ANO 4 Edição 66 - Março 2018 INÍCIO contactos

Miguel Curado


Poemas

Dúvida

 

O fumo da tua dúvida acabou,
Agora que se sente a chuva a dançar com a passagem dos segundos,
Restaste-te apreensiva com um
Olhar de velho sem destino na rua,...

 

Foi ao sol de fim de dia,
O tal das decisões mal descritas,
Que me explicaste que sou a pele debaixo dos teus dedos,...

 

Apesar de longe sou o pêndulo
Do querer acordar,
A vontade irrepreensível de deixar por fazer tudo o dispensável,

 

E o suor das noites sem voz
Gritadas com o prazer a observar
No teto de estrelas....

 

Sim,
Sou do tamanho do universo
De bolso que quiseres….

 

 

 

 

Luz

 

De dentro do ar que exalo,
Cansado estou da solidão escrita 
No primeiro anoitecer sem ti,...

 

Era o teu respirar como segunda pele,
Na escuridão do não saber como
Abrir os olhos para a vida,,..
O que tive e Per 
Sisto a querer no fotografar do teu
Corpo que me possui no breu de não ter luz...

 

 

 

 

Da clareza das horas

 

Não sei dizer um sorriso que se desfaça,
Nem o choro do fim de vida de mulheres que não desenharam o amor ,
Para o suficiente do escrever saudade,
Bastariam as saias da chuva quando abraça a terra seca e 
Moribunda,...

 

Fazendo desníveis de humanidade com versos insuficientes,
Deixa a partilha de sonhos de criança por fazer,
O fim de vida do amor por conseguir no desenho tosco dos amanheceres,...

 

Experimenta agora deitar a consciência no que resta de pensar assim...

 

 

 

 

Não serás o som

 

não serás o som, 
apenas a partição do ar nos resquícios de tempo que um sorriso fugaz deixa nas paredes, 
e a frugalidade do momento como destom de um falhanço, 
de um não querer de compromisso,....

 

somado à parte total da memória,
nunca faremos história com a contestação, 
com o medo descrito em olhos cegos e sem caminho,...
para o fim nos desmaios das ondas da manhã, 
deixamos o mal, 
sob a forma dos descontos da morte...

 

 

 

 

Socorro da solidão

 

Amanhã vai chover,
Anoitecia com o céu pintado a molhos de sangue desbotado de calor quando me disseste isso,
Eu desviei-me do caminho para o carro da perdição passar,
E sobrevoado da maior soberba que imaginei, escrevi,
Naquele papel dos indefinições que guardava no bolso,...

 

Talvez vá, não sei, não vou cá estar,
A lua chegou assim trazida pela separação natural que surge após estas conversas, 
A dois passos de cada vez afastei-me para o socorro da solidão...

 

 

 

 

Ir a qualquer lado


Às vezes o dia em dúvida,
 Outras no céu o fogo de uma tragedia que não se espera,
Subimos a rua até ao coração Daquela cidade,
A que me disseste ser o mais próximo do perto das estrelas,..,


De joelhos falaste que o estudo das hesitações é o amor,
E pintaste as árvores moribundas Com a tinta invisível do mais perto de ser fiel,...


Vimos os velhos que concordavam,
As crianças que,
A brincar,
Desnivelavam as ruas tornando-as pântanos de perigo e fel,..



E ao pôr-do-sol descemos para os braços do rio,
Escrevendo no centro do vento que voltaríamos quando a sorte quisesse ..

 

 

 

 

Entardeceres


Somado ao pó daquela tarde,
O amor era a luz translúcida nos 
Olhos de todos os velhos felizes,
Crianças tristes ,
E árvores mediocramente presentes 
Na margem fria do rio 
Das esperanças retalhadas ,...

 

Restávamos nós,
Sobrávamo-nos a nós mesmos pintados como espectadores de tudo isto,...

 

Como te vi segura do que querias naquele entardecer ensimesmado,
Achei que sonhava acordado num frio calmo e entorpecente dos sentidos ,...

 

Afinal era possível o pior de nós mesmos com o melhor refletido em harmonia dissecada no recolhido passar do tempo,...

 

Até que tudo expluda uma e mais vezes pelo lado perdido do universo ...

 

 

 

 

O quando e o quem do querer


Não me tens nas sombras do desnorte,
Nem quando o medo acaba à saída daquele encontro com um final antecipado,
Em quereres,
Estarei no depois de qualquer coisa que deixaste por acabar,...

 

Como um recorte de luz pintado com ausência de cor,
Digo-te o vento,
As possíveis saídas de uma vida não vivida por medo,...

 

Por outras palavras estou na rua húmida que pisas todas as manhãs ao enfrentar o que só deixas nos entretantos do que nem conseguiste descrever,
E permaneço como hesitação na mesma folha amarelecida e queimada nas pontas,
Escondida na gaveta de coisa nenhuma,
E onde ocultas as possibilidades de ser feliz que ninguém quer conhecer 

 

 

 

 

Contínua vida

 

hoje sonhei que já não me querias,
na tua boca desenhado a sol estava
qualquer coisa num desejo,..


a tua vida teria de ser um
passo atrás do outro,
com o futuro amparado numa
rede invisível de que dizias depender,...


fiquei deitado a ver-te embrulhar
numa pele de sombra,
abrires a porta,
e despenteares o tempo até
já só seres um micron
de luz ao longe,...


acordei entorpecido,
sem memória,
não sei se é cá dentro
que devo guardar-te,
até se evaporar o que 
tenho de feliz nos dedos....

 

 

 

 

Estratocumulos

 

Tinhas olhos lago,
Corpo encurvado para
Parecer a linha de água,
Pernas como Ramos defensores
De uma mãe árvore...

 

Em parque de fim de outono,
Suprias nos meus dedos 
O imprevisto do adeus ao estio,
Para sombra de minuto inverno,
Fechavas os olhos,
Anoitecendo em poema de
Estratocumulos...

 

 

Miguel Pedro Candeias Curado, 41 anos, natural de Setúbal, Portugal, jornalista de profissão.
Blog pessoal: http://homemplastico.blogspot.pt/

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2018


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Paginação:

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