ANO 4 Edição 67 - Abril 2018 INÍCIO contactos

Daísa Rizzotto Rossetto


Textos

Medo na noite em Tel Aviv

 

Não nego. Então a diferença ainda medrosa me abraça. Eu deito na cama e, buscando força, escrevo.


Nutro minha alma com memórias do dia para depois admitir as fissuras da figura.
Eu ainda não sei o que vou saber amanhã sobre este canto de mundo feito de diásporas e sonhos de livros.


Admito, num depoimento feito a lápis: senti medo deste mundo por onde meus pés se aventuram carregando um pedaço de mim que é toda de sonhar...
Quis chorar pelo desconhecido que me abraça e que no meio da noite me rouba o sono desperto em ansiedade...


Penso nos primeiros pássaros que vi aqui e sinto outra vez a brisa quente da terra que me foi prometida, choro emocionada com tudo que é mundo e pode ser concreto na minha mão...


Acalmo no peito esse futuro insolúvel que num recado alerta que existe uma missão (para quem quiser ter)...


Emendo frases, uno os parágrafos.


Proliferam-se reticências...


Escolho ser uma personagem dentro da escrita.


Amanhã darei passos incertos e, quem sabe, seguros.


Una, desejo ir em direção às diferenças. Pura, quero reconhecer-me nelas.

 

Do livro Quando o vento sopra em Israel (2017), publicado pela Editora Mikelis.

 

 

 

 

Não pergunte de onde sou

 

Quando tiver em mãos estas linhas impressas em forma de livro, Israel já não será o mesmo. Não será mais aquele que vi em meados de setembro. Eu já não serei a eu de antes. E talvez muito do que gostava de ter dito sem dizer já não o diria agora. Da arte de viver eis aí uma consoante.


Não me pergunte de onde sou como se na resposta redundasse o que escrevo. Mas não sabendo o que me espera na esquina do amanhã, – nem aquilo que espera por você, que desconhece essa brincadeira de fazer história em papel de barquinho na banheira da criança menino – eu arrisco um risco depois do outro e lanço ao mar infinito.


Então, antes de insistir em dizer o que pode ser o que para amanhã já não cabe, faço um pedido: quando abrir estas páginas, no próximo verão do hemisfério sul, não o interrogue querendo saber de onde sou, não espere uma descrição referencial do lugar perdido de onde venho ou do lugar estranho para onde vou. Eu não quero ser uma redundância dos lugares que no imaginário do mundo não tem expressão de teatro; se não dizem em semblantes próprios, não existem. Porque eu sou um pouco de nuvem que vai mudando despretensiosamente de direção.


Se quiser saber onde nasci, eu digo. Nasci na mãe dirigindo um fusca em direção ao hospital, em um pai perdido em anotações distantes da faculdade de filosofia. Porque, nesta brincadeira de criar o mundo em sete dias eu o vi expandir os momentos múltiplos de sete. E até o gato viu-se multiplicado em sete formas de existir...


Talvez, em algum momento, tudo se desnude numa descoberta essencialmente única em que tudo culmina e assim se explique a mais importante verdade eminente de saber de onde sou, de onde qualquer um é. Até lá, soa uma crença na verdade de que não preciso escolher um lugar que limite o andar em círculos, ao entorno da rotunda que a cidade de interior não tem.


Quando vim ao mundo virada às estrelas, ninguém me comunicou que não poderia seguir como um vento frio do inverno nublado. E antevista às primeiras viagens de ônibus deixando a cidade e quando o avião tomou força para atravessar o oceano e o trem foi rasgando a terra com ferro e carvão, eu não vi fronteiras tão fortes para ser presa a um lugar inscrito num papel que se rasga, se queima, se perde. Documentos e fronteiras vão se pulverizam para fora das linhas limítrofes do que não sou. O único pertencimento ao qual respeito é o da minha existência.


Eu não sei de onde sou e não tenho pretensões de saber. Eu posso ser de qualquer lugar e até de lugar nenhum. E quando estas palavras ganharem novas formas e saírem em voos de uma borboleta, eu terei me transformado num pouco de outros lugares. Já sou – essência futura – um pouco de terra santa, de ares históricos, de lendas do deserto, anedotas a serem desbravadas no mercado de pulgas entre quinquilharias. Haverá uma nova história transformada em outras. Presságio para o que vem depois.
De onde sou? Não sei. Qualquer pedaço que não conhece o sentido da margem não respeita linhas de caderno e segue até o fim. Não conhece origem, cartório e certidão... querendo ser transformada pelo pouco do pouco de tudo de cada parte por onde a existência anseia tocar.

 

Do livro Quando o vento sopra em Israel (2017), publicado pela Editora Mikelis.

 

 

Daísa Rizzotto Rossetto: Doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa (Universidade de Coimbra - Portugal); Mestra e graduada em Direito (Universidade de Caxias do Sul - Brasil). Autora do livro Quando o vento sopra em Israel (2017).

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2018


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Foto de capa:

RENÉ MAGRITTE, 'Le retour', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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