ANO 4 Edição 66 - Março 2018 INÍCIO contactos

Angela Maria Zanirato Salomão


Poemas

Simulacro


eu rezo para as tesouras
abertas em cruz
rezo para o que crio
como verdade inventada

 

eu rezo pelo sinal
vermelho
pelas bonecas de plástico
que dormem há anos
nas lojas de 1,99

 

etiqueto minhas crenças
deixo pistas nos meus labirintos
quando eu for embora
serei encontrada
pela minha significância
meus signos
e símbolos

 

eu rezo pelo teus olhos de ganância
pelo shopping
e meninas do call center

 

(pela tua bolsa Prada eu rezo de joelhos)

 

faço penitência e jejum
para que teus ritos
sobrevivam


aos teus gritos.

 

 

 

 

Aquários


este dia desolado
cumpre sua função:
-existir
à exaustão

 

deveria haver um não dia
na semana
uma não hora no dia

 

mas estamos todos ávidos
por qualquer forma de vida
como o peixe no aquário
que dá de cara com o vidro
e volta
e recomeça

 

mal sabemos que recomeços
nada mudam as estatísticas
da desesperança
de quem dispara corações encouraçados
a todo momento

 

recebe o afeto que se encerra
nestas horas de taquicardia
coletiva
nosso não lugar
são estes instantes
cheios de vida


vazias

 

 

 

 

Pagã


revoada de mariposas
nas janelas
espreitam o dia, e seus braços de névoas
há um deus que unge as frontes
-mas eu não fui batizada-
nasci tarde demais
não vi os poetas das montanhas
e seus cajados
( sustento da poesia)
não vi os monges ,nem ouvi cantos gregorianos
trago a inquietação do divino verbo

 

despenteado
meus cabelos anéis
de tão azuis
-negros
abraçam as amarguras
e a profundeza do olhar
a questionar o tempo
e seus primitivos versos

 

sou filha da manhã
que não houve
nasci pagã
e folheio a lua.


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Poesia, poesia


conta qual a primeira vez
que a palavra pedra te rondou?
foi a pedra pensante de Wallace Stevens?
ou a pedra viúva de Mallarmé?
a pedra queimada de  Aleksandr Blok?
a pedra  poética de Ósip Mandelstam?
a pedra –ferro de Hilda Hilst?

 

poesia, poesia
tuas pedras doem  a cada verso
meu coração calcificado
asas amputadas
lírios desossados
este olhar pétreo
constrói muros
dorsos dobrados
pedra sabão

 

poesia, poesia
tuas pedras
mostram o caminho
dos voos
dos vasos
dos vales
dos ecos
dos gritos das mulheres apedrejadas

 

poesia, poesia
mostre a ultima pedra do poema :
-ensina a caminhar em  pedras brutas.

 

 

 

 

não sou Pietà


não me peçam para carregar filho crucificado no colo
não me peçam para tirar espinhos
eu não sei o que faço com este corpo
em fase terminal
não sei assoprar feridas
não sei fazer unguento
carrego feixes de cana
manejo enxadas e facões
não me venha com este dorso ensanguentado
não quero ver estes olhos sem brilhos
cubram este corpo


que não me pertence.        

 

 

 

 

Nunca coloco atadura em meus cortes


deixo sangrar
feridas abertas são essenciais
para salvar a memória
coágulos redimem
pecados pensados

 

hoje é dia de lustrar cicatrizes
herança do tempo de cortes fechados
camisas de forças
me abraçam
forte!
forte!

 

respiro fendas
e fujo


dos vãos.

 

 

 

 

O adeus dos pássaros


ao redor  o mundo era pequeno demais
coloriam-se com as tintas da  tristeza
 se viver era um atrevimento o voo era a conformidade


Anne Sexton  era  esquizofrênica
Agatha Christie era  esquizofrênica
Veronica Lake era  esquizofrênica
Virgina Woolf era  esquizofrênica
desencontradas com o mundo
mulheres recortadas /transversais
a arte tênue linha onde  a vida persistia
até os fios dos carretéis as envolverem na espiral do tempo
e serem absorvidas pelo abismo  interno
rimas destituídas /palavras/imagens / perpetuadas


e os pássaros  acenando ao longe....

 

 

 

 

Mudei a fachada


cereja no cabelo
um texto decorado de batom
tapete vermelho
onde desfilo minhas excrecências
minhas vaidades penduradas no varal
tatuei minha infância no espelho
e nele estou sempre de joelhos

 

mudei a fachada
esparramei poesias no beliche
durmo no andar de baixo
do meu coração decorado
de couro
encouraçado
minha mala envelhecida
 pelo tempo das viagens internas
etiquetada
enfeita a escada riscada pelos dias que busquei
deus /alinhado

 

mudei a fachada
decorei as unhas Frida Kahlo
acariciei meus cílios espessados
mordi a maçã do rosto
(detesto estas saliências)
coloquei blue jeans
e gritei:
- aí de mim que só uso trapos!

 

mudei a fachada com duas lágrimas pingadas
mil vezes me desfaço
me recrio na dor


despedaço...

 

 

 

 

Manequim


na primeira passarela sorri
sobre o esqueleto
vestido Dior
desfilam franjas
pontas que   apontam para o nada

 

na segunda passarela emergi
trapo
manequim de mim
ajeito olhos
hipermetropico
quantas gramas pe(r)di
sem dramas
-eis a maneca da hora!

 

na terceira passarela paralisada
a alta costura me come  pelas beiradas
visto o deus mercado
escravizam meu corpo
me estupram em cada  passada
aqueles olhos de abutres
aqueles corvos de ternos

 

na ultima passarela eu vi
toda esta indústria assassina/ eu e tantas meninas
e tantas mulheres  /máquinas de costuras
crianças terceirizadas  presas na cadeia têxtil
a sonhar  em ser manequim  igual a mim


( elos da mesma corrente)

 

 

 

 

O cansaço do poeta


estou  vaga vazia
vesga de espírito
prostrada
lanço um  grito
arrebento meu peito
de cristal

 

(cigarra lírica
sem ninho
a voar como pássaro cego)

 

sobre o pentagrama do infinito
costuro silêncio nas pontas
do véu da noite
minhas palavras descabidas
descobertas
usam gorros

 

meu primeiro verso
viu a alma humana
em tons invertidos
-chorou lágrimas escondidas-

 

aprendi arranhar o dia
com as garras da tristeza
meu coração pensativo
leva ao princípio do verbo
descubro que a poesia
é o cansaço do poeta.

 

 

 

 

Vitrine


vou fazer um poema
para todas as mulheres que se enfeitam:
anel e brinco
cabelo tinto
unhas pintadas rubra cor
boca calada
rubra dor
e na sala um tapa estala
a lágrima pingada
não é joia
é dor...

 

 

Angela Maria Zanirato Salomão nasceu em Itapira/SP.  Professora de História, Pós-Graduada pela UNESP de Assis e pela UEM, Maringá.
  Participou do Mapa Cultural Paulista versão 2015/ 2016, onde foi classificada nas fases municipal, regional e foi  para a fase final na modalidade conto . Participa da Associação de Escritores e Poetas de Paraguaçu Paulista- APEP. Tem poemas publicados em três Antologias: “Um olhar Sobre” coletânea da APEP em 2014, “Filhas de Maria e Valentim”, 2015 e “Um Olhar Sobre”, coletânea da APEP 2017. Também possui  poemas publicados  nos sites Blocos Online , Parol , Movimiento Poetas del Mundo , Antologia do Mapa Cultural Paulista edição 2015/2016 ,versão  ebook ,Revista de Ouro e Revista Ver-O- Poema.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2018


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Foto de capa:

O Semeador - Millet - 1850 ; O Semeador - Van Gogh - 1881


Paginação:

Nuno Baptista


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