ANO 4 Edição 65 - Fevereiro 2018 INÍCIO contactos

Alexandre Brandão


Outras lições

Não vamos à escola para aprender a beijar, mas, quase sempre, é na escola que aprendemos. Não na sala de aula, pelo menos não durante a aula, mas, na hora do recreio, na saída do colégio, nos momentos de descuido das autoridades ou do próprio juízo, o primeiro beijo estala —  de imediato, torna-se um vício.


A marchinha de carnaval induz as pessoas ao beijo, outra lição sem livro ou professor. Não sem motivo, Zé Keti e Pereira Matos escreveram “Máscara negra”1 , que diz: “Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval.” Quem já esteve num salão sabe que, quando a música toca, os casais deixam a dança de lado e cuidam da boca, e não só dela, o beijo exige muito das mãos. O importante é que a pista de dança sacode menos e suspira mais com a bandinha mandando o recado aos namorados. Pais ciosos da própria imagem chutam a aparência para longe e agarram a esposa com furor meio esquecido. Mães que não acham nada bonito ficar trocando bicotas em público mandam o pudor para as cucuias e se entregam.


O samba, primo meio erudito da marchinha, enquanto passa na avenida ou toca no rádio, na vitrola ou nas nuvens, joga copos de cerveja nas mãos de quem está por perto. Em seguida, tira homens e mulheres da cadeira e, do mais talentoso ao totalmente sem ritmo, põe todos para dançar. Efeito colateral, o racismo encoberto do Brasil cai por terra e, aí sim, nos tornamos por um lapso de tempo a maior democracia racial do mundo. Mal acaba o samba, em vez de refletir sobre o que se viveu, damos as costas à lição e saímos por aí bisando a nossa falsa igualdade. Ou seja, não se pode fiar apenas no que se aprende sem livros, mas cadê as escolas? Cadê as famílias? Ah, estão todas pensando nos limites do abc e na moral e nos bons costumes (que não praticam).
Apesar de o samba e a marchinha estarem associados a alegria, a tristeza tem seu lugar. Vinícius de Moraes, em “Samba da bênção”2 , parceria com Baden Powell, canta: “pra fazer um samba com beleza / é preciso um bocado de tristeza”. A esse respeito, veio de Caetano Veloso, em “Desde que o samba é samba”3 , o veredito definitivo: “a tristeza é senhora / desde que o samba é samba é assim”, que ele completa: “o samba é o pai do prazer / o samba é o filho da dor”. Não podemos perder de vista que o samba é, mas também não é, folia e contentamento.


Em “Feitio de oração”4 , Noel Rosa assegurou que “batuque é um privilégio / ninguém aprende samba no colégio”. Mas vá lá que, durante o recreio, na saída da escola, no descuido das autoridades, alguém puxe um cavaquinho e um pandeiro. Pronto, portas abertas para aprender samba no colégio.

Notas

1  Para ouvir, entre aqui: https://www.youtube.com/watch?v=OnssYRSFUo0.

2  Para ouvir, entre aqui: https://www.youtube.com/watch?v=KEAxP_B2wcM.

3  Para ouvir, entre aqui: https://www.youtube.com/watch?v=MB-iGuBVclo.

4  Para ouvir, entre aqui: https://www.youtube.com/watch?v=qsa3V-VppK0.

 

Alexandre Brandão, contista e cronista brasileiro, é autor de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio), entre outros. Mantém o blog No Osso (noosso.blogspot.com.br).

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2018


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