ANO 4 Edição 66 - Março 2018 INÍCIO contactos

Christina Montenegro


As divinas tetas do jardim

Uma crônica, informal e pessoal, sobre a construção da  relação identitária com a zona sul da cidade do Rio de Janeiro dos anos 50 e 60, através da memória olfativa.

 

Transitar os anos 50 e os 60, entre a Lagoa e o Parque Lage, no bairro carioca do Jardim Botânico, foi uma experiência tão perfumada, que imprimiu suas essências no meu cérebro com profundidade ímpar.

 

O inconsciente apoia o cérebro, e a mágica se dá.

 

Não há necessidade de estímulos olfativos associativos reais, concretos, para que eu evoque, “por dentro”, meia duzia de cheiros.

 

Basta falar do fato passado, e o odor vem, físico: se um neurônio mais abusado cismasse, talvez conseguisse tocá-lo.

 

Fotografia interna de fragrância virtual, impossível de compartilhar.

 

Quando leio o que Tom Jobim falou da “Lagoa do tempo dele”, eu sei de que cheiros ele falava. Sei que cheiros tinha aquela orla da Lagoa Rodrigo de Freitas.

 

Em alguns pontos, ar de paraiso, no qual eu pescava quase todas as manhãs, minhocas para cá, lambaris para lá, e só não nadava porque não sabia, e as regras maternas eram severas.

 

Já em outros pontos da mesma Lagoa, para os quais Tom não deu a mesma importância, ocupado com poema e som que era, o ar de inferno das favelas da Praia do Pinto e da Catacumba, percebidos de longe, de dentro do carro do meu pai, a não ser quando a do Pinto pegou fogo; mal contada tragédia malcheirosa que pouca gente se importou em investigar as causas.

 

O único cheiro dessa orla que venceu o tempo, independente das minhas modestas reminiscências, foi infelizmente o dos períodos de irresponsável mortandade recorrente de peixes, que durou mais do que merecia.

 

Quando vejo alguém lembrar da pouco comentada fruta jambo, que raramente se vê por aqui hoje em dia, eu sei como o vento avisava que estava na hora das mães de todo o quarteirão convocarem a molecada para ir colhê-los no jardim em frente do meu prédio, casarão então abandonado do casal Benzanzone Lage, que por pouco não virou cemitério, cujo matagal já levava bom e sonífero odor todas as noites, chovendo ou não,  incenso incomparável, que loja esotérica alguma reproduz.

 

Os cheiros de chuva chegando, ali conseguiam fazer as paredes das casas tremer com especial eloquência. Se trovões chegassem, as paredes já tinham sido previamente sacudidas: sinfonia de essências, forte fortíssimo, que a Lagoa e o Jardim compunham juntos, alquimia odorífica que acelerava meu coração.

 

Pânico fedorento das recorrentes enchentes no bairro.

 

Felizmente o jardim se tornou o nosso Parque Lage, hoje com bem menos jambos e jacas; como delas eu não gostava, foi o suficiente para que só um perfume fosse desenhado no cérebro e no inconsciente.

 

Escolhas singulares há, imersas no mistério das afinidades.

 

No período junino a rua permanecia com cheiro de fogos e fogueira ininterruptamente; um dia perfumado emendava no outro.

 

Que não se tente dizer “que em nada difere dos períodos juninos de hoje”.


O volume de automóveis e bondes, mesmo somado ao dos lotações, não competia com perfumes como aquele, pontual.


A mesma ausência de competição permitia que o carnaval imprimisse, sem malícia alguma, a lança-perfume no ar por três  dias (ou mais) sem parar, onde quer que se fosse.
Para meu cérebro e inconsciente as bebidas alcoólicas, também abundantes, equivaleram às jacas do jardim no período momesco...
Sim; é a gente que desenha, e nós, enigmas, sempre selecionamos desenhos  e permanências.


Sempre que passo perto da Hípica e do Jóquei hoje em dia me assombro com a assepsia; onde estão os cheiros equinos que estavam aqui, já que os cavalos continuam lá? A tecnologia comeu?...


Não gosto de assepsia...


...Ou apenas amo os cavalos, sagitarianamente?...


De toda essa história olfativa de uma “zona-sul-cidade-do-interior” de poucos anos atrás, impressa num nariz infanto-juvenil, compondo o retrato de um purgatório da beleza e do caos em gestação, um capítulo se mantém particularmente curioso, e há quem duvide, achando que eu e meu nariz queremos fazer graça.
Só que não.
 

Em plena Rua Jardim Botânico, perto da Rua Maria Angélica, havia uma quase-vila-quase-cortiço, onde eu ia com a minha mãe comprar leite.


E daí? Grande aventura ir buscar leite!


Sim, nada de mais, se não estivéssemos na tal da chique-zona-sul-do-Rio-de-Janeiro, se não estivéssemos entre os “modernérrimos” anos 50 e 60, e se o leite não viesse...diretamente da vaca!
Nunca me perguntei como foi que a vaca foi parar lá, nem como ela era mantida.

 
Não consegui saber para onde foi quando sumiu.


Especialmente sedutores os cheiros dela.


Bom era o cheiro daquele leite quentinho e forte que ia para o vidro bonito (eu achava) que minha mãe mantinha bem cuidado, e que, uma vez conquistado, mantinha ares de elixir, de poção mágica, de alimento ritualístico com grandes poderes secretos.
E a grande aventura incluía o fato daquele leite ter-saído-da-vaca-que-eu-via-e-tocava, gigantesca para o meu tamanho, bela e morna representante da Natureza e da generosidade, muito mais perto de mim, ao meu alcance,  que todos os animais do Jardim Zoológico juntos.


Ela Deusa, eu e minha mãe – no mínimo – sacerdotizas cumprindo caminhos e ritos iniciáticos.


Sim, outros animais eram, à sua maneira, familiares.
Já que das mariposas e morcegos do Jardim que invadiam salas e quartos eu tinha pavor, e as minhocas e os lambaris da Lagoa eram pequenos, gosmentos e escorregadios (embora simpáticos), e nenhum deles tinha um presente-sortilégio para me dar, ficavam todos insignificantes perto dela, de seu tamanho, sua cinestesia, suas divinas tetas, sua doação de potente néctar-talismã...


Aquele perfume competiu com frágeis concorrentes da época: os cheiros do amendoim torradinho, vermelho, salgadinho e oleoso, da “falecida” Sloper Botafogo, o do cachorro-quente de uma rede de lojas ainda existente de quem não vou fazer reclame (e que aboliu há muito tempo sua lanchonete), e o do ôvo frito colhido direto do galinheiro da minha avó, e feito em fogão de lenha que minha própria avó cortava com o machado (cena impressionante), exemplo esse que “não vale”, porque era vivido em Juiz de Fora...


Mas o merecido campeão das fragrâncias e de permanências no Tempo, no Espaço, na Responsabilidade, foi o cheiro-de-livro.
Esse aroma foi o que me deu o devido “bem-vinda-ao-mundo-real”.
Dizem que o cheiro dos livros novos costumam continuar a levar seus amantes à loucura.


Há quem prefira livrarias a perfumarias. Eu também.


Eu me apresentei a eles, e vice-e-versa entre os 4 e os 5 anos.
Eram eles que me botavam para dormir, e que conversavam comigo boa parte do dia. Santos-de-casa que, devido a essa condição, chegaram sem alarde inicial.


Como dormi em cima de muitos, estavam comigo noite e dia. Esses, com os quais brinquei e conversei durante o dia, e em cima dos quais até dormi ninada por eles, ainda estão aqui comigo.
Invejável biblioteca infanto-juvenil que ninguém mete o nariz, aviso.


Um dia compreendi que santo-de-casa faz milagre, sim.
Eles superaram e venceram a profícua (em seu momento) pantomima ritualística da vaca da vila-cortiço que – generosamente como as fadas, sem dar a menor pelota para mim – sumiu e virou lenda, o que está de bom tamanho para minha memória.
Leais e fiéis, continuam aqui comigo até hoje, livros tão cheirosos, nos sentidos real e figurado.


Livros-inodoros-numa-tela? Não, obrigada!


Os de papel exibem o melhor cheiro de todos, que resiste bravamente e triunfa, sem precisar da virtualidade intransferível cerebral-emocional, para a sorte de todos nós, amantes da Educação, do Pensamento, da Cultura, da Arte, já que continuam existindo e desafiando os nazifascistas fundamentalistas, sempre de plantão, que adorariam queimá-los.


Os livros triunfam com seu próprio aroma, sua própria cinestesia, sua própria divindade, suas próprias tetas de papel e ideias, seu próprio poder de doação, a benzedura de seu próprio condão de potente néctar, sua própria eterna e sedutora Capacidade de Assombro.



09 outubro 2017

 

Christina Montenegro é psicóloga e Supervisora em Psicologia Clínica / Bacharel em Artes Cênicas / Especialista em: Sociologia Política e Cultura, em Psicologia Clínica, e em Psicopedagogia. e-mail : montenegro.cristina@gmail.com

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Março de 2018


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Março de 2018:

Henrique Prior, Alberto Lins Caldas, Angela Maria Zanirato Salomão, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Christina Montenegro, Danyel Guerra, Demétrio Panarotto, Eduardo Rennó, Elisa Scarpa, Ernesto Moamba, Eunice Boreal, Fabián Soberón ; Rolando Revagliatti, Fernando Andrade, Gustavo Silveira Ribeiro, Henrique Dória, Jorge Bateira, José Antonio Abreu de Oliveira, Leila Miccolis, Leonardo Almeida Filho, Luis Bacigalupo, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Adifa, Marinho Lopes, Miguel Curado, Moisés Cárdenas, Ricardo de Moura Faria, Ricardo Ramos Filho, Ronaldo Cagiano, Rosa Enríquez, Salomão Sousa, Tadeu Sarmento, Taise Dourado, Tânia du Bois, Thiago Scarlata, Yuliana Ortiz Ruano


Foto de capa:

O Semeador - Millet - 1850 ; O Semeador - Van Gogh - 1881


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR