ANO 4 Edição 65 - Fevereiro 2018 INÍCIO contactos

Denise Bottmann


Um breve apontamento intertextual

Os diálogos entre textos ou, talvez melhor dizendo, as conversas de mão única entre diferentes textos e autores constituem, provavelmente, a sede mais rica e mais bem abastecida de experiências, o locus por excelência da vida autoral.


Nem sempre, porém, ficam claros à leitura os elementos tratados nessas conversas de mão única – digamos “monólogos”, para simplificar – de um texto a outro. Um exemplo que me é caríssimo é a relação que Edgar Allan Poe travou com Henry David Thoreau, adotando e desdobrando amplamente uma figuração metafísica deste último. Vejamos.

 

I.


Thoreau, numa entrada em seu diário em agosto de 1838, havia escrito uma nota chamada “The Time of Universe”. Ali dizia ele:

 

THE TIME OF THE UNIVERSE


Aug. 10. Nor can all the vanities that so vex the world alter one whit the measure that night has chosen, but ever it must be short particular metre. The human soul is a silent harp in God's quire, whose strings need only to be swept by the divine breath to chime in with the harmonies of creation. Every pulse-beat is in exact time with the cricket's chant, and the tickings of the deathwatch in the wall. Alternate with these if you can.

 

Em seu “The Natural History of Massachusetts”, longo artigo que saiu anônimo no periódico transcendentalista The Dial em 1842, Thoreau utilizou sua nota acima, enxugando-a para:

 

Nor can all the vanities that vex the world alter one whit the measure that night has chosen. Every pulse-beat is in exact time with the cricket's chant, and the tickings of the deathwatch in the wall. Alternate with these if you can.

 

Embora o termo se aplicasse outrora a vários coleópteros, o deathwatch designa mais particularmente o Xestobium rufovillosum, um pequeno coleóptero da família dos carunchos, apreciador especialmente de madeira de carvalho, já meio umedecida ou embolorada, seja na mata ou em velhas casas de madeira. Ele emite um som regular, que faz lembrar o tique-taque de um relógio, e, geralmente estando dentro da madeira, fica oculto ao olho humano. Por superstição popular, esse som ficou associado a um presságio sinistro, prenunciando a morte – e daí o nome do inseto, deathwatch, "relógio da morte" (aliás, em francês o bichinho, la grosse vrillette, também tem o nome de horloge de la mort.) Paralelamente, vale lembrar que deathwatch significa também a vigília de um moribundo ou ainda o velório de um morto.


Já a analogia literária ou de fundo romântico-transcendental de Thoreau entre o cricrilar do grilo, o tiquetaquear do caruncho e o bater do coração, esta sim, era, ao que consta, inteiramente original.

 

Assim, aguçada minha curiosidade pelo breve artigo de E. Arthur Robinson a tal respeito,1  pareceu-me extremamente sugestivo e até esclarecedor reler em The Tell-Tale Heart (1843), de Edgar Allan Poe, a passagem:

 

He was still sitting up in the bed, listening; just as I have done night after night hearkening to the deathwatches in the wall.

 

Como se sabe, "O coração revelador" (ou denunciador, ou delator, variam as traduções) descreve, a partir de certa altura da narrativa, a alucinação crescente de um assassino que sente latejar em seus ouvidos um som cada vez mais alto e pulsante, que por fim julga ser o coração do velho que havia esquartejado.


         A situação inteira é muito interessante: oito longas noites de silenciosa e sinistra vigília, à espera da ocasião propícia para liquidar a vítima. O assassino no escuro, sozinho, o velho dormindo, imagina-se o vazio sonoro em que qualquer mínimo ruído repercutiria muito. Digno de atenção o verbo hearkening: não apenas ouvindo casualmente, mas escutando com muita atenção. Basta pensar: oito longas noites de profundo silêncio, ouvindo com atenção obsessiva os prenúncios de morte, os deathwatches in the wall! A psique como que esvaziada após se dissolver a tremenda tensão acumulada até o momento do assassinato; os carunchos que, imagina-se, continuam a tiquetaquear na madeira, mesmo tendo o assassino se esquecido da existência deles; a sensação de um terrível aumento do espaço interno de sua cabeça; a pulsação rítmica se avolumando na tremenda caixa de ressonância em que se transformou a mente do protagonista, finda sua vigília de morte; quase como consequência de férrea lógica alucinatória, surge a projeção final do som do caruncho fatídico para a pulsação do coração do morto.


         E ainda mais interessante é constatar esse vínculo entre uma referência muito concreta – o som no interior da parede – e o enlouquecimento progressivo do protagonista. Isso, a meu ver, enriquece, dá uma densidade bem maior ao processo psicológico do personagem do que se se alimentasse apenas de sua ansiedade mental, desligada de qualquer elemento exterior tangível.


Depois de reler o conto à luz da conexão entre Thoreau, com sua analogia metafísica entre o tiquear do caruncho e o bater do coração, e Poe, com sua transposição alucinatória do tiquear dos carunchos na parede para o bater do coração do morto, sinto-me razoavelmente persuadida de que o elemento central do conto The Tell-Tale Heart é mesmo o deathwatch, que dá a chave para entendermos o desenvolvimento do processo mental do protagonista. Se o entrelaçamento dos sentidos na mesma expressão – o bichinho em si, o som que prenuncia a morte, a espera marcada pelo tiquetaquear desse relógio-da-morte, a vigília ao lado do moribundo, a vigília para infligir a morte – já leva a um grau não negligenciável de espessura literária, ao acrescentarmos a ele a ligação tácita (mas tão convincente, praticamente inegável depois de a conhecermos!) com o pulse-beat, a batida do coração de Thoreau, a interligação dos elementos da narrativa lhe confere qualidade adicional.


Ainda a essa luz, outros detalhes adquirem interesse renovado: o som que o velho ouve após despertar; sua esperança de que o som pressago seja apenas um cricrilar, as outras menções a relógios. E se considerarmos que, tradicionalmente, o grilo é sinal de boa sorte, simétrico inverso dos maus presságios do deathwatch, aliás também mencionado por Thoreau em sua tríade cósmica do tempo universal – relembremos: Every pulse-beat is in exact time with the cricket's chant, and the tickings of the deathwatch in the wall –, a própria esperança do velho de que aquele som fosse um cricrilar encontra seu lugar dentro de um arcabouço de muito maior consistência.

 

II


Assim, foi um pouco decepcionante constatar que as traduções brasileiras mais conhecidas de The Tell-Tale Heart simplesmente desconsideram ou francamente erram ao traduzir o trecho que descreve o protagonista no ato de “hearkening to the deathwatches in the wall”. Temos:

 

•        Oscar Mendes e Milton Amado: ouvindo a ronda da morte próxima
•        José Paulo Paes: espreitando o relógio na parede
•        Clarice Lispector (adaptação): omitido

Fabiano Bruno Gonçalves, em sua dissertação "Tradução, interpretação e recepção literária: manifestações de Edgar Allan Poe no Brasil" (UFRGS, 2006), debruça-se precisamente sobre este conto e comenta, entre outras coisas, a dificuldade de traduzir satisfatoriamente death-watch. Além dos que citei acima, Gonçalves apresenta mais cinco exemplos:

 

•        Januário Leite: escutando os ralos da parede 
•        Annunziata de Filippis: escutando os pássaros da morte esvoaçando ameaçadores
•        Márcia Pedreira: ouvindo a morte rondar ali por perto2 
•        Luísa Lobo: ouvindo a ronda da morte próxima3 
•        Paulo Schiller: espreitando os relógios da morte na parede

 

Aqui friso novamente: não se trata apenas do uso de um termo polissêmico como deathwatch, sem dúvida de difícil tratamento numa tradução4 .  Trata-se ainda mais da conexão propriamente literária, interior à narrativa, entre o som produzido pelo inseto, com todas as suas conotações pressagas, e a batida do coração, conexão esta que funciona como ponte entre o mundo concreto sensível e o fenômeno psíquico que resulta no colapso mental do protagonista.


É uma pena que, já praticamente perdida a densidade semântica de deathwatch nas referidas traduções, perca-se também a possibilidade de acompanhar na narrativa o funcionamento desse sutil mecanismo de projeção e transposição entre os sons de máxima carga simbólica: o som da morte e o som da vida, como sugeria Thoreau.

 

____________­___________­­­­

1 Trata-se de seu artigo "Thoreau and the Deathwatch in Poe’s 'The Tell-Tale Heart'”, disponível em https://www.eapoe.org/pstudies/ps1970/p1971105.htm

2 Intelectual lisboeta temporariamente exilado no Brasil, Januário Leite era integrante do grupo "Renascença Portuguesa" e colaborador do órgão A Águia, ao lado de Álvaro Pinto. Fabiano Bruno Gonçalves, autor da dissertação citada, porém, apresenta-o equivocadamente como autor de "uma das versões brasileiras mais antigas do conto". Aliás, suas origens lusitanas é que explicam sua opção por "ralos" nessa acepção pouco conhecida no Brasil.

3 Note-se a identidade com a solução de Mendes / Amado.

4 Após a elaboração desse breve apontamento, saiu uma nova tradução te The Tell-Tale Heart, por Eliane Fittipaldi e Kátia Orberg. A solução adotada para deathwatch foi “caruncho agourento”, com nota de rodapé expondo a polissemia do termo.

 

Denise Bottmann nasceu em Curitiba em 1954Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR,1981). Mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1985). Doutorado inconcluso em Filosofia (UNICAMP). Tem experiência na área de docência e pesquisa em História e Epistemologia das Ciências Humanas. Atua na área de tradução de obras de literatura e humanidades desde 1984. Atualmente dedica-se a atividades de tradução e pesquisas sobre a história da tradução no Brasil. 

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2018


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