ramos Filho, Ronaldo Cagiano, T. S. Eliot ; Denise Bottmann, trad., Tânia du Bois, Tiago D. Oliveira, Viviane de Santana Paulo, Wanda Monteiro, Welcio de Toledo, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

RENÉ MAGRITTE, 'Le retour', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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