ANO 4 Edição 67 - Abril 2018 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Em torno do livro As Malícias das Mulheres / Discursos sobre Poderes e Artes das Mulheres na Cultura Portuguesa e Europeia de Luísa Marinho Antunes. Lisboa, Esfera do Caos. 2015

Esta interessante obra refere o pensamento vigente sobre as mulheres, desde a herança greco-latina passando pela Idade Média até aos inícios do século XX.

 

Desde tempos imemoriais que as mulheres são consideradas diabólicas, más por natureza e de inteligência curta. Além disso, têm um efeito perverso sobre os homens que devem evitá-las o mais possível.

 

Elas foram as bruxas da Inquisição; elas são as prostitutas e as maliciosas.

 

Ao longo dos séculos XIX e XX assiste-se à publicação de obras de pseudo teor científico onde se refere a inferioridade feminina – “A mulher era uma versão menos desenvolvida do homem, mais fria”, pervertidas socialmente.

 

O corpo feminino estava ligado às doenças nervosas, às histerias, à irracionalidade.

 

No século XIX, as mulheres sufragistas eram consideradas masculinas, o que se traduziria em duas aberrações da natureza: o serem virago ou ninfomaníacas. O neurologista Lombroso destrata completamente as mulheres clamando que não têm qualquer inclinação para as artes ou para as ciências.

 

O próprio Nietzsche, considerava que a emancipação da mulher poderia levar à degeneração.

 

O interesse deste ensaio é também a recuperação de textos antigos portugueses sobre a malícia das mulheres bem como uma bibliografia dos textos de malícias e enganos com as respectivas respostas e defesas das mulheres.

 

O sexo feminino era sobretudo falador, enganador, infiel, falso e pecador. As mulheres eram vaidosas e gastadoras. Nem o Pe António Vieira se salvou das misoginias com os defeitos e pecados das mulheres.

 

Veja-se um excerto de Baltazar Dias:

 

“Quando no Tejo não houver

 

Água, e toda se secar,

 

Nem o mar peixes tiver.

 

Então faltará à mulher,

 

Malícia para enganar.

Eva enganou a Adam,

 

Querendo mundanos prazeres.

 

E por esta tal razão,

 

Quem se confia em mulheres,

 

Tem o engano na mão.”

 

 

 

Como nos refere a autora, os autores dos livros em torno das malícias das mulheres demoram-se demasiado com a traição e o engano no feminino. A maldade é inerente à mulher. A comunidade das mulheres unia-se para fazerem troça dos maridos.

 

No século XVIII, Frei Amador do Desengano diz: “As mulheres são falsas, são frágeis, e são corruptíveis; e esta é a razão, porque são removidas de todo o emprego público, ainda daqueles actos, em que o mais inerte homem é admitido.” (página 111-112).

 

A ignorância e a formosura eram uma tentação para os homens. Recorria-se muitas vezes à infidelidade da Ama do Auto da Índia de Gil Vicente.

 

Mais um aspecto: as mulheres não se importavam com a raça dos amantes, gostando mesmo muito de negros. “O melhor é tratar a mulher com açoite, aguilhão, atafona, bordão, sopapo, murro, mordaça, chicotada, estopa, soco, etc.” (página 114).

 

António Lobo de Carvalho, no século XVIII, escreveu o seguinte poema:

 

“As mulheres, sem disputas,

 

Têm três diversas condutas:

 

As velhas são feiticeiras,

 

As outras alcoviteiras,

 

As raparigas são putas.”

 

(p. 115)

O romantismo trouxe o motivo da femme fatale, isto é, do adultério feminino.

 

Dado que as mulheres eram muito palradoras nunca poderiam dar boas governantes. Mesmo num livro publicado em 1953 de Aloyso de Castro, fala-se sobretudo da loquacidade feminina.

 

Outros homens estudiosos referem a mulher gulosa e gastadora: sublinham os gastos com comida, com roupas e com maquilhagem.

 

O P.e Manuel Bernardes dedica capítulos, na obra Nova Floresta, às “demasias do ornato feminino”.

 

Haveria também um grande gosto pelo luxo, sendo que as mulheres eram vaidosas e curiosas. No século XIX, acerca dos gastos femininos, referia-se a impossibilidade do homem ser económico e poupado.

 

O casamento, sendo a base da família, tem um grande problema: a mulher vaidosa e altiva que quereria gastar tudo em luxo e ostentação.

 

No século XVIII surgem textos, escritos por mulheres, de defesa do sexo feminino em relação às injúrias de que eram objecto. Por exemplo, os textos de Paula da Graça de 1715. Paula da Graça pode mesmo ser considerada uma das primeiras feministas portuguesas.

 

Como nos diz Daniela Marcheschi, no prefácio a esta obra, a autora, Luísa Marinho Antunes, traz-nos à luz o conteúdo de textos misóginos desde a Idade Média até à actualidade, sempre acompanhados, nos tempos mais recentes, por autores como Schopenhauer, Nietzsche ou Freud.

 

A autora, com o livro As Malícias das Mulheres, estrutura todo um discurso masculino preconceituoso para com o sexo feminino. Foram precisas as sufragistas do século XX e as conquistas dos anos 60/70, para que alguma igualdade entre géneros se alcançasse.

 

Para a História da Cultura e das Mentalidades, aqui fica uma obra obrigatória de ler. Esta interessante obra refere o pensamento vigente sobre as mulheres, desde a herança greco-latina passando pela Idade Média até aos inícios do século XX.

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH

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