ANO 4 Edição 66 - Março 2018 INÍCIO contactos

Elisa Scarpa


O banho de Yukawa

Aos quais eu jamais dirigi a palavra, eu sei. À espuma e ao tártaro dos elementos. À espuma para o fundo dos canais! Aos elementos para a escuridão! Discursai aí os vossos discursos. Estes cabrões invísiveis assaltam-me. Agora deixem-me fazer o que sou capaz. De quem é o assunto da carne? Eu como, eu seco. Acabamos de chegar ao progresso, enfim envenenados pelo mistério, dulcificados pelas flutuações estatísticas, como tem passado querida partícula Yukawa? Eu, menos mal, entregue ao que me é acessível, às relações aceitáveis. Àquelas que são intuitivamente e realisticamente vulgares.

 

Ao mesmo tempo a partícula Yukawa realiza-me. Essa manobradora implacável, essa actriz viva de uma combustão continuamente inflamável, presença material da minha existência. Visão recente, sem divisões nem intervalos, sem intermitências sequer, conteúdo não desdenhável que aplaca todos os meus pensamentos distraídos. Incessantemente quero fugir-lhes. Mas, sem dúvida, Yukawa, olha por mim, resplandecente, sem trejeitos de desculpa, envolta em significação precisa, Yukawa técnica que me conquistou pela teoria. Um dia será perfeita. Quando cheguei ao meu estado fundamental estava no ponto evidente de viragem, acolchoado de conceitos e objectos, envolto num fluxo de luz que me permitiu perguntar, a propósito da interacção dos elementos, para que é que ela servia. Para que serve a interacção dos elementos? É uma organização Hooke, foi a resposta de Yukawa.

 

Foi a primeira resposta clara que consegui, em anos e anos de demanda, desde perguntar de que cor é que são os quadrados até querer saber qual é o tamanho médio do coração de um anão. A resposta acondicionada com um prazer irrazoável impunha-se com a tranquilidade desnecessária da palavra: depende.

 

Uma camada de erva depois do meio dia era verde e ao fim da tarde (a meio caminho da noite) era amarela, eu via as respostas emaranharem-se em analogias, percepções, demonstrações, caminhos sem situação, pés de barro capazes de virarem asas num ápice,  ou com um pouco mais de tempo soluços brandidos à luz de 40 Wats dos candeeiros fracos das bibliotecas mixurucas onde se escondiam os heróis da procura. A procura é a maior parte das vezes invísivel à lupa. É necessário um microscópio composto para nos fazer reconhecer que tem que ser afeiçoado sem abcessos ou outras infecções funiculares capazes de inverter a bolha de medição das afecções procurais. Por ora, suponha-se, que o microcosmo é um organismo, foi isto que a partícula Yukawa ofereceu, com asserção electrónica, possessão óptica sem predecessão, nenhuma aberração e com toda e qualquer compensação suprimida.

 

Yukawa é o meu princípio, marcha irredutível do  meu amor, condensação da minha afectividade suprema, cátodo exemplar da janela de observação que sou eu, quando despido dentro da banheira, me entretenho a olhar para a minha carne, posto de alta tensão, alimento intermediário do abuso da paixão que sinto pelo mundo.

 

A água dá-me a minha imagem, écran impressionado sem eclipse ou mácula de vazio. O que eu não me permito ser, uma imagem não canalizada.

 

A organização Hooke reduzia-me à transcendência. Intercalo os dedos com rolhos de algodão cor de rosa, encho as unhas com óleo, sinto o impulso físico de obter uma resolução clara da pessoa que a natureza vibratória de Hooke me dá através da nomeação por ela feita da partícula Yukawa, radiação visível do segredo universal. Ondas de prazer, ultravioletas exigentes, picam-me nas unhas, delicados fragmentos de quartzo, ínfimos espelhos da delícia que passaram a ser os meus banhos desde que entrei em contacto com as respostas de Yukawa.

 

Preciso substituir a minha erecção por outro instrumento, mais fluorescente, ultramicroscópico, cheio de um poder fatídico que não permita que a minha erecção se separe da carne. As vibrações luminosas encadeiam-me mas, passadas que são, a claridade completamente desfraccionada subverte a ordem de grandeza da percepção do movimento vibratório que ainda agora me atingiu.

 

O óleo foi inofensivo para a água, praticamente a alta temperatura em que ela se encontra desfez a gordura, modificou a estrutura das glândulas salivares do óleo de amêndoas doces e fê-las descoagular, coisa que não sucederia se a água estivesse  a uma temperatura ordinária. Lembro-me da utilização da parafina nos motores das naves interestelares. Da sua inclusão micromilesimada nas lâminas de vidro dos motores em preparados permanentes de inspiração química. Ainda não lavei o cu. Quando caguei antes de me meter na banheira, usei o papel higiénico com precipitação, um movimento para cá outro para lá, e creio que o artefacto não terá ficado completamente limpo, erro fatal, principalmente após uma utilização duradoura do mesmo. Não há necessidade de uma limpeza tão aprofundada pois vou para a banheira, é praticamente impossível que a elevada temperatura da água não dissolva qualquer cagalhoto residual. Mas, quem sabe?, nem sempre a água tem um bom nível de penetração, meto a mão ensaboada e com um bom movimento de aceleração, atravesso as várias camadas de matéria insentível e agora tenho a certeza que estou metacrilicamente limpo.

 

Um diamante não pode ser mais puro que uma estrela cadente, pois não, Yukawa? A pele parece começar a ficar bastante emulsionada. É possível modificar um ente imodificável, um isótopo radioactivo, deslocá-lo para a cozinha e picá-lo como a uma cebola, indagar das suas capacidades para alimentar os países esfomeados? Talvez os etíopes, ou os moçambicanos, ou, mesmo, os portugueses, gelatino-dependentes, os que têm metabolismos inconstitucionais, que querem comer, comer, comer, numa permanência chocante, criaturas alimentarmente incorrectas, consagradas à macrofagia inter-estelar. Talvez alimentá-los com isótopos radioactivos cozinhados com núcleos de repolho e cascas de ananás. Alimentação repleta de fibras axiomáticas capazes de satisfazer os ogres reprodutores da fome.

 

As glândulas são imprudentes, desbundam na incompreensão dos limites, são presas fáceis das miofibrites, plasmam-se em cito-anais opalino-otárias de dilaceração mirabolante e é ver a humanidade desregulada a querer foder, em vez de dialogar, a querer apalpar em vez de solidarizar, a querer macerar, em vez de cantar hinos à sua nobreza de animal vencedor sobre todas as outras espécies. Asfixiam as convicções, desnudam os filhos e as filhas das classes mais singelas e arrebatadoramente morais que construiram as grandes cidades do nosso mundo conhecido, fundaram a diferenciação do homem e da mulher, modificaram as temperaturas afectivas dos bailes de carnaval, e fizeram das quecas dadas atrás de biombos sórdidos, ou nas ruas suspensas do cheiro a merda, uma espécie de epifenómenos, experienciais essências para se poderem escrever salmos à glória de Deus na terra e no núcleo do olho da terceira visão, maciço de conhecimento radical da estratosfera helicoidal que é a imanência semi-líquida da transcendência. E a rigidez das glândulas ignora todas estas denominações corpusculares do divino e despe os filhos e as filhas, e despe, e despe mesmo, sem pudor, e com uma certeza, não é para lhes dar banho.

 

Enquanto se toma banho a intuição geométrica é surpreendente. O rectângulo da banheira exponencia as experiências físicas, que arrazoado recorrente assalta os poros! Imbui-os do poder de  se descriminarem, analisar para conseguirem chegar a um raciocínio fundamentado sobre a melhor maneira de atingir a análise directa. É, foi.
É Yukawa que me empurra para a banheira todas as manhãs e todas as noites, denuncia sem ambiguidades, aplica-se possivelmente a mim e aos outros – a atribuir um tempo de banheira, incomparável e adequado ao tempo preciso de raciocínio. Quem é que falou de crise, de loucura, de nostalgia, de medo feroz, da vontade indomável de tantos de executar metricamente outros tantos? Estas aberrações inteiramente gerais acontecem por falta de tempo de banheira, de um soutien aquoso que suporte o peso da experiência, dos Principia imutáveis da lógica ultra-formalizante – estás aqui, estás a dar com os cornos na bancada.
Explicitamente Yukawa, partícula não contraditória sem rebotalhos logísticos, levou-me a compreender o apelo da génese. Uma voz psicogenética disse-me em inglês, ainda não arranjou um tradutor para português que conseguisse exprimir claramente a sua ontologia – Forbids the World to build it up again. Proibir o mundo de se recriar novamente, aqui está um facto. Não há questões cortico-viscerais, implementações de razões que se desdobram e desdobram em leques e leques de pregas, tudo isto só para criar uma leve aragem nos dias quentes de Verão ou nos aposentos onde falta o ar. Proíbe o calor!, Yukawa é assim.

 

Clara como o reflexo da água de um lago limpído e calmo. A minha erecção desapareceu, derreteu com a água quente, toco no orgão ex-erecto, pode ele voar do laboratório? Deixar o resto de mim na banheira e partir. Tenho a certeza que a partícula Yukawa se transmudaria em auréola para o seguir, acompanhar, purificar. Seria a primeira a acampar nos altos e frios Himalaias, para o esperar. Se ele pudesse voar do laboratório iria para bem longe, onde não houvesse paredes nem som capaz de ser activado através de um botão, nem luz retórica que tornasse visível o que é visível, e parecesse desdobrar-se em variáveis inúteis, variáveis para adormecer.

 

O meu orgão ex-erecto deixa-me na banheira sozinho, se o puder fazer!, Yukawa quis-lhe explicar, recentemente, o que é a apoteose de uma erecção, o próprio orgão eleito a presidente de uma frustração orientada, como é que ele numa intuição refinada se auto-produz para não ser rejeitado? Uma explicação é como uma armada em marcha, mete impressão quando está ao longe, a meio caminho torna-se fascinante e na altura do embate, no momento preciso da refrega não há exemplos clássicos para ajudar a descrever, não há elementos figurativos, materiais ou abstractos, que consigam dar uma ideia da realidade correspondente.

 

Quando a armada desaparece, parece não fazer sentido que não apareça outra a seguir, e outra, e outra, é esse vazio fecundo que assusta o meu orgão ex-erecto, ele preferia ser quase sempre um orgão ex-murcho. Vai fugir desta banheira um dia, rasgar as paredes do laboratório, cagar na dialéctica, Oh Yukawa tira-me daqui, para que eu possa responder-te em carta: “Com a mais subida consideração de V.Exa. mttt.att. e grato, beijo o anel da tua auréola, devotadamente”.

 

Acabou-se a minha missão na banheira, a água está fria como um rebanho assassinado no meio da noite escura e gélida. Uma camada de lixo grudou nas bordas, onde a água acaba. Esta forma triangular de água frígida serviu-me, encerrou-me como uma campanha cavilosa.

 

Fala-me da minha falta de coordenação, dos músculos que estão sem acção, do sangue que não bate nas têmporas, do roxo que purpureia as minhas extremidades. Yukawa idealista e sonhadora ouve as suites para violoncelo de Bach, um olhar imarcescível domina o espelho ao lado da banheira. Dela promanam quadrados construtivistas do tipo idealista, il ne faut pas chercher as raízes da verdade, um cálice de a-priori na mão é uma figura especular desenhada como uma ânfora biológica adornada de genes e embriões, via indirecta para a exaltação: a primeira armada que passar à minha porta, passará incólume. Sinto-me um polvo de bondade, é assim que a partícula Yukawa sente. Entre a sua inteligência verdadeira e o desequilíbrio bio-psíquico que encerra, pouco mais há do que meia dúzia de cadáveres de azeitona abandonados junto ao jardim de um café. Talvez tenham saltado do caixote do lixo, à noite, à hora do fecho, saltado do zelo extremoso de um empregado hiper-cansado que se esqueceu de amortalhar convenientemente os cadáveres das azeitonas. Se Lucifer é preto, então estes cadáveres também o são, negros e pequenos como todos aqueles que não podem resgatar o tempo.

 

Yukawa entrega-me um prontuário. Na primeira página está uma lâmina de ouro. Yukawa insere no rectângulo da banheira a sua forma quadrada, vitupérios e infelicidade correm na água como sangue constante, derramado na parede, desconchavado.

 

A penumbra do fim do dia soletra os olhos de Yukawa e o corpo desafogado movimenta-se. Que prazer é este que se solta em golfadas histéricas?! Pronuncio segredos, oh partícula yukawa, com dinheiro e sem mácula – vai-te a eles antes que a noite acabe. Segreda-me obscenidades, mas o meu orgão ex-murcho, sentado no jardim, olha os patos velhos que tagarelam vacilantes e tortos na água podre e não quer saber de obscenidades.

 

A água da banheira está quadrada, os patos descem tranquilamente do lago e ousados deslizam no quadrado. As aves aborrecem-me, enxoto-as para bem longe, não quero nenhum amplexo sentimental positivo.
Porra, anseio pela turba!, não seria mau um café, os animais olham-me com candura.

 

Um ao rabo do outro segredou: –  mais uma alheira misantropa que se afogou na banheira. Isto é que é empirismo, mete-se o dedo na banheira e vê-se qual é a temperatura da água, qual penúria na Flandres do séc XIX qual quê? Quem tem queda para a merda, não fica na retrete, encontra a grande pampa da merda em qualquer obituário decente de um pasquim diário. Anuncia-se que... claro que se anuncia. Marx e Kant não eram nomes? Claro que eram, está bem de ver, vá, baixa as cuequinhas que há homens mortos nelas, até torturados, deixados ao sol e ao frio, com os peitos aflitos de silêncio, e as mãos inchadas com carne que não lhes pertence. Baixa as cuequinhas, deixa olhar, tenho um cutelo de lâmina afiada que para além de cortar o silêncio corta as falanges do aborrecimento.

 

A torneira deita água, a outra praticamente tinha desaparecido, a tampa veda mal, a banheira sagrada ganha fogosamente um tom avermelhado. A água nova não tem cor de água. A obscenidade é a antecipação do fim?, diz-me Yukawa.

 

Ela está a perder o ar de partícula, parece-me mais um vagido auto-estrada, com muitas curvas e pouca segurança. O quadrado rectângulo triângulo fala em coro com Yukawa: “No dia do meu aniversário nascem-me ouvidos em cada uma das mãos. Ouço o mundo. Ouço o vácuo do mundo. E adormeço ao som da sua fúria”. Mais um copo de vinho para o arrazoado da noite, isto é Wein, mesmo Wein? Amanhã nada, ontem nada, agora nada. É este conjunto de nadas tão complexos que ameaça a nossa existência. Tens a certeza Yukawa? Que as acções económicas e sociais modificaram o mundo? Eu digo antes que a inveja do pénis fez mais pelo mundo do que a Shumann-Heik pelo belo canto. Somos ou não somos uma sumo-súmula de líquidos e gases? Somos e somos. A memória não é selectiva por dá cá aquela palha, há quem goste de explosões e há quem goste de ocasiões. Há de tudo como no supermercado. Juro que falo seriamente, se sou 000 não sou 500.

 

O meu coração é irritável como o dos outros, e a minha tusa é críptica, e as horas são hemafroditas e gostam de tomar chá com as gárgulas de Notre Dame. Ou Pampamos todos ou não há Lobsang para ninguém, a voz do povo trágico-marítimo não brada por Amor, sangue e Pampa e as octanas não ressuscitaram todas ao sétimo dia? E quando o peixe do Restelo quis levantar-se do penico, a sua cabeça descobridora não lhe pesou sobre o peito, e não soçobrou? E os caixas de óculos não usam balanças para pesar a visão? Há, pois toda a natureza de vez em quando se apaga, pois, pois, o resumo perpétuo da visão estável, e a lombriga lupito, usa apito, e caga cagalhão no alcatrão e a Côte de Roses é rincolheira, cem minas pessoais matam veraneantes, ai a guerra que absurdo! O bispo até ficou enjoado e teve que descansar as cruzes debaixo dos sobreiros do Alentejo, quem dá bolota também dá sombra. Oh Amílcar traz-me aí o cajado, que o gado já vai longe! Pobrezinho desassimilou, passou-lhe directamente dos gorgomilos para os intestinos, não retém nada nas entranhas, é repugnante como se caga. Não há cifras para tal vaia de merda. O negócio é rendoso. Um ser até de um galho de uma árvore pode saltar para a banheira, falar com Yukawa, olhar entre a ramagem, assistir ao massacre, à terra devastada protegida pela água morna da banheira. Ah, distúrbio inaudito, tumulto essencial que não recorre a um curso de história para encontrar a sua génese, motim que é paixão é matança sem fim, viva o genocídio imediato! Qual alevantamento, qual beira do precipício!, ou há uma região asiática banhada pelo Mediterrâneo ou não há! Vento que vem do Levante que alevante.

 

Ela está prestes a ficar noiva, segreda-me Yukawa.

 

Não sei quem é ela, mas que estipule quatro contratos, que fique tudo esclarecido, que mais tarde não quero ouvir guinchos na horta, e trincos na porta. Não obstante não sou malicioso, nem tenho má vontade, ainda que a peçonha de fora não me faça maleita.

 

O silêncio venífluo fala com Yukawa. Ele sabe falar com ela, um Boschback implantou-se-nos nos olhos, o que corre pelas veias é um aliado nado-morto. Não consigo ver, nem ouvir Yukawa, e não quero saber de quem consegue ver e ouvir.

 

O meu Boschback traz com ele Ugo Cerletti e Lucio Bini. Quem guia é o Boschback, é o único que sabe guiar. Ugo vem com ele à frente, e Lucio atrás, na direcção de Ugo.

 

Atravessaram todo o território Msinga, tosquiaram um tanto gado entre o aqui e o ali e chicotearam um ou outro aflito que se lhes atravessou no caminho. A nenhum deles falaram de Yukawa, farrearam-no numa ou noutra aldeia, entre as tosquias e as apanhas do tomate. Sãos que nem uns peros estão a olhar para mim. Não a tomar conta da minha pessoa, que para isso a banheira é quanto basta. Estão a ver com o olhar que supostamente era meu.

 

Não há pecado original que não me tenha sido imputado. Yukawa já havia partido obstinada e emperdenida. Do jugo de Boschback, e da parelha dos outros dois trazidos com ele na viagem, não sei como me desfarei.

 

A escravidão não me assusta, mas uma canga de interacções essenciais sobre o cabedal não é vínculo que me alegre! Absolutamente especula-tivo, diria Yukawa, se aqui estivesse, mas não está!, o que está aqui é um lúcio que vai ser o meu almoço, isto se antes o Boschback não me empurrar para alguma barreira rodoviária sem comboios. Se queres partir pega nas pernas, não aprecio cautelas, que os comboios já não passam aqui!

 

É difícil reconhecer que voar a grande altitude é um esforço que não posso comportar e, enquanto isso perto da barreira rodoviária, perto em altura, o Boschback, ou mesmo o Ugo Cerletti, ou o Lucio Bini, apanham-me.

 

Emito sons sob soluços, não chamo pela mãezinha, porque a mãezinha foi de férias com Yukawa.

 

Tenho carvão para me aquecer, e não sei o que quer dizer a palavra punição.

 

Boschback está sentado numa linha perpendicular que vai da extremidade de um arco ao raio que passa sobre a outra extremidade. Os outros dois foram às compras, mas como perderam a lista devem demorar um bom bocado, talvez anos, porque antes têm que a procurar. Neste preciso momento estão a comer uma canja cheirosa, com um ramo de salsa fresca. Estão a descansar para depois poderem continuar em demanda da lista.

 

Podia estar mais descansado, mas não estou, doem-me as articulações e tenho umas gotas de sangue no peito, como se minúsculos ganchos me prendessem a um qualquer tronco invisível, os pés ainda que na água estão dormentes, prestes a serem leiloados por tuta e meia. Na sola dos pés crescem manchas semelhantes a pétalas de rosas ressequidas. Na auto-estrada sentimental não passa vivalma. As rodas dos carros rodam sem viaturas e parece-me ouvir as gargalhadas inter-mitentes do Ugo Cerletti e do Lucio Bini. Os meus olhos estão betuminosos. Boschback sentado no seno conta-me uma história em duas partes. A primeira serve de introdução e subleva no abstracto as minhas convicções sobre Yukawa, as suas relações com a cibernética e o empório da causalidade e da finalidade. A segunda fornece-me alguns exemplos dos Sistemas Eu, rações particularmente instrutivas e generosas. Boschback aponta-me uma direção, fornece as mesmas coordenadas que Yukawa forneceu. Não há contra-exemplos, esclarecimentos de última hora, rendições à evidência, desesperos de ponta e mola capazes de dominarem a transição da minha pessoa.

 

A água da banheira está gelada, arrefecer-se-á de fora para dentro, ou de dentro para fora? Juro que esta pergunta não é retórica! Não há simulações que me salvem, a primeira ameixa a cair no planeta terra, não foi a última a cair no planeta terra, pela simples razão que várias ameixas caíram!

 

Proponho a voz de um belo barítono para acabar a noite, o barítono não pode vir, Ugo Cerletti e Lucio Bini encontraram-no a comer uma canja e confiscaram-no para os seus reportórios pessoais. Boschback usa auréola, uma auréola portátil, que tira e põe a todo o instante, não percebo de que material é esta auréola. Talvez seja de borracha, borracha e plástico talvez!

 

Está sisudo o Boschback. O momento é sério, não se pode respirar. Manipulem-me, não há quem não me manipule! Uma seringa, um beijo, uma machadada! Quem é que quer saber da linguagem humana? O conde da Abrunhosa não é, com certeza.

 

Há quem pareça coisas, conte coisas, fale com  a boca cheia de decepados, represente graficamente o mundo, e preveja como  irá ser a nutrição dos seres vivos daqui a dois séculos. Anda Pacheco, que a guitarra ainda não ficou sem cordas. A minha mãe era uma cigarreira, vendia cigarros na loja, tinha umas mãos que conseguiam pegar em caixas de cigarros. Conseguiam pegar nos cigarros!, esses eram vendidos à peça. O que é que se vende mais à peça?, quase tudo, rende mais assim de que por atacado. Cordas de batéis, laços de desenvolvimento, croissants de vinho, eras de reprodução, ciclos de senescências, correlações funcionais, e quilos e quilos de psicologias e psicologias e caracteres gerais de toda e qualquer coisa.

 

Quem é que arremeda os cucos à meia noite? E os lobos que adormecem nos supermercados? Quem expulsa os líquidos das seringas? Quem instrumentaliza o leite saído das tetas dos mamíferos? Quem viola as bombas que não dão à luz? Quem medicamenta o céu adoecido? Quem virtualiza a fome dos que têm o estômago vazio? Quem enxagua a água cheia de espuma? Quem levanta o peso dos invísiveis? Quem talha os compartimentos dos que não têm espaço?

 

Pergunto aos juncos que dormitam na banheira: Vocês acham que Ítaca é o meu coração?

 

Elisa Scarpa

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2018


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Foto de capa:

O Semeador - Millet - 1850 ; O Semeador - Van Gogh - 1881


Paginação:

Nuno Baptista


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