ANO 6 Edição 66 - Março 2018 INÍCIO contactos

Leonardo Almeida Filho


Ferocidade: a poesia de Alexandre Pilati

 

O poeta Armando Freitas Filho, em conversa que tivemos há alguns anos, confidenciou-me que a poesia e tudo que envolve seu processo, da criação à sua leitura, são matéria de confraria: a confraria dos ferozes, disse-me ele. Falávamos naquela oportunidade sobre o reduzido número de leitores de poesia, especialmente aqui, por estas bandas periféricas abaixo do Equador, gigantesca ilha cercada por espano-falantes, onde se cultua a última flor do Lácio, inculta e bela. Refletindo, tempos depois, sobre essa conversa e essa curiosa definição, percebi que ferozes são, por princípio, todos os poetas, seja pela insistência em produzir versos num planeta que parece desprezá-los, seja pela couraça impenetrável que desenvolvem e que os faz seguir contra tudo e todos. Ferozes são alguns poemas que, não fazendo concessão ao bom-mocismo ou a uma possível literatura cor-de-rosa, investem na denúncia e no confronto. Ferocidade é a palavra que condensa melhor os belos poemas de “Autofonia” (Penalux, 2017), o quarto livro de poesias do autor candango Alexandre Pilati.


Os poemas se nos atravessam como pequenas facas, pontiagudas, que nos incomodam, nos causam desassossego e nos despertam para um mundo onde a frieza e a voracidade inflexível do capital nos consome a todos. São poemas de alerta. Seus versos, objetivos, sem subterfúgios, tocam na ferida, expondo a podridão que nela se esconde: a exploração cruel do homem.  São poemas que em nada, em momento algum, se mostram panfletários, uma vez que a arte poética de Alexandre Pilati desmonta qualquer indício de pacto com o clichê infantil de quem berra sem arte. Sua refinada arquitetura poética nos captura na beleza de imagens, de alusões e ilusões que dinamitam os limites do campo semântico das palavras, ampliando sua possibilidade de interpretação. São poemas que investem em versos harmônicos, abandonando em certos casos a melodia chã. Nesse sentido, nos delicia o estranhamento de versos que soando independentes acabam por se chocar espaço do sentido, por aproximações surpreendentes, ecoando sua musicalidade epifânica.


È, sem sombra de dúvidas, uma trabalho de deliberada resistência. Uma poesia que se assume de batalha e que combate o capital e seus males sem titubear. O verso que não se acanha diante do perigo e se arrisca, indo da aparente coloquialidade ao rigor da mais rica construção. O ensinamento que se esconde sob o “versi strani” de Alexandre nos diz que está “pronto para fazer desabar num átimo os mais sólidos pontos de vista” (“Lâmina-só”)


A um leitor desavisado deve-se alertar, como Dante à porta do Inferno, ao entrar em “Autofonia”, saiba, a poesia de Pilati é uma poesia de confronto. Seus versos, como no clássico de Bandeira, estão manchados pelo real, são “a nódoa no brim”. Tocado, contaminado pela vida, que observa atentamente, e que filtra com sensibilidade extrema, o poeta nos traz, em versos, não apenas a denúncia de sua tragédia, mas também a beleza de sua existência. Sua preocupação é o que nos cerca: a vida presente, o tempo presente, como em Drummond, uma sua influência evidente. Nesse sentido, os poemas de “Autofonia” são do tipo sentimento-do-mundo com o upgrade do talento do Alexandre.


Observamos maravilhados essa batalha do poeta contra o caos instalado, contra a exploração do seu povo, contra a reificação das coisas que importam – ou que, pelo menos, deveriam importar. Se, para o deus mercado, tudo vira coisa, o afeto-coisa, o amor-coisa, o homem-coisa, os versos de Pilati, às vezes carnavalizando, no sentido Bakhtin de ser, corroem a estrutura sangue-suga do capital, retirando a sua máscara, expondo o seu tutano pútrido, como em “Um carnaval em crise”


Vou dançar contra os homens brancos da velha família.
Vou contar com o cordão dos derrotados.
Vou dançar com os negros contra Wall Street.
Vou contar com o cordão dos derrotados.
Dançaremos, dançaremos e dançaremos.
Até que o sol se encante, esquente e resolva
por vida novamente neste frio corpo chamado planeta,
que tanto cheira às etéreas notas do dinheiro. 


Na poesia do autor candango, não há espaço para a submissão ou passividade. São tempos de luta, meu amigo! Ele parece nos dizer. Os versos de Alexandre Pilati movem-se certeiros e nos fazem mover, quando, por exemplo, faz profissão de fé da crença indefectível na ação, em seu “Poema no espelho”:


Meu desamor pela pasmaceira: viril, incivil, declaração de guerra.


O poeta não se ilude, sabe que a luta é ferrenha, dolorida, mas segue incansável, feroz e cheio de esperanças, como quando canta Lukács e celebra “as manhãs azuis que superam as tormentas”. Não se deixe enganar, caro leitor, não há fatalismo nos poemas de “Autofonia”, há sim uma crença maior no sentido do humano e na possibilidade de revolução total: política, sexual, artística. Como ele insiste em declarar, há vida brotando à revelia nas ventas do morto (“Ralhete”), mesmo que, doloridamente, tenha que reconhecer, em “A flor e a crise”:


a cidade que anoiteceu sem luar
sem estrelas em desatino mercadoria


A voz que o poeta escuta, que nasce do registro do outro e reverbera em seu coração, não esmorece. Seu verso declara: nossa boca morde a cidade na boca (“Boca da noite”) e digerindo esse beijo urbano, constrói seus versos, pequenos grandes manifestos da revolta.


Manuel Bandeira, um cidadão com perfil liberal, se dizia um poeta menor. Não era um juízo de valor, mas uma constatação dentro de seu conceito muito particular de menor e maior. Para ele, o poeta maior seria, infiro aqui, o Drummond de Rosa do Povo ou Sentimento do Mundo, ou seja, o poema maior seria aquele tipo de poema que a gente encontra em “Autofonia”: poemas de luta e resistência, poemas de cunho social (como se pudesse haver algum tipo de arte imune à sociedade). Poemas que vêm para ser a mosca na sopa. Para desafinar – e desafiar – o coro dos contentes, como canta Torquato Neto. Em crônica, comentando a crítica sofrida por autores alinhados no que se convencionou chamar de Romance de 30, Graciliano Ramos escreveu:  


Vamos falar mal de todos os romancistas que aludem à fome e à miséria das bagaceiras, das prisões, dos bairros operários, das casas de cômodos. Acabemos tudo isso. E a literatura se purificará tornar-se-á inofensiva e cor-de-rosa, não provocará o mau humor de ninguém, não perturbará a digestão dos que podem comer. Amém.

 

Ora, a poesia de Pilati vem justamente para perturbar a digestão dos que podem comer. Para pisar o asfalto de sua cidade vilipendiada pela grana, pela gana do capital. Vem para destacar as marcas do tempo sobre a pele, sobre as instituições. Vem para incomodar a todos nós que estamos calados diante de todo descalabro que está acontecendo aqui e agora. Vivemos tempos de “escassez mundial de cores”, como canta Alexandre. São tempos brancos, de machos brancos, héteros, cristãos, cidadãos do bem; são tempos anti-negros, anti-mulheres, anti-gays, anti-arte, anti-liberdade, enfim, tempos bicudos como tucanos demoníacos. É preciso estar atento e forte, como canta Caetano, e como alerta o poeta em “Porto Seguro contra um futuro incerto”


O dinheiro nunca dorme
Seu ser sem miolo
Estira os olhos bem abertos
Sobre a carne dos homens
Sobre o espírito das coisas
Nunca dorme o dinheiro
Alerta a sua alma vaga
Poética sem palavras
Escava os cantos do mundo
Com mil membros eretos
O dinheiro nunca dorme
Bate o seu felino coração
Seu léxico de platitudes
Reverbera ódio e fascínio
Seu vampiresco beijo persuade
Nunca dorme o dinheiro
Massa bruta sem sombra
Seus dentes de divino metal
Roem e massacram o tecido da vida
Viram as vísceras das nuvens e do devir
Nessa grande guerrilha poética empreendida por Pilati, o artista se impõe como mestre de sua arte. Seus poemas exibem virtuoso artesanato poético, se compõem de refinada arquitetura, com a construção de  imagens desconcertantes como em “Brasília, setembro 2016”:


como bois
raquíticos, árvores secas ruminam firmes e alheias  


ou em “Meu velho”:


o ar que me sustenta zumbe
e a sombra suspira um gesto


ou ainda em “Selfie”:


Faço a cinzel o sorriso e ando. O chão
movediço e vaginal acolhe minha ilusão.


Surpreende a sensualidade de “Broadcast yourself” que se constrói na exuberância da prosa poética dos versos que se sucedem como fluxo de consciência, formando mais que um sentido, uma sensação de lubricidade e paranóia, a languidez latente das palavras, de Eros contra Tanatos:


,essencialmente abstrusa na tua alvura de princesa, na delicadeza
dos contornos, na luz divina que espoca o que cultivaste como
obediência se recalca, aninha-se pacientemente em concordância
no osso da eloquência e nas estranhas formas que se libertam
a custo do orifício o que nunca desejaste aceitar,


O lirismo de Alexandre Pilati se reveste de confissão mascarada pela sofisticação da frase, pela reelaboração do sentido, penetrando fundo no mistério do outro, do desejo. Toda poesia é, no fundo máscara construída para se dizer o que se quer ocultar. O fingimento de Pessoa ecoa nos versos de “Autofonia”, como em “No meio do caminho”:


eu sangro enquanto choras asfalto, cal e carros
e te desejo monumental, tortamente Diadorim –
macho na chuva, fêmea nas manhãs: ninguém durma!


E no belíssimo “Noturno de Maria”:


onde a alma tua canta
há carinho e abrigo teus
nalgum canto da treva de mim;


Mas o poeta sabe que o amor é linguagem de corpos que se entendem, não de almas (estas não se entendem, como nos versos de Bandeira) e por isso declara no “Jardim das musas”:


Sem dançar, foder, beber, beijar
A pele não entra na boca não viaja
O sangue no sexo sem saber
Sem poesia não fica de pé
Pica nenhuma xota nenhuma chora
Terra crua seca sem vida não dá nada
Não salta saliva não nasce porra nenhuma
Nada ovula nada vai além nada vira jardim
Musa nenhuma engravida
De palavra


“Autofonia” é um livro para desconcertar quem se crê confortável em sua poltrona diante da TV, para incomodar. Se queres sossego, fuja de sua leitura. Alexandre Pilati nos deu um livro de deliciosa violência e denúncia. Mas, creia, o que subjaz à obra de arte é que a tensão que pulsa nos seus versos bate fundo em nosso coração, irmanando-nos no seu tônus poético. Acabamos por vibrar em comunhão com o poeta e querer também dinamitar a ilha de Mannhatan. Essa a razão do poema: tanger as cordas de nosso espirito. O poeta, como Orfeu, conhece os mistérios dessa sinfonia.


Luz do chão


ao poema que pede
tuas pernas só pra quebrar
e tuas inefáveis penas
idiossincráticas
dá a indecorosa intercorrência
da escassez mundial
de cores
dá o que falta ao poema
consistência de matéria de coisa chã
ou de vento ar: que é a coisa mais concreta e mais azul
lembra-te, poeta:
contra as certezas aéreas do poema se ergue a espinha
de sísifo
da diarista
que brande derrota dia após dia pela porta
dos fundos
ao poema extremo e mínimo
repórter do desvão bolorento do privado
coração elíptico dos modernos comendadores
dá então aqueles
roteiros roteiros roteiros
e a bulha infernal da estação
às fatigadas horas de sol
e a afásica carne de engrenagens
de ferruginosa luz do capital
dá a opressão sempre literal
sempre feita
de tétano e cortante lata
contra o poema empalhado
ouve, então, (o poema ouve, não duvides!) alguém
ouve a meio da rua ou dentro do corpo:
“vai lá, mata ele, mata bem, mata todo, lincha bem.”
Os efeitos da leitura desses versos são, graças ao deus de toda rebeldia, a teimosia, a insistência contra a ignomínia (parafraseando um dos seus versos) e, apesar da libitina e de todas as suas formas (também de um seu verso), a vontade de seguir lutando. Como quando o poeta declara, cheio da santa ira dos justos, pleno de ferocidade, em  “Ralhete”


deixe estar que a raiva de minha raça vencerá
ela será como sempre foi: a troça que destroça,
o amor que vem do ódio, a vida que brota à revelia nas ventas do morto.

 

Sigamos na confraria.

 

 

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito).  Alguns trabalhos publicados: O livro de Loraine (romance, 1998), logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano Antologia do Conto Brasiliense (2004) e  Todas as gerações (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinqüentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos Nebulosa fauna & outras histórias perversas. Está previsto para publicação no primeiro semestre de 2018 o volume de poesias Babelical. Acaba de finalizar seu terceiro romance (ainda inédito) O grande mar oceano.

Email: leo.almeidafilho@gmail.com

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