ANO 4 Edição 67 - Abril 2018 INÍCIO contactos

Diogo Fernandes


O corpus do desejo

Na nossa fome nos estreitamos,
Na nossa realidade contemos fome e ensejo,
Olhos vendados estes que te vêem,
Olhos que não ouvem, mas escutam devagar
Cecília Barreira, Desvarios e Erros Meus

 

 

É na forma como lidamos com os nossos erros que aprendemos a exacta medida da nossa condição humana. Essa vulnerabilidade, ou imperfeição, apesar de nos deixar perplexos, não deixa de ser inspiradora. Em entrevista ao jornal Sol, a 25 de Fevereiro de 2013, José Tolentino Mendoça mencionava que “tudo o que fazemos é marcado pela fragilidade da nossa condição. somos esta coisa humana, provisória, incerta, inacabada, imperfeita. mas somos também poeira enamorada. há em nós alguma coisa de maior. mesmo no erro. beckett dizia: errar, errar mais, errar melhor. no erro podemos encontrar um caminho”. A sua leitura do texto de Beckett acentua não só a importância do erro na aprendizagem da nossa imperfeição como traduz a necessidade da sua persistência numa forma de compreensão. Prodigioso ofício este, sobretudo se não ignorarmos os riscos que lhe são inerentes.

 

Desvarios e Erros Meus, de Cecília Barreira, celebra, ao mesmo tempo, a profusão do corpo e da sensualidade através de perspectivas tão distintas quanto o arrebatamento ou a angústia e, considerando que no erro se pode encontrar um caminho, procura estabelecer uma vasta abordagem a uma história de decisões erróneas cujas implicações irão constituir o próprio conhecimento que o sujeito da enunciação retém em relação ao amor. Dos erros aos desvarios sobrevêm as pulsões mais intensas do ser humano, sobretudo quando se referem a ligações que se revestem de um carácter afectivo pronunciado; estes últimos, enquanto actos de loucura momentânea, são a consequência de um desejo violento — profundo e, muitas vezes, irrealizável. O seu reconhecimento talvez seja a forma mais profunda de demonstrar a nossa humanidade.

 

Partindo da leitura de um corpus textual que abrange autores quase exclusivamente de língua portuguesa — com excepção de uma citação atribuída a Van Dyke —, Desvarios e Erros Meus compele-nos a assistir a um diálogo intertextual deliberadamente provocativo, cujo referente é o tema do Amor, e instiga-nos a interpretar o universo de sentido que a partir deles é criado, explorando as formas múltiplas de expressão do desejo. As imagens sucedem-se a um ritmo contínuo, num êxtase que não se pretende circunscrito ou limitado por qualquer tipo de suposta clarividência, através do uso recorrente de repetições e anáforas. Este processo atinge uma cadência quase febril quando adopta a expressão de um ‘amor total’, de um desejo e devoção incondicionais (“Amo-te nos planaltos de altitude, amo-te nas veredas/ De outros serões autênticos,/ (…) Amo-te na caldeira de um sonho,/ Na aguardada situação de um amor feliz,/ Na velocidade de amantes que se estrebucham”), sugerido pela voz inconfundível de Vinicius de Moraes, e é nesse compasso que se conjuga, de modo mais revelador, a relação entre o deslumbramento que advém da felicidade de amar e a sua formulação.

 

No entanto, a percepção do amor começa a construir-se na aceitação de um sentimento ambíguo, cuja origem deriva ou pode derivar de um fingimento — dúplice, porque também poético, não fosse o primeiro interlocutor Fernando Pessoa pela voz de Ricardo Reis —, mas cujo desfecho se revela indiferente perante o ‘espanto’ ou o desejo de amar do sujeito da enunciação (“Não sei se é amor, se é fingimento, se é dor/ (…) Não sei de nada, nem do que me dás, / Do que não dás, do que nunca darás,/ Pois tanto me faz, pois aqui jaz o espanto”). Adquire contornos angustiantes quando se confunde com uma interrogação, intraduzível, porque lancinante (“Porque me pediste o ouro desse sal que desune/ As bocas e o ventre e os seios e as folgas/ E as dobras de tantas memórias/ (…) Porque me ensinaste o fio destes gumes?”), a propósito de um poema de Chico Buarque; quando se transforma num desejo voluntário de sofrimento, reflectindo uma passagem de uma carta de Soror Mariana Alcoforado (“Faz-me sofrer ainda e ainda, faz-me sofrer corpo paisagem/ Faz-me sofrer longitude amada”) e, sobretudo, quando expressa um desejo de desvanecimento, de apagamento derradeiro do próprio no outro (“Amar é conjugar o deleite de morrer sempre,/ Amar é fruir o último vestígio de ti em mim de ti”), em resposta a poema de Carlos Drummond de Andrade.

 

Nesse aspecto, existe um desejo transversalmente enunciado de fusão com o ser amado, em que ambos os corpos parecem confundir-se e misturar-se no êxtase da sua paixão, perceptível quer em imagens construídas a partir do diálogo com Florbela Espanca (“São as horas que me dás,/ São lugares de perdição e enlouquecimento,/ São visões fúlgidas e entranhas de ti em mim de ti”), quer numa formulação irrevogavelmente carnal, no diálogo com Joaquim Pessoa (“Contra o tampo de todas as emergências/ Se deitaram, se entornaram, se moldaram,/ (…) Se entranharam, se rasgaram em plenitude,/ Se esbanjaram na solicitude/ De uma desarmonia infinda/ De uma qualidade rara de líquidos/ Que se perpetuaram entre corpos”).

 

A relação entre Amor e Erro traduz-se também em sentimentos de ciúme, desengano (“Imensa a nudez que se desprendia do teu hálito/ Na impostura de outras mulheres que te desejavam sempre/ (…) E eu abria-me à recordação da tua previsibilidade/ Da tua verve de palavras poéticas rudes/ Mole a existência de mulheres em ciúme de ti”) e, claro, tristeza (“Já gastámos as palavras, meu amor,/ Estas desassossegadas e inúteis verves/ De esplendor de ruivos murmúrios”), representados pelo contraste entre a vulnerabilidade desse sentimento que já não se sabe puro e a insuficiência das palavras face à nossa imperfeição, a partir de textos de David Mourão-Ferreira e Eugénio de Andrade, respectivamente.

 

O Amor, tal como o a Poesia, não deixa, no entanto, de ser uma procura constante, ainda que por vezes se assemelhe à substituição de um erro por um sentimento um pouco deslocado, em consequência de uma necessidade ou de um desejo de sentir que não se conseguem reprimir, de encontrar nos outros a memória e as sensações que uma terceira pessoa, sempre presente — mas nunca nomeada —, nos deixara, manifestada em resposta a poema de Eugénio de Andrade: “Procuro-te no rostos de outros homens,/ Porventura não tão jovens como a tua sossegada paixão,/ Porventura não tão dispersos,/ Não tão frequentes” e “Procuro-te em todos os homens do mundo,/ (…) Procuro-te na inconsciência com que te bebi”.

 

Entre as múltiplas configurações de amor e de desejo que este livro de Cecília Barreira aborda, estrutura-se uma forma de conhecimento que, sob todas estas perspectivas, se completa através das suas contradições imprescindíveis, da acumulação dos vários erros e desvarios que constituem esta experiência humana, e faz da sua aparente simplicidade, interagindo com composição de Chico Buarque, a tradução mais subtil do que significa entregarmo-nos à nossa fragilidade — a experiência de amar: “Se perdemos as mãos nos sexos iluminados. E os beijos molhados/ E férteis em desequilíbrios de adoração e fome,/ Se perdemos a noção da hora,/ (…) É porque o amor extravasa”.

 

Diogo Fernandes

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2018


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Colaboradores de Abril de 2018:

Henrique Prior, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Johnson, Bárbara Lia, Berta Lucia Estrada, Caio Junqueira Maciel, Cecília Barreira, César Bisso ; Rolando Revagliatti, Daísa Rizzotto Rossetto, Demétrio Panarotto, Diogo Fernandes, Eduardo Wotzik, Frederico Klumb, Henrique Dória, Hermínio Prates, João Diniz, José Gil ; Barbara Pollastri, Leila Miccolis, Lenita Estrela de Sá, Leonardo Almeida Filho, Lucas Rolim, Luiza Maciel Nogueira, Marcia Kupstas, Marinho Lopes, Mickael Alves, Moisés Cárdenas, Ngonguita Diogo, Nilo da Silva Lima, Nuno Rau, Paulo Pignanello, Ricardo Ramos Filho, Ronaldo Cagiano, T. S. Eliot ; Denise Bottmann, trad., Tânia du Bois, Tiago D. Oliveira, Viviane de Santana Paulo, Wanda Monteiro, Welcio de Toledo, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

RENÉ MAGRITTE, 'Le retour', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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