ANO 4 Edição 66 - Março 2018 INÍCIO contactos

Eduardo Rennó


Poemas

Ser um e outro

 

Fecho os olhos
fecho a cortina
a luz me estabiliza
abro e fecho a retina

 

Seus olhos nos meus olhos
retira a lágrima
que ficou guardada
antes de cair o véu da neblina

 

Você fica e resiste
o nó é guardado
o círculo é de vidro
o jarro é quebrado

 

Você foge o tempo cede
a chuva cai
o sol não sai
os anos passam
você não volta

 

Fica dentro
o sentimento
a lembrança
da esperança

 

Você dentro de mim
guarda algo que perdi
vai o tempo que tive
e o seu cabelo com flor jasmim

 

Conversamos em silêncio
jogamos cartas na cama
você pede um pouco mais de aconchego
prova que ainda tem alguém que ama

 

Ao fim saberemos
um no outro
que somos um e outro
só um, mas sempre o outro
achando no outro
a vontade de ser só um
junto com o outro

 

...

 

 

 

 

                    A chama

 

Sua pele cálida
uma via-láctea
viajo em curvas
perco sentidos
seus olhos safiras preciosas
seus lábios
néctar dos deuses
te quero inteira

 

Desnudos
dois corpos
duas almas
duas metades
uma completude

 

Carne na carne
paixão e prazer
calor e fogo
momentos intensos
experiência de ritmos
os olhos se viram
dentro de ti o êxtase
o vulcão
até saciar

 

A água
relaxa
dois corpos
duas almas
harmonia e melodia
sintonia fina
a mão e o instrumento
o descanso partilhado
o beijo molhado
a conversa aberta
o rosto que sorri

 

Dois corpos
lado a lado
e a vontade de querer mais

 

...

 

 

 

 

                    À metade em brumas

 

Da procura de uma vida
encontro uma junção perfeita
no imaterial abstrato
que completa
o que falta
na alma

 

A outra metade
que nunca percebi
em imemoriáveis desilusões
agora surge
envolta em brumas
numa distância intocável

 

Há uma leve camada
vazia
entre as partes
que ainda não se unem
no todo

 

Uma ausência de palavras
suspende o ar
mas é contínuo o olhar
num brilho que ressalta
de um espelho ao outro

 

E permaneço intacto
no intocável
imóvel
no imponderável

 

Apenas observo
uma fina arte em obra

 

...

 

 

 

 

                    One-night stand

 

Tive você
possuí teu corpo
juntos, gozamos os prazeres
por uma noite

 

Por uma noite apenas
selamos nosso amor
que acabaria ali
sem um “dia seguinte”

 

Começamos a noite como estranhos
e terminamos, para ser completos desconhecidos

 

Se você cruzar comigo na rua agora
não terei o que falar
E você? Como reagirá?

 

Você foi embora,
já deixando saudades,
mas nem sequer olhou para trás

 

Tinha que ser apenas por uma noite?
Was it suppose to be one-night stand only?

 

...

 

 

 

 

                    Roça Vazia

 

Roça Imensidão Definha
Vasta Vastidão Vazia
O frio alcança a pele
Insígnia lastro selo secular

 

Tempo que não cessa
Tempo que gira
Perpetua século
Torrente milenar

 

Água corre, flui
Escapa ao pouso
Transitória corrente
Imenso vazio
Cascata de pérola
Girândola ao luar

 

Cidade urbana
Roça grande
Imensidão vazia
Definhando…
Sede dos sem-lar

 

...

 

 

 

 

                    Divisão dos mundos

 

A João Pinheiro divide dois mundos
de um lado o simples e batalhador
do outro o requintado e boa-vida

 

Subir sua alameda nos transporta
de um mundo corrido e trabalhador
para um mundo de prazeres e bem-aventurança

 

Lá embaixo o povo se aperta oprimido
aqui em cima a elite goza de seu consumismo

 

Lá tudo é resquício e desgaste
aqui tudo reluz em perfeccionismo

 

Por que uma simples avenida nos divide tanto?

 

...

 

 

 

 

                    Noite portenha

 

É noite na cidade portenha
após descobrir suas calles
deito-me cansado na cama

 

No fundo da noite, os latidos de un perro
não me deixam dormir

 

Levanto-me e ligo o I-pod
numa estação de rock

 

...

 

 

 

 

                    Dois pássaros

 

Dois pássaros ciscam a calçada
um casal
um preto
um branco
buscam a refeição

 

O branco acha-a
farta-se de um pequeno resto de nada
o preto cisca a metros
rien de rien

 

Juntos outra vez
eis que de repente
um voo rasante atravessa a avenida

 

Vão procurar refeição em outras paragens

 

,,,

 

 

 

 

Funcionário e Bailarina

 

Mal acordo já penso nela
passo o dia pensando nela
só para sair do trabalho e ir vê-la no bar

 

Chego e lá está ela
desfilando por entre as mesas
numa jaqueta jeans e saia xadrez
e eu num monotom

 

Peço um drink
ela nem repara em mim
atende a todos de forma igual

 

Eu sou um mero funcionário
em fim de expediente
ela é a bailarina
que dança com a bandeja na mão
ela é uma exuberante Colombina
eu sou um entristecido Pierrot

 

Pago minha conta e saio cabisbaixo
certo que amanhã tenho que novamente trabalhar
e que essa bailarina da noite
não pode me amar

 

...

 

 

 

 

                    Caso fortuito

 

Tivemos um caso fortuito
por anos...

 

Foi um amor de verão
que prolongou a estação

 

Estava apaixonado
mas seus pensamentos estavam nos outros

 

Eu pensava em casamento
tomava uma Coca-Cola
e você nem entrava na disputa do buquê

 

Nem me dei conta
você deu as costas e partiu
agora você é passado

 

O sol nas bancas de revista
me deixa com preguiça
de entender por quê

 

Só sei que hoje
durmo e acordo sozinho

 

Quero viver o amor de novo
Por que não? Por que não?

 

...

 

 

 

 

XXX **

 

Te quero pequena
serena
me enrola na pena
que cena
aposta tua língua na minha
asa morena
vejo seu rosto sumindo
desaparece comigo
na pista do gramado
da roça
vagarosamente
enrolando o fio do novelo
da telha do cantar
encenado no sereno
da noite pequena

 

** Poema publicado no livro Eu & ti (Corpos Editora, selo Worldartfriends, Portugal, 2009)
...

 

 

 

 

                    Tempo preciso

 

O tempo presente
o único existente
o tempo fugidio
o grão de areia da ampulheta

 

Deste estou saciado!

 

Quero o tempo suspenso
o tempo eterno
tal qual a onda do mar
tal qual o rio perene
tal qual o caminho a caminhar

 

 

Eduardo Rennó nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1979. É bacharel em Letras e Comunicação Social pela UFMG. É professor, escritor e poeta. Já publicou o livro Eu & ti em Portugal (Corpos Editora, selo Worldartfriends), e possui alguns poemas publicados em Antologias. Já fez trabalhos também com curtas-metragens, especialmente Super-8, e fotografia. Acadêmico da ABEPL, da ALG e membro dos PoetasdelMundo. E-mail para contato: edurenno@yahoo.com

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2018


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Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Março de 2018:

Henrique Prior, Alberto Lins Caldas, Angela Maria Zanirato Salomão, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Christina Montenegro, Danyel Guerra, Demétrio Panarotto, Eduardo Rennó, Elisa Scarpa, Ernesto Moamba, Eunice Boreal, Fabián Soberón ; Rolando Revagliatti, Fernando Andrade, Gustavo Silveira Ribeiro, Henrique Dória, Jorge Bateira, José Antonio Abreu de Oliveira, Leila Miccolis, Leonardo Almeida Filho, Luis Bacigalupo, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Adifa, Marinho Lopes, Miguel Curado, Moisés Cárdenas, Ricardo de Moura Faria, Ricardo Ramos Filho, Ronaldo Cagiano, Rosa Enríquez, Salomão Sousa, Tadeu Sarmento, Taise Dourado, Tânia du Bois, Thiago Scarlata, Yuliana Ortiz Ruano


Foto de capa:

O Semeador - Millet - 1850 ; O Semeador - Van Gogh - 1881


Paginação:

Nuno Baptista


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