ANO 4 Edição 65 - Fevereiro 2018 INÍCIO contactos

André Balaio


Dois contos

O lado de lá

 

Quitéria olhava a réstia da luz da lua nos cabelos brancos de Felício enquanto tentava acalmar o juízo. Mas de que jeito? As ideias passavam pela porta, embolavam-se nos matos e atravessavam a cerca para o sítio do vizinho. Clementino era amigo do casal há décadas e costumava visitá-los para um pouco de prosa, uma xícara de chá e um pedaço de bolo. Ficou viúvo um ano antes e, desde então, estava muito diferente. Pedia água e a seguia até a cozinha, tocava sua mão fina ao segurar o copo, dizia coisas bonitas como na novela. Uma vez, foi só o marido ir ao banheiro para ele sussurrar, sou louco por você. Ela baixou os olhos. Que doidice, homem, perdeu o tino?

 

Felício alternava leves sibilos a roncos graves e prolongados, uma sinfonia à qual a esposa nunca se acostumou. Quando o sono de Quitéria finalmente chegou, um rosto apareceu na janela, não dava para saber se era homem ou mulher e, embora a fisionomia fosse séria, tinha um ar de escárnio. Ela ergueu a mão trêmula para o estranho e soltou um grito. O marido era uma pedra e não acordou. Quitéria fechou os olhos e rezou Pai Nosso, Ave Maria, Creio em Deus Pai, ergueu a pálpebra do olho esquerdo: a janela estava vazia.

 

No dia anterior, o vizinho tinha acenado da cerca.

 

– Que tal uma visita amanhã às sete? Eu sei que Felício gosta de sair cedo.

 

– Não, Clementino, pelo amor de Deus.

 

– É só para o café e um pouco de conversa, nada mais.

 

O dia raiou sem um cochilo sequer, mas fingiu dormir enquanto o marido se aprontava para levar leite na cooperativa. Quando a porta bateu, ela flutuou pela casa; sobrevoou o sítio e foi até a escadaria do santuário onde ficam Nossa Senhora de Lourdes e Santa Bernad;ete. A mãe de Jesus, linda no vestido branco com um véu azul a cobrir os cabelos, falava com a francesinha numa voz doce: Bernadete, você merece a santidade porque é boa e humilde e nunca desejou mais do que a vida lhe prometeu. A menina santa com as mãos unidas no peito chorava, minha madrinha, minha madrinha. Teve vergonha de interrompê-las mesmo com tantas dúvidas e voou pela serra até a imagem solitária do Cristo ressuscitado que abençoa a cidade, flutuou até ficar em frente à cara de pedra-sabão. Disse ao Pai que sempre tinha sido uma esposa correta mas precisava matar a curiosidade, saber se estava certa todo o tempo. Ele a perdoaria? Jesus abriu um largo sorriso e falou: Quitéria. A boca santa só dizia isso. Quitéria, Quitéria. Ela abriu os olhos. Clementino chamava nos fundos da casa como haviam marcado. Correu para o banheiro, escovou os dentes, penteou os cabelos e passou batom nos lábios secos enquanto se olhava no espelho. O rosto largado ao tempo tinha sulcos profundos, ruas de uma cidade abandonada.

 

Abriu a porta da cozinha e lá estava ele com rosas na mão, a calva ardendo ao sol. O sorriso costurado no rosto fino em segundos se desfiou numa careta, soltou o ramalhete e levou as duas mãos ao peito magro comprimido com força, uma dor torrente alagou o peito e escorreu pelo braço, tão grande que embotou a mente. Clementino caiu e ficou parado, um boneco de pano. Ela entrou em casa correndo e trancou-se no quarto aos soluços. Meu Deus, se Felício chegar agora, o que dirá ao ver o compadre caído na casa dele? Ligou para a emergência, esperou o som da ambulância para poder sair. Explicou ao enfermeiro que o vizinho veio pedir um pouco de sal, talvez fosse hipertenso, quem sabe passou mal por causa disso, a gente nunca espera essas coisas, mas não conhecia ele direito, chegou sem avisar para falar com o marido dela, eram amigos, devia ser cardíaco, o coitado, às vezes os visitava mas nem era tão próximo, será que ia ficar bom? O enfermeiro examinou os olhos, o peito, o pulso. A senhora pode chamar alguém do sítio, a esposa, algum parente?

 

– Ele é viúvo, mora sozinho, tem só uns primos no Recife. O senhor está querendo dizer que...

 

Sim, balançou a cabeça. Pediu ajuda ao motorista e colocaram Clementino na ambulância. Quitéria se abaixou e pegou o buquê, catou pétalas e folhas soltas, botou tudo num saco que foi direto para o lixo. Quando Felício voltou no fim da manhã, ouviu que o vizinho havia sido achado do lado de lá da cerca. O compadre Clemé tinha saúde de ferro, nunca ia ao médico, como isso foi acontecer?

 

No velório havia um bando de mulheres chorosas. O sem vergonha tinha namoradas em Tabira, Brejinho e Afogados da Ingazeira, todas irmanadas às carpideiras oficiais da cidade em um coro desafinado que embalou o salão paroquial. Quitéria resumia-se a um olhar vago, a calma sorvida em grandes xícaras de erva cidreira. Felício conversava com um e outro e encerrava o assunto do mesmo jeito: pra morrer, basta estar vivo.

 

Depois do enterro, só queria deitar a cabeça de chumbo no travesseiro. As horas passaram, viu o dia nascer e o marido se levantar para ir à feira. Ouve um sussurro, Quitéria. Vai à janela. Ninguém. Deve ter sido impressão, está cansada, apenas isso. O sol corria alto e tinha muito o que fazer, foi pintar a cerca e capinar o mato. Na volta, Felício abriu um sorriso, eita mulher trabalhadeira danada. O dia passou feito revoada de arribaçã. Para que pensar nas loucuras da vida se o que vale mesmo é a cerca bonita, as cabrinhas com saúde, o sítio bem cuidado?

 

No começo da noite, os olhos pesavam. Não viu a novela nem mesmo o repórter, caiu na cama e só levantou com o cantar do galo, tomou café e foi passar verniz na mobília velha enquanto Felício saía com espigas de milho para vender na cidade. Da cozinha, ouve a voz, Quitéria. A espinha gela, os lábios tremem. E mais uma vez, Quitéria. Vai até a porta dos fundos e sente um vento quente, parece chama de vela. Quem está aí? Silêncio. Quem é? Ninguém responde. Em silêncio reza um Pai Nosso e abre a porta. Não há gente, sombra, vento ou alma.

 

Como seria se tivesse ido morar na capital para estudar, como a prima Jandira? Decerto estaria levando outra vida sem ter casado com Felício. O pensamento já ia longe na estrada para o Recife quando ouviu a voz. Quitéria. Entrou na cozinha e percebeu uma respiração do lado de fora, alguém com o rosto encostado à porta. Novamente o som rouco: Quitéria. Quem é, meu Deus?

 

– Sou eu, mulher, Clementino. Estou aqui do jeito que a gente combinou.

 

O mundo escureceu. Acordou com um filete de baba no canto esquerdo da boca e Felício lhe passando água no rosto com cara de preocupação e um bafo de cachaça triste. Afastou o marido e levantou. Ele foi tirar um cochilo quando viu que a mulher estava bem. Quitéria ligou para uma amiga e contou o aperreio. Ouviu o conselho de procurar uma senhora que mexia com coisas do além. Era caro mas resolvia.

 

Acordou antes do galo, preparou café e cuscuz com charque e chacoalhou o marido. Felício saboreou o prato com infinitas garfadas enquanto a esposa tamborilava os dedos na mesa. A ração das cabras estava acabando, era preciso comprar mais na cidade ou as bichinhas passariam fome. Felício achou melhor atender – a mulher era ranheta demais – e saiu na velha caminhonete. Às nove, um automóvel parou na frente do sítio e desceu uma senhora alta, gorda, com os cabelos pintados de negro puxados para trás untados com gel e bochechas protuberantes com um sinal que parecia uma verruga no lado esquerdo, o rosto enrugado e lábios pintados de carmim. Usava um vestido branco de musseline que a fazia parecer ainda maior. Chamava-se Berenice mas era conhecida como Dona Bebé. Lia mãos, jogava búzios, dava passes, tirava mau olhado, fazia rezas, realizava benzeduras, praticava a cartomancia. Foi recebida no portão por uma Quitéria sorridente. Ao chegar ao alpendre, para, faz cara de pesar e pergunta quem era o morto. Era o vizinho, Quitéria explica, mas pouco o conhecia, só dava bom dia e boa tarde. Dona Bebé solta uma gargalhada que avermelha o rosto da dona da casa.

 

– Querida, você pode enganar todo mundo mas comigo é diferente. Recebo políticos e gente importante, estou no ramo há muito tempo, pego mentira pelo rabo e dou um nó. Preciso que me fale tudo. Fique tranquila, eu guardo segredo.

 

Contou em voz baixa da vida com Felício, do assanhamento do vizinho, das noites de insônia, da espera, do dia fatal. Dona Bebé pediu para ver o lugar onde ele tinha caído. Tirou um rosário da bolsa, cerrou os olhos e orou em silêncio. Durante a reza, Quitéria achou ter ouvido sussurros, mas a visitante mantinha a boca fechada e uma expressão de dor. Após um breve tempo, relaxou.

 

– Clementino vai sair daqui e deixará a senhora em paz. Mas é preciso colocar uma cruz onde ele morreu. Tem que ser no local exato.

 

Quitéria pegou na gaveta todas as cédulas e entregou à médium na despedida. Juntou duas ripas de madeira, pregos, tinta, martelo e trincha. Trabalhou com afinco. Ao voltar, Felício viu a cruz na mão da esposa. Promessa? Ela coçou a cabeça e disse a primeira coisa que pensou: teve um sonho com Clementino que suplicou que cravasse uma cruz no lugar onde morreu. Como boa cristã, atenderia o pedido. Seguiu com rapidez até a cerca e estacou no terreno do vizinho. O sol ficou mais forte e o céu, mais azul.

 

No outro dia, quando se dirigia ao curral para ordenhar as cabras, passou perto da cerca e observou que a cruz não estava no lugar. Depois de rápida procura, encontrou o objeto cravado no próprio quintal, perto da porta da cozinha. Ficou parada por alguns segundos com um vinco na testa. Foi presepada de algum moleque. Agora imagina se Felício sai naquele momento e vê a cruz ali? Levou o objeto de volta para além da cerca.

 

À noite, sonhou que batiam à porta com insistência. Era Clementino com a mesma roupa do dia fatídico lhe ofertando o buquê. Quando ela se aproximava, as rosas viravam cobras vermelhas que pulavam e rastejavam e subiam pelas pernas para se imiscuir em seu sexo. Acordou arfando, a fronte encharcada.

 

Pensou que deveria manter-se ocupada, cozinhar milho, fazer café, preparar tapioca. Na cozinha, teve um estalo. Abriu a porta e olhou os fundos da casa. A cruz estava ali de novo, silenciosa e ameaçadora. Que homem insistente, meu Deus. Arrancou a cruz e foi devolvê-la ao sítio vizinho. Na manhã seguinte, a mesma coisa, lá estava ela, desafiadora, fincada onde não poderia estar. E no outro dia e no outro e no outro e no resto da vida e em todos os dias Quitéria leva a cruz de volta ao lugar onde jura ter encontrado o corpo. Do lado de lá da cerca.

 

 

Elvis

 

Oséias colocou a bebida no chão e Elvis se aproximou para cheirar o gargalo. Ao encostar o focinho, fez a garrafa girar e rolar pela rampa. O vidro bateu no meio-fio e se espatifou, o restinho de aguardente escorreu pelo canto da rua até o bueiro. Oséias gritou e Elvis correu até a esquina, ficou lá, deitado encolhido, a cabeça apoiada nas patas.

 

– Volte aqui, seu porra.

 

Veio com a cabeça baixa, levou um tapa na cara e ficou quieto, viu a merda que tinha feito. No tempo em que Oséias morava naquela rua teve uma festa no casarão só com bacana chegando de carrão, motorista, repórter. Não pôde assistir, foi expulso da calçada, precisou de abrigo na avenida duas quadras adiante. Agora entrava no palacete, sentia o que os convidados sentiram, admirava as luzes da fonte e os enfeites do jardim, mesmo que a fonte estivesse sem água, imunda, cheia de lodo, e o mato cobrisse o que antes era o jardim.

 

A porta da frente se abriu para um salão enorme que parecia ainda maior por estar vazio. O lustre sujo deve ter refletido a luz em muitas barras de vestido que dançaram no piso de mármore agora preto de fuligem e poeira. Na escada ainda imponente, uma mulher bonita desce para lhe conceder a dança. Ele assobia o Danúbio Azul, ergue Elvis e o segura no dorso para uma valsa limitada pelo curto alcance das patas traseiras. O garçom se aproxima com uma dose de uísque, outro traz comida e ele se farta de canapés, rissoles e camarões. Um senhor grisalho de smoking aparece, deve ser o dono, e pergunta quem ele é. Oséias não pode dizer o nome, é um Silva que só entra numa festa assim para trabalhar, por isso responde sou o embaixador, não, sou o primeiro-ministro. De onde? Lembrou de um velho filme com o rei Arthur que viu no cinema quando ainda morava numa casa e tinha mulher e filhos, havia uma ilha, Avalon, então ele é o primeiro-ministro de Avalon, resposta que deixa o grã-fino boquiaberto e o faz chamar a esposa, querida, lhe apresento o ministro... como é mesmo o seu nome? Oséias Lancelot. E pega uma garrafa com o garçom que bebe no gargalo até o fim.

 

A luz do sol atravessa a ausência das telhas e acerta a cara, arde a vista, queima a pele, assim não dá pra dormir. Levanta e vai para um lugar protegido. Vem, Elvis, grita para o amigo, e forra o chão com pano velho para não se cortar com os cacos de vidro que caem das janelas.

 

Acordou de novo, puta que pariu, agora é um motor ligado. O sol não era mais uma bola amarela, era preta, o barulho lembrou aqueles monstros de filme japonês que invadem a cidade, vão pisando nas casas e derrubando prédios, sim, gostava de cinema quando era mais moço e tinha dinheiro. Por que a bola de ferro bate na coluna?

 

Começou a cair o mundo justamente onde estava deitado, ficou coberto de pedaços de alvenaria no meio do pó de gesso. Tentou se levantar para correr, mas as pernas estavam presas, gritou e saiu um fiapo de voz, falou para o companheiro: sai daí, rapaz. Sai.

 

Elvis girou sem sair do lugar e ganiu ao ver a pedra pegar Oséias, o sangue escorrendo, uma papa vermelha na testa. Ficou tonto, os olhos pesados, vontade de dormir, paredes no chão, telhas despencando, a escada explodindo em pedaços de madeira. A casa virou um imenso entulho, caiu um bloco inteiro sobre Elvis e ele latiu, latiu, era preciso avisar, era preciso.

 

No intervalo para o almoço, os operários ouviram o ladrar insistente e correram para os destroços. Tem um cachorro aí embaixo. Pega a escavadeira, melhor não, pega o carrinho e a pá, cuidado para o bicho não morrer, usa a mão, segura aqui.

Removeram o material amontoado, retiraram os detritos seguindo os ganidos, esperavam salvar o bicho e acharam um homem destroçado. Ainda respirava. Ao lado, um cachorro morto, esmagado.

 

André Balaio, brasileiro, natural do Recife, Pernambuco, é escritor e roteirista de quadrinhos. Desde 2000 edita o site O Recife Assombrado (orecifassombrado.com). Com diversas histórias em quadrinhos publicadas e participações em várias coletâneas literárias, adaptou o livro “Assombrações do Recife Velho” de Gilberto Freyre para quadrinhos pela Global Editora. Venceu o prêmio literário internacional Off Flip 2016 com a história de fantasmas “O lado de lá”. Quebranto, seu primeiro livro de contos, foi finalista dos prêmios literários brasileiros SESC e CEPE em 2017, e será lançado no Brasil em março de 2018 pela Editora Patuá.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2018


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Prior       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Prior, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Fevereiro de 2018:

HENRIQUE PRIOR, Adán Echeverría, Adri Aleixo, Aida Gomes, Alexandre Brandão, Ana Maria Oliveira, André Balaio, Anelito de Oliveira, Beatriz Regina Guimarães Barboza, Caio Junqueira Maciel, Carlos Pessoa Rosa, Cecília Barreira, Denise Bottmann, Eliana Mora, Gonçalo B. de Sousa, Henrique Dória, Hermínio Prates, Isabelle de Oliveira, Kátia Bandeira de Mello-Gerlach, L. Rafael Nolli ; Cássio Amaral, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Bachiega, Marco de Menezes, Mariana Outeiro da Silveira, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ngonguita Diogo, Nilo da Silva Lima, Patrícia Porto, Patrícia Porto, Ricardo Marques, Ricardo Ramos Filho, Simone Teodoro, Susana Romano Sued, Tereza Duzai, Thiago Cervan, Viviane de Santana Paulo


Foto de capa:

Candido Portinari


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR