ANO 4 Edição 66 - Março 2018 INÍCIO contactos

Danyel Guerra


Não tenho tempo para ouvir putas

 

(BUNNUEL- Luis Buñuel dirige Catherine Deneuve (Séverine Serizy/Belle de Jour), em 'Belle de Jour'). 

 

Diga tudo o que pensa e o que não pensa, mesmo que o faça sem pensar. Foi este o repto lançado por  Les Cahiers du Cinéma  ao diretor Luís Buñuel.  Desafio aceito e a entrevista –realizada no set do Festival de Cannes- foi dada à estampa na edição de junho de 1954 da revista,  sob os bons auspícios da libertina vertigem da escrita automática.


  Para alcançar a desejada acutilância, o diálogo teria de aflorar as incidências épico-burlescas que toldaram, antes, durante e depois, a realização dos dois primeiros filmes do diretor espanhol/mexicano, Un Chien Andalou  (1929) e  L’Âge d’Or (1930).

   
     “Vi L’Âge…, não gostei nada, não entendi nada e, no entanto, impressionou-me.”, confessou-lhe, em Paris, o diretor-geral da Metro Goldwyn Mayer (MGM) na Europa.  Apesar de toda a celeuma gerada por essas provocações surrealistas, o rumor do êxito alcançou Hollywood, que lançou, por mais estranho que pareça, um aceno de simpatia ao autor intelectual dos desacatos. Dificilmente se saberá até que ponto, para o juízo paradoxal do executivo da MGM, terá  contribuído a avaliação também dúbia de Salvador Dali.  Parece um filme americano, sentenciara o filho de Figueres. 

 
     Aliciado, outrossim, por Lya Lys, atriz germânica protagonista do filme, Buñuel inicialmente declinou o repto. Era uma proposta muito tentadora, capaz de fazer vacilar até um comunista anarquista. Viagens pagas e uma estadia remunerada a 250 dólares por semana.

  
     Durante seis meses, ele apenas teria de observar como se faziam filmes, segundo o sistema dominante nos States. O fito do tirocínio visava proporcionar a Buñuel a oportunidade de aprimorar a técnica de produção/direção, testemunhando in loco como se rodava uma película, conforme o modelo do estúdio. Burguesmente seduzido pela generosidade da cortesia da MGM, obtida a luz verde da tertúlia surrealista, o enfant terrible finalmente aceitou o desafio, partindo, no Havre, em dezembro de 1930, para a “fábrica de sonhos” sob o estatuto de “observador”.    

 

   A bordo do Leviathan, atravessando o Atlântico, o diretor reiterou sua determinação de não aceitar o figurino de Cinema praticado nos EUA, onde o realizador tinha (tem), por norma, um poder de intervenção autoral semelhante ao da… script girl.  Seu sonho consistia em continuar filmando com total e irrestrita liberdade de expressão, conforme as disposições do escol surrealista. 

  
     Foram, todavia, pesadelos as façanhas que o wonder boy fabricou para o boss Irving Thalberg  ao longo da rocamburlesca e fugaz estada na West Coast.

 

Orgia com “as moças de Pasadena”…

 

   O aragonês teve tempo para conhecer Charlie Chaplin, Georgia Hale, Sergei M. Eisenstein, Josef  von Sternberg, Bertolt Brecht, Dolores Del Rio e de reencontrar Claude Autant-Lara.  Com Chaplin, o “pai” de Viridiana  manteve  uma relação de grande proximidade, tanto mais que  o criador de  Charlot fora designado pela Metro como seu supervisor. Em suas memórias, D.Luis revelaria que o visitou muitas vezes na sua casa, nas colinas, para jogar tênis, nadar e tomar banho turco. Até lá dormiu uma ou outra noite. Talvez numa daquelas em que não se concretizou a programada orgia com “moças de Pasadena”.

   
    Frustrante foi igualmente o “convívio” com Greta Garbo. A diva nórdica lhe proporcionou um rendez-vous inusitado no stage 24, onde filmava uma cena. Era para ficar um mês a observá-la, porém a deusa não se mostrou lá muito satisfeita com o olhar que o intruso mortal lhe lançou.

 

        “(…) Greta se maquilhava. Ela olhou-me
        pelo canto do olho, perguntando a si mesma
       quem era aquele estranho, depois disse  qualquer
       coisa numa  língua incompreensível (era o inglês)—
       na  época eu sabia dizer somente “good morning”—
      e fez um gesto a um tipo que me pôs na rua.” (1)

 

   Três meses passados, ocorreu o incidente “Lili Damita”.  Certa manhã, um funcionário da MGM, mandatado por Thalberg, solicitou que assistisse ao ensaio de uma cena protagonizada por “Tiger Li”, ex-esposa de Michael Curtiz  e futura de Errol Flynn, na versão de um filme falado em castelhano. Era um pedido expresso do todo poderoso.  Mesmo assim, o estagiário não economizou na dose de dinamite. Após esclarecer que estava em Hollywood enquanto francês e não espanhol, mandou bala. 

 

              “Diga a M. Thalberg…”, posso
                dizer a palavra que lhe disse?” (2 )

 

    Já adivinhando o que o agent provocateur estaria aprontando, o futuro confrade Jacques Doniol-Valcroze  lhe acendeu a luz verde. “Naturalmente”, propiciou. Sulcando a arena com a pata de um touro indomável, Luís investiu.

           
             “Disse-lhe que não tinha tempo
             para perder indo ouvir putas.”(2 )

 

 

(LILI DAMITA-  Eis a zorra Tiger Li, aka Dymamita, em pose de toureiro, pronta a pegar de caras o touro buñueliano)

 

   Presume-se que o azedume do estagiário tenha visado como alvo a personagem e não tanto a atriz. O impropério foi a gota d’aguardente no cálice da paciência do patrão. Um mês depois o contrato finava-se “damitado”, isto é, dinamitado. Ainda que faltassem dois meses para o termo, um enfezado Thalberg, em vez de suportar novas tropelias do insurreto, preferiu despachá-lo no primeiro navio e suportar o ônus de antecipar um mês de salário. (Muito embora na sua autobiografia, Meu Último Suspiro, o demitido afirme ter sido ele a virar a mesa.) No abril de 1931, o bad boy  já estava de regresso à capital francesa, pronto a praticar novas façanhas.

 

     Não posso afiançar se, de novo banhando-se nas luzes de Paris, ele voltou a frequentar as boîtes e os inferninhos. Nos tempos da produção de Un Chien Andalou, o futuro ícone surrealista torrou nesses alegres espaços de diversão, boa parte do dinheiro que sua mãe lhe empresta(da)ra para o experimento . Certamente que o dissipou com a benigna e digna intenção de fazer um laboratório, promovendo castings e audições de candidatas a atrizes. Podia ser que nesses lupanares, entre as insinuantes cortesãs que o prodigalizavam, ele deparasse com alguma credível deputante, perdão, debutante. O mais plausível, porém, é que o mad boy preferisse escalá-las num récamier a escalá-las para o cast dos filmes. Nesse plateau, ele já tinha tempo a perder para ouvir putas (3). 

 

Notas:


1- Entrevista a Les Cahiers du Cinéma, nº 36, junho de 1954, reproduzida em A Política dos Autores, Lisboa, Editora Assírio & Alvim, 1976, p.213.

2- Entrevista a Les Cahiers du Cinéma, op. cit. p. 214.

3- Além de ser dispor a ouvi-las, D.Luis também sabia ser grato às mereatrizes. Perante o êxito de Belle de Jour (1967), ele reconheceu que sua maior bilheteria deveria ser creditada, antes de mais, “às putas do filme e não ao meu trabalho”.

 

 

Danyel Guerra é natural da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (Brasil).Tem uma licenciatura em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Escreveu e editou os livros 'Em Busca da Musa Clio' (2004), 'Amor, Città Aperta' (2008), 'O Céu sobre Berlin' (2009), 'Excitações Klimtorianas' (2012), 'O Apojo das Ninfas' e 'Oito e demy' (2014). No prelo está 'O Português do Cinemoda' (edição Douro Editorial).

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Paginação:

Nuno Baptista


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