ANO 4 Edição 65 - Fevereiro 2018 INÍCIO contactos

Carlos Pessoa Rosa


Poesia

CAFTINAGEM DE EXPURGOS


Sem sons e cores,
palavras desnudas de ontem.
Debaixo da camélia, corpo imóvel e mudo. Abaixo do corpo, a terra. Depois
, resta o mistério.
Não há folhas secas nem pó nem lances de sorte, apenas o acaso dos
desencontros e reinícios.
Um vento fino sopra erudições, talvez Mozart, talvez a morte, quem sabe
o Nada
, nudez absoluta de tudo, mãe das metamorfoses e do dedilhar
vazio de sombras e silêncios
, borboleta a explorar atalhos
de uma mimesis nascente
pássaro a surgir e a atentar os vãos
quando afecções intemporais depositam hifas de sobrevivência.
Vaporizados signos
, desgastados e enferrujados elos
anatômicos em mármore frio
, causa morte
o incruento petrificado, palavras em formol, engessadas
no céu da boca de onde fumaça
ascende e cinzas são espalhadas entre esquecidos
ao modo dos funerais.
Despedidas expõem novas fantasias
ao luto
, este libertino camuflado de dor
e o mesmo odor em hábitos messiânicos
a fazer sexo oral com adormecidos
: o dodecafônico de Sade em campos de girassóis
, as artimanhas das rezas em cochichos perenes.
O vento
a espalhar invisíveis
, tornar férteis cacimbas e
desertores
, caftinagem de expurgos e palavras
indóceis
logaritmos da orgia matemática
, origem e destino
do delirante
orquidário do prenhe.
O início
sombrear de um vazio absoluto
: houvesse o Verbo
não passaria de um delírio metafísico do vento.


 

 

 

VADIA


sou a vadia
poesia sem ideal a munhecar
fios de ovos na mesa
dos mandrakes da economia
sou a puta
pensa na falta de possibilidades
além de lavar
a boceta em banho-maria por trocados
sou a contradição
na vertente dos ócios desossados
no ilógico dos voos rasantes
e dos deslocamentos angulares
das aberrações históricas
sou a resistência
que acende lamparinas urbanoides
nos pontos cegos da demência
que incendeia o habitat da sanidade
e afoga a invisibilidade
na mais perversa anulação da identidade
não sou nada
nem ideal nem resistência
porra nenhuma
além de escória pulsante na demência...

 

 

 

 

TANTOS


entre tantos
enraizamentos: eu osmótico
entre tantas
zonas fronteiriças: eu nômade
entre tantos e tantas: eu sombra
vulto, sopro e vento
nos entres adormeço alfinetes
chuleio arco-íris
e me masturbo como se nuvem
esse eu que se evapora
tão logo a palavra se achega da noite
entre tantos
adormecidos: eu noctâmbulo em Vênus
dialogando com as três irmãs
entre tantas
síndromes de pânico: eu no velório
das formigas
entre tantos e tantas: eu pura leveza
bolha de sabão
em delírio ascendente e infinito
(mas logo ali: um lábio, uma síntese...)


 

 

 

RIO


na curva do rio
nada mais que uma curva
no rio turvo
nada mais que um rio
no turvo do rio
uma curva muda o curso
é dessas mudanças
que o velho destino se esquiva
não sendo rio
mesmo que turvo o curso
rio
(é meu lado palhaço de ver o mundo)


 

 

 

MOENDA


uma moeda
moenda de trilhos
traças
e um reco-reco
cantante
: suficiente
a música e o delírio


 

 

 

DELÍRIO


o ovo nasceu antes do Sol
e ficou ali a curtir no ninho o devir
atravessar a ponte de madeira
negando o rio a correr debaixo da ponte
houve um sentimento
: o medo
do outro lado, dois jovens saem da mesa
há uma frigideira dependurada na mesa
Marcelo Ariel surge do nada
e fala das rodas denteadas das palavras
houve um sentimento
: de musicalidade
na tela um vídeo de imagens fragmentadas
e a performance de Gerald Thomas
há um taxi, um Ford talvez 49
dois motoristas, uma arma, um sequestro
houve um sentimento
: de morte
renasci depois do Sol
e fiquei ali a curtir o frio no ninho
houve um duplo sentimento
: quanto tempo ainda? Saudade...


 

 

 

PARIR


eu parei
de cuspir fósforos
na latrina
da puta da Berenice
agora
eu cuspo gelo
na genitália
de óvulos grávidos
vou parir
uma abóbora infértil
como se nádegas
da beletrista dos jardins
a miopia
não me atrapalha
vejo a nudez
da insânia em voo
eu salivo
no bico de seio
das manhãs
sedentas de amoras
eu me vejo
no espelho d’ água
a imagem
inversa da sombra
eu parei
de cuspir fósforos
na vagina
da lua noz moscada
agora
eu cuspo gelo
na boca
das ostras santíssimas
vou parir
um anjo danado de ruim
como se praga
dessas que tem nos hospitais
a miopia
não me atrapalha
vejo o hímen
do silêncio na unha
eu salivo
na partitura Cage
como mênstruo
do barro no mar
eu me vejo
não me vendo
nos lugares
ermos e solstícios
eu parei
agora vou parir...

 

Carlos Pessoa Rosa é escritor, editor do site e blog MeioTom. Publicou "A cor e a textura de uma folha de papel em branco", prêmio ficção nacional UBE-CEPE, 1998, "Mortalis: um ensaio sobre a morte", prêmio Xerox-Ed. Livro Aberto; "Não sei não",, "Sobre o nome dado" e "Nada poético", pelo coletivo Dulcinéia Catadora, "Destinos de vidro", Ed. Meiotom; "Una Casa Bien Abierta" pela Pequeño Editor, Buenos Aires, Argentina; "A visão bipolar de um ovo de avestruz" e "A cor e a textura de uma folha de papel em branco", prosa, "Mu Kambo", poesia, e o infanto-juvenil "Mistérios invisíveis que não brotam igual ao seio", todos pela Amazon.com. Participa de várias coletâneas nacionais e internacionais. Prêmio Literatura para Todos com "Sabenças", novela, em 2010. Tem trabalhos publicados na revista "Olhar" da UFSCar, D.O. Leitura, Instituto Piaget, Portugal, Revista Ser do Conselho Regional de Medicina, Revista Linguagem Viva, nos sites Germina e Blocos, entre outros.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2018


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Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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