ANO 4 Edição 66 - Março 2018 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Apontamentos para uma leitura de “Clave de Sol- Chave de Sombra”. Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira de Teresa Martins Marques

A ensaísta Teresa Martins Marques num trabalho de mais de 800 páginas escreve brilhantemente sobre David Mourão Ferreira que conheceu pessoalmente e acabou por ficar na qualidade de especialista do vasto espólio do escritor.

 

A autora foi aluna de David na Faculdade de Letras de Lisboa. O título desta obra remete para o poema de David “In Memoriam Memoriae” onde se fala da duplicidade Sol /Sombra que é afinal fundamental para percepcionar  a condição humana.

 

A autora referencia a crise do Sujeito entre o apolíneo e o dionisíaco, a finitude também.

 

Com uma minúcia muito aprofundada aqui se revela a vida de David desde que nasce até à morte. Com o acesso ao vasto acervo epistolar, encontramos um autor múltiplo.

 

Um momento importante na biografia poética de David é a revista Távola Redonda, dos anos 50, a passagem pelos textos de teatro, etc.

 

A primeira grande entrevista que concede é ao Diário Popular em 6 de Janeiro de 1954 após ter recebido o Prémio Delfim Guimarães com Agustina Bessa- Luís.

 

A colaboração de David na televisão portuguesa desde 1957 torna-o conhecido de um público mais vasto.

 

Com o 25 de Abril de 1974, foi secretário de Estado da Cultura entre 1976 e 1979.

 

A temática do feminino em David é representada também ela por uma dualidade de anjo e decepção amorosa. Teresa Martins Marques envolve a teorização de Eugénio Lisboa quando este se debruça sobre claridade/obscuridade no livro de estreia de David A Secreta Viagem.

 

Citando a autora do livro Teresa Martins Marques:

 

“ Se pensarmos na prosa davidiana, a questão do vínculo amoroso complexifica-se pois que a obra davidiana identifica se com o princípio do terceiro incluído, fórmula de um amor feliz, enunciada pela narratária do romance do mesmo nome (…) Na realidade, o que está implícito no discurso da narratária é que, para manter o casamento, é preciso procurar fora dele a chispa que faça vibrar, para que a relação intra muros se torne aceitável, suportável, e não seja posta em causa pela relação extra muros” (p. 441).

 

A paixão no casamento não é possível, referencia a autora do livro e nós concordamos.

 

A dualidade da Mulher enquanto anjo ou demónio é algo a que o sujeito poético pretende ultrapassar. Também a melancolia perpassa a obra de David.

 

Falamos agora da obra Um Amor Feliz de David. Voltamos à autora do ensaio:

 

Um Amor Feliz é um romance escrito como um sistema de álgebra amorosa, desenvolvido em várias incógnitas (X,Y e Z), uma dela variável dependente e as restantes variáveis independentes, todas elas em função de Fernão” (p. 617).

 

Teresa Martins Marques trabalhou um espólio de 10.000 recortes de jornais e uma extensa correspondência. Esta ensaísta elaborou o Plano de Organização do Espólio de David Mourão-Ferreira.

 

O longo ensaio contém uma excelente Cronologia e uma Bibliografia completíssima.

 

A autora diz que é sob o signo de Ulisses que percorre as dez etapas do livro que elaborou. Partiu da Lapa e foi ao encontro das raízes alentejanas. Também o mito de Tristão e Isolda. Ou o Hades da inquietação.

 

O título do livro prende se, como dissemos, com um poema de David em que se distingue a clave de sol da chave da sombra. Ou como nos lembra Teresa Martins Marques: “ A memória é remorso, e só o esquecimento iliba, mas iliba para Nada. Condição de remorso ( a terrível Testemunha ), é punição na dialéctica do crime e castigo. Matando a memória, o sujeito salva-se pela condenação ao Nada (p.34).

 

Um ensaio primordial sobre a figura incontornável de David Mourão- Ferreira. Para nunca esquecer David.

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2018


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