ANO 4 Edição 65 - Fevereiro 2018 INÍCIO contactos

Beatriz Regina Guimarães Barboza


As faces da morte grega e suméria: a negação da imortalidade para Gilgamesh e Orfeu

“Por causa do meu irmão, tenho medo da morte; por causa do meu irmão, vagueio pelas matas e pelos campos. Seu destino pesa sobre mim. Como posso descansar, como posso ficar em paz? Ele virou pó e também eu vou morrer e ser enterrado para sempre. Tenho medo da morte; por isso, Urshanabi, mostre-me o caminho para chegar até Utnapishtim. Se for possível, atravessarei as águas da morte, se não for, vagarei por regiões ainda mais desoladas."1 

 

A fala da Gilgamesh, rei de Uruk na antiga epopeia suméria, reproduz o começo de sua morte. A vida, até então despreocupada em relação a problemas graves, passa pela tristeza da perda de Enkidu, praticamente irmão e amado, que é sucedida pela tensão da iminência da própria morte, pois, a partir do momento que ela é encarada realmente, torna-se uma preocupação constante. Entretanto, esse obstáculo configura o desafio que dá sentido ao percurso da vida de Gilgamesh: buscar a imortalidade.

 

         O objetivo é falho em si, pois a eternidade material não cabe aos humanos. Não levando em consideração a crença e existência numa vida após a morte ou na possibilidade de reencarnações, uma existência individual em um corpo específico precisa encontrar o seu fim biológico, pois essa é a condição humana. Gilgamesh consegue chegar a Utnapishtim, o Longínquo, após seu longo percurso, e obtém a resposta indesejada:

 

“’Oh, pai Utnapishtim, tu que te juntas-te à assembléia dos deuses, desejo fazer-te algumas perguntas sobre os vivos e os mortos: como encontrar a vida que estou buscando?’

 

Utnapishtim disse: ‘Não existe permanência. Acaso construímos uma casa para que fique de pé para sempre, ou selamos um contrato para que valha por toda a eternidade? Acaso os irmãos que dividem uma herança esperam mantê-la eternamente, ou o período de cheia do rio dura para sempre? Somente a ninfa da libélula despe-se da larva e vê o sol em toda a sua glória. Desde os dias antigos, não existe permanência.’”2 

 

Só que isso não importa num primeiro momento, pois Gilgamesh precisa de algo em que acredite e que o conduza através de dificuldades, mas que, talvez de forma inconsciente, saiba ser impossível, o que faz com que ele perca as chances de conquistar a vida imortal propositadamente. Após falhar no teste de manter-se acordado por seis dias e sete noites, feito por Utnapishtim, Gilgamesh se encaminha derrotado, mas a esposa do Longínquo intercede e faz com que o marido conceda uma última chance:

 

“’Gilgamesh, chegaste aqui exausto, e te extenuaste; o que darei a ti para levares de volta a teu país? Gilgamesh, eu te revelarei um segredo, é um mistério dos deuses que estou te revelando. Existe uma planta que cresce sob as águas; ela tem um espinho que espeta como o de uma rosa. Ela vai ferir tuas mãos, mas, se conseguires pegá-la, terás então em teu poder aquilo que restaura ao homem sua juventude perdida.’”3 

 

     E é aqui que temos a maior prova do reconhecimento da mortalidade. Se Gilgamesh não venceu o teste do sono porque não tinha condições físicas para tanto, o que é justificável, seu próximo e último erro beira a estupidez, de forma que não pode ser atribuído ao acaso ou a uma falha com razões, mas numa intencionalidade que não quer se fazer consciente de si para evitar censuras graves que lhe impeçam a aceitação do que houve, de forma que possa alcançar a superação para continuar a vida.

 

     Pois, assim ocorre: após chegar ao canal onde a planta indicada por Utnapishtim estava, recolhê-la do fundo das águas, batizá-la de "Os Velhos Voltaram A Ser Jovens" e começar o caminho de volta,

 

"Gilgamesh encontrou um poço de água fresca e entrou nele para se banhar; mas nas profundezas do poço havia uma serpente, e a serpente sentiu o doce cheiro que emanava da flor. Ela saiu da água e a arrebatou; e imediatamente trocou de pele e voltou para o fundo do poço. Gilgamesh então sentou-se e chorou. As lágrimas corriam por seu rosto e ele tomou a mão de Urshanabi: ‘Oh, Urshanabi, foi para isso que esfalfei minhas mãos? Foi para isto que arranquei sangue de meu coração? Nada obtive para mim, nada; mas a fera do poço agora usufrui do meu esforço. A corrente já arrastou a planta por vinte léguas, levando-a de volta aos canais onde a encontrei. Eu encontrei algo prodigioso e agora o perdi. Deixemos o barco nesta margem e vamos embora."4 

 

A perda da planta era evitável, pois ele poderia tê-la comido assim que a colheu ou tomado mais cuidado, mas essa falha faz parte de todo o processo de convencimento de que a imortalidade não cabe à humanidade, fato que ele não poderia simplesmente aceitar sem uma busca que o motivasse a preencher o período de sua vida e comprovasse na prática o que na teoria já se sabia. No fundo, foi justamente essa busca que agregou significado à sua existência e esse sentido, em si, é o que há para conquistar e perder através de sua própria morte, assim como Orfeu, que, na busca de sua finada esposa Eurídice pelo Hades, conquistou-a de volta para então perdê-la, pois o lugar dos mortos não é entre os vivos, sendo que isso deu a Orfeu a substância para seu canto e

 

“(...) somente no canto Orfeu tem poder sobre Eurídice, mas, também no canto, Eurídice já está perdida e o próprio Orfeu é o Orfeu disperso, o ‘infinitamente morto’ que a força do canto faz dele, desde agora. Ele perde Eurídice e perde-se a si mesmo, mas esse desejo e Eurídice perdida e Orfeu disperso são necessários ao canto, tal como é necessária à obra a prova da ociosidade eterna.”5 

 

         O canto é tudo que lhe resta, sendo que a arte é o fruto da perda de Eurídice naquilo que deveria ser seu resgate, assim como a morte memorável de Gilgamesh é o que lhe sobra após ter a planta comida pela serpente – imagem de morte inconteste no mito grego e na epopeia suméria. A vida é possibilidade porque há a morte, a arte existe porque algo foi perdido, os caminhos são feitos porque as imperfeiçõs são o que impedem a plenitude e o esvaziamento de tudo que existe, os ciclos assim são mantidos. A esses personagens, parece ser preferível uma perda infeliz que preencha uma vida a uma felicidade que a esgote de sentido.

 

Orfeu canta sobre Eurídice porque ele foi negligente. Filho da Musa Calíope e tendo em mãos a fórminx feita por Hermes e concedida por Apolo, Orfeu consegue transpôr Caronte, Cérbero e enternecer Hades devido à sua sublime habilidade musical e poética, adentrando reino onde nenhum mortal poderia pisar e sair com vida, mas não foi capaz de conter seu olhar e acabou por condenar Eurídice de uma vez por todas, pois 

 

Orfeo vinse l’Inferno, e vinto poi  Orfeu venceu o Inferno, mas foi 
fu dagl’affetii suoi:       logo vencido pelos seus próprios afetos:


degno d’eterna gloria           digno de glória eterna seja só aquele


fia sol colui ch’avrà di sé vittoria.6    que a vitória obtém sobre si mesmo.7 

 

Assim como Gilgamesh, Orfeu perde a possibilidade de vencer a mortalidade pelo descuido, pela despreocupação que trai a si mesmo ao frustrar a busca daquilo que se propôs alcançar, sendo que “o olhar para trás é explicado somente pela impaciência, pela imprudência, pela violência da paixão, e Eurídice desaparece sem um grito”8 . Na epopeia suméria, a vida amada para qual se busca imortalidade é a própria existência de Gilgamesh e sua recompensa foi ter aquilo que era seu destino: ser o rei de Uruk pelo tempo de uma vida.

 

         Para ambos, agir de acordo com os próprios sentimentos e impulsos em prol de algo que não podem atingir é sua raison d'être, baseada na ignorância da impossibilidade de conquistar aquilo que se propõem, pois somente um convencimento legítimo do sucesso de uma mentira – vista como verdade — daria a convicção própria ao ânimo que move as ações humanas. Pouco adianta Utnapishtim precaver Gilgamesh sobre a efemeridade mundana, muito menos as palavras de Caronte, a ferocidade de Cérbero e a postura de um deus como Hades, uma vez que:

 

Folly, thou conquerest, and I must yield!
Against stupidity the very gods
Themselves contend in vain. Exalted reason,
Resplendent daughter of the head divine,
Wise foundress of the system of the world,
Guide of the stars, who art thou then if thou,
Bound to the tail of folly's uncurbed steed,
Must, vainly shrieking with the drunken crowd,
Eyes open, plunge down headlong in the abyss.
Accursed, who striveth after noble ends,
And with deliberate wisdom forms his plans!
To the fool-king belongs the world.9 

 

O mundo é dos tolos e não há deus ou entidade imortal que possa fazer cessar a estupidez humana, pois dentro de ilusões eles se conduzem para seu fim, convencidos de que estão justificando suas vidas. Para tanto, nesse estádio de mentalidade, são indispensáveis os defeitos, as imperfeições de caráter, pois elas mantêm os indivíduos dentro do ciclo de erros que perpetuam a contínua derrota frente a uma noção de imortalidade. É a crença numa mentira que coloca a existência humana num estado de proteção, pois ela manter-se-á, uma vez que a mentira, por sua falta de pretensão ao absoluto, não se coloca em questionamento até que as últimas consequências — como a morte ou as pequenas crises internas diárias — aproximem-se, embora seja um apoio fadado à decadência.

 

Orfeu poderia ter desistido da ideia de procurar Eurídice quando a encontrou morta e Gilgamesh poderia não ter pensado na própria morte quando perdeu Enkidu, mas esse desapego não os teria movido em direção à derrota que era necessária ao seu processo de aprendizado dos limites na experiência terrena. Assim, a humanidade experimenta essa sensação ao longo dos tempos, de acordo com as sugestões e formas de cada época, sempre na busca de uma forma de encarar a morte.

 

Ensaio escrito em 2013, primeiro ano de graduação em Estudos Literários.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1  ANÔNIMO. A Epopéia de Gilgamesh. Trad. De Carlos Daudt de Oliveira. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1991,  p. 143
2  Idem,  p. 147.
3  Idem,  p. 159-160.
4  Idem, p. 160-161.
5  BLANCHOT, Maurice. “O olhar de Orfeu”, in O espaço literário (1955), trad. Álvaro Cabral, Rio de Janeiro: Rocco, 1987, p. 173.
6  STRIGGIO, Alessandro. Monteverdi: Orfeo. Trad. Mariana Portas. São Paulo: Moderna, 2011, p. 39.
7  Idem.
8  BRUNEL, Pierre. “As vocações de Orfeu”, in: BRICOUT, Bernadette (org.), O olhar de Orfeu. Os mitos literários do Ocidente, trad. Lelita Oliveira Benoit, São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 55.
9  SCHILLER, Friedrich. The Maid of Orleans. Disponível em: <http://www.gutenberg.org/files/6792/6792-h/6792-h.htm>. Acesso em 03 de junho de 2013, às 15h17.

 

Beatriz Regina Guimarães Barboza (Campinas, 1994) é mestranda em Estudos da Tradução na UFSC e Bacharela em Estudos Literários na UNICAMP, atua como revisora, tradutora e escritora de poesia ("Quartos Esvaziados", 2015, ed. Urutau; "Entre rios", 2017, ed. Kazuá; "sentido insular", no prelo, ed. Urutau) e contos. É uma das editoras da revista Arcana e do projeto Pontes Outras. Atualmente, está a traduzir Anne Sexton (inglês), e, em parceria, Maria-Mercè Marçal (catalão) e Francisca Aguirre (castelhano).

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