ANO 4 Edição 66 - Março 2018 INÍCIO contactos

Alberto Lins Caldas


tres poemas de paris

je voudrais

 

● a folha seca ●
● aberta como tarantula ●
● procura entre arvores ●
● cascas de ovos pra morder ●
● como se fossem sois ●
● derrubados dos ninhos ●
● pelo vento ha essa hora ●

 

● aninham ovos no inverno ●
● entre galhos podres ●
● pra neve destruir ●
● fazendo gorar ●
● enquanto é tempo ●
● e não nos replicamos ●
● pra outra dor outra morte ●

 

● porisso depois de tantos ●
● degraus corredores salas ●
● encostado nessa parede ●
● gelada como aguaviva ●
● mais uma morte a morte ●
● ate a morte e q o nada ●
● não doa não pese nada ●

 

● um pouco velho um pouco ●
● perdida a leveza as coisas ●
● o sol vai indo sozinho ●
● sem q se tenha chegado ●
● nem ao paraiso perdido ●
● o crepusculo é bem grande ●
● o sol vai indo sozinho ●

 

 

 

 

la cavale

 

● uns ●
● corrompidos pela ruina da insanidade moral ●
● da espiritualidade das sombras ●
● outros ●
● tão encantados com a dolorosa verdade ●
● e a coragem de destruir sem razão ●
● sendo essa a unica essencia possivel ●

 

● não porq as palavras tejam silenciosas ●
● inda não realmente interessadas ●
● em seu mundo estupido ●
● na fuga ridicula do sentido ●
● e dos normais q devoram miolos ●
● de crianças de trabalhadores de cães ●
● danificados pelos dias vorazes do senhor ●

 

● nada disso ●
● nem mesmo o deserto onde nos escondemos ●
● a questão é simples como um tiro na nuca ●
● tudo se resume na fuga ●
● nos imensos dedinhos sujos de merda ●
● da fuga q não cessamos de lamber e gostar ●
● o resto é fuder sempre e sempre sem gozar ●

 

 

 

 

ta belle famille

 

● diziam ●
● ta belle famille ●
● enquanto la em casa sangravam cães ●
● pro cafe da manha ●
● assim aprendi o q era isso ●
● de ta belle famille ●
● logo q tentaram me matar ●

 

● gritavam ●
● monsieurdame é horror é castigo ●
● dois cães colados fudendo no inferno ●
● um mesmo corpo monstruoso e doente ●
● gritava mamã gritava papa ●
● gritavam dançando todos desesperados ●
● ?por q logo aqui um monsieurdame ●

 

● pelo meu lado eu berrava ●
● sou teu filho teu irmão teu neto ●
● inda mordendo meu pão com manteiga ●
● cheio de manteiga ovos e queijo ●
● berrava monsieurdame ●
● com muita honra berrava eu dançando ●
● eu como um cão sendo sangrado ●

 

● ta belle famille ●
● uma porra eu corria doido ●
● como cães q vão ser sangrados ganindo ●
● monsieurdame urravam jamais ●
● isso tornava o pão o ovo o queijo ●
● a manteiga e os goles de cafe ●
● deliciosos ●

 

● é certo qeu fugi ●
● refugiado nas ruas entre as lixeiras e nu ●
● escondido do dia catando tudo de noite ●
● olhando o rio gordo ●
● as gralhas dormindo o frio de lascar ●
● como um cão gostoso ●
● esperando uma noite sem violencia ●

 

● inda ouvindo ●
● daquela gente ta belle famille ●
● é o inferno e ele o horror é o cão ●
● inda sentindo a lamina ●
● vendo sem acreditar o sangue jorrar ●
● como assim com os cães ●
● digo eu olhando o rio gordo e violento ●

 

● monsieurdame a porra ●
● converso assim com a gordura do rio ●
● monsieur e dame e cão e deus e merda ●
● filho irmão neto faminto e nu ●
● louco por pães com manteiga e queijo ●
● com ovos fritos misturado com alho ●
● agora a noite o rio as latas de lixo ●

 

● diziam ●
● ta belle famille isso ha tanto tempo ●
● q nem sei se foi assim se foi assado ●
● so sei q agora é noite e não posso fugir ●
● noite q faz não existir mais o dia ●
● so a fome de cão essa dor a dor ●
● essa porra sem fim ●

 

 

 

Alberto Lins Caldas publicou os livros de contos “Babel” (Revan, Rio de Janeiro, 2001), “gorgonas” (CEP, Recife, 2008); os romances “senhor krauze” (Revan, Rio de Janeiro, 2009) e “Veneza” (Penalux, Guaratinguetá, 2016), e os livros de poemas "No Interior da Serpente" (Pindorama, Recife, 1987), “minos” (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2011), “de corpo presente” (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2013), “4x3 - Trílogo in Traduções” (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2014) com Tavinho Paes e João José de Melo Franco), “a perversa migração das baleias azuis” (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2015), “a pequena metafisica dos babuinos de gibraltar” (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2016). Blog: www.poemasalbertolinscaldas.blogspot.com.br

 

 

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Paginação:

Nuno Baptista


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