ANO 4 Edição 65 - Fevereiro 2018 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


A mãe dos bons concelhos

Na ladainha à Virgem, há, entre vários vocativos rutilantes,  o da “Mãe do Bom Conselho” – que se aplica, creio, a todas as mães. Em Portugal, me divirto com outro tipo de ladainha: a dos lusos concelhos. Não vou explicar a complexa estrutura administrativa portuguesa, com seus distritos, concelhos, freguesias. Basta, por agora, relacionar concelho a município. Não citarei todos concelhos, de nomes aparentemente normais, como Porto, Braga ou Lisboa.  Mencionarei, nesta ladainha, somente alguns, a dar Coimbra na língua, com seus nomes que me instigam.  Também não citarei freguesias, como as simpáticas Vila Pouca da Beira ou Cativelos.


Seria Almada a mais amada? Alvaiázere é algo árabe com acentuação esdrúxula. Albergaria-a-Velha parece andar com uma bengalinha a mendigar, enquanto Aljustrel é beduíno a cavalgar. Quem não se enche de brios diante da Angra do Heroísmo, ou se perturbe de uma vez sob os Arcos de Valdevez?


Imaginem procissão de velhos ranzinzas em Carrazeda de Ansiães. Fanhoso só em Cinfães. Há aqui diversos tipos de couves, mas a melhor deve ser a de Covilhã. E há Elvas e Évoras, a pessoa se espanta e se Estarreja, como se assinasse Ferreira de Zêzere.


Há municípios que são puros rótulos de bom vinho, como  Reguengos de Monsaraz. Quem sabe, dar um pulinho até Figueiró dos Vinhos e, impetuoso, chegar a Freixo de Espada à Cinta. Não há conflito de gerações entre Idanha-a-Nova e Montemor- o – Velho. (Mas não encontro a Senhora-de-todos-os-hifens). Como seriam as azeitonas de Oliveira de Azeméis? Ou um chamego de Lamego?


Há nomes doentios, como Vimioso.. Se, no Brasil, tivemos a febre do ouro, aqui há constipações de Ourém e de Ourique. Dá pra ficar até Loulé da cuca.
Sobra modéstia em Vila Pouca de Aguiar. E as vilas novas? São de Famalicão, de Poiares, de Gaia, de Foz Côa, de Cerveira, da Barquinha – nome tão infantil, que a gente até se esquece que está com Penacova... Entretanto, vem da brisa de Vila Franca de Xira algo que só não cheira melhor do que a atmosfera de Pampilhosa da Serra...

 

Nomes que parecem de mulheres tímidas, como Palmela...Nomes de pessoas avoadas como Viseu, Vizela e Vouzela... Nomenclatura de berço de escritores, como essa de Póvoa de Varzim... nomes de narrativas de antigos livros didáticos, como Salvaterra de Magos. Há sombrios nomes, evocando berço de ditador, como Santa Comba Dão. Nomes diabólicos, como Sátão, ou quase celebrações religiosas, como Seia. Ou simplesmente parecem pseudônimos ou anagramas, como Sever do Vouga. Se existe Sernancelhe, por que não Vasilhame? Realmente, é para ficar estupefacto, e não sei se fico em Celorico de Basto ou Celorico da Beira.

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2018


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