ANO 4 Edição 65 - Fevereiro 2018 INÍCIO contactos

Ana Maria Oliveira


Poemas

O abismo das trevas

 

A geringonça contorcionista exibe
A dança aleatória para a plateia ausente
Enquanto os globos giratórios magnetizados
Pelos espaços de oportunidades caóticas
Geram encaixes e enroscadelas

 

Os mitos esfarelam-se em cinzas
Pelo fogo ateado da ignorância das masmorras
Perpetradas pelos predadores de vidas
Sugadores de mitocôndrias
Ávidos de eternidade

 

Coroados pelos chifres das bestas sem palavra
Escavam a terra afocinhando nos orifícios
Quais feridas terrestres de Mãe generosa
São delatores presos à mesquinhez
Da arquitetura da ganância
Manipuladores invisuais de tecnologia
Manuseadores de arsenal bélico
Encantadores de escravos
Que à morte certa sorriem

 

Burocráticos malabaristas levantam o chicote
Sobre os ombros acanhados de espírito
Que fazem pacto com o silêncio
Esperançados na ininterrupção
Das tradições milenares obsoletas
Fosseis sem ligação sem aprendizagem nem identificação
Pois os semelhantes transformaram-se
Em mutantes da estupidificação

 

Há um abismo infinito a desbravar
Trevas para desvelar
Quando deixarmos de ser embusteiros em palco alheio
E passarmos a acrobatas do espaço a tempo inteiro

 

 

 

 

Condutores de informação

 

A informação abre veredas por entre a selva
Onde as serpentes aguardam a mordidela certeira
Na podridão da carne
Os canais são austeros perigosos e escorregadios
E os veículos descarrilam no percurso
Onde a arquitetura explode em linguagem cósmica

 

E o meu cérebro faiscando sobre o estado amnésico das palavras
Baralhando sílabas misturando notas musicais
Esperando que o caos se transforme em ordem
Sapateando entusiasmo para que a minha surdez não notem

 

O carrocel é velho e barulhento
Deslizando nos carris oxidados pela chuva
Onde os corpos carcomidos se revelam
Ansiando o brilho do ouro
Rebentando em campos de exequibilidades
De armazenamento de joias
Tesouros feitos ornamentos onde as mensagens ambíguas
Dão origem ao erguer de braços dos déspotas
E ao levantar e baixar da lâmina afiada do carrasco

 

E a minha mente criando fogo-de-artifício
Falseando os resultados da experiência
Pintando quadros onde a beleza aparece errática
Como trampolim para o grotesco e medonho

 

A mensagem atinge o alvo onde o alerta é dado
Mas as aranhas inertes e interesseiras
Apenas tecem a sua teia e permitem
Que a probabilidade dos escravos se transforme
Em espaços de concomitância indecente
E é então que o ditador é permitido e o seu ego lunático
Ergue uma forca poderosa
Onde os egoístas conformados passarão o portal
Renascendo como combativo inovador criativo
Golpeando a flecha no coração da besta
Manipuladora de homens esquartejados na cruz
Finalmente a viabilidade do carrasco
Permaneceu do outro lado na invisibilidade
E à velocidade vertiginosa se fez luz

 

 

 

 

A força do dilúvio


Abre-se a fenda por onde os elementos cósmicos
Se revolvem misturam deleitam se entrecruzam
Procurando o encaixe perfeito omnipotente  eleito
Criando rasgos de lençol campos estratificados
Aguardando a miscelânea o vendaval perfeito

 

O grito de comando soou por entre os recifes
Ecoa em toda a parte estridente como ser omnipresente
A água borbulha perante as rajadas de eficácia destrutiva
Arrancando o sustento dos homens à terra enfurecida

 

São prisioneiros do dilúvio infinito e imitando o furor cósmico
Chacinam os irmãos inventando justificações estoqueadas
Pela imbecilidade de uma mente decadente que perde a sintonia
Com o cordão umbilical da ética e a criativa energia

 

A força do dilúvio enlameia os ossos dos cadáveres à deriva
E deposita-os no fundo do mar do esquecimento ilimitado
O sol encarregar-se-á de aquecer o gérmen
Que emerge os seus caules delicados após a tempestade
À procura de um ancoradouro onde possa repousar
Pois o tempo é uma bolha sempre pronta a rebentar
E as possibilidades do acontecer rejubilam por festejar

 

 

 

 

Tempestade

 

Vem medonha tempestade purificar os suínos e os mansos
Que a chuva purifique a poeira dos transgressores
Batize na anunciação da nova era
E proteja a bravura anulando um viver de horrores

 

Quantas vezes os meus membros gesticularam aguardando a mensagem
Mas a avalanche de búfalos pisa e esmaga
Mesmo suplicando a vítima com as mãos ao alto
Então faz do humano vírus bactéria uma praga

 

A sociedade humana cria vícios trapaceiros
Artifícios de ganância mundos virtuais
Onde os ferreiros trabalham a espada das ocultas marés
E os prisioneiros cabisbaixos fingem que se deslocam num arrastar de pés

 

Que a chuva se confunda com as lágrimas
Que de mim se soltam e que o sal
Faça depois um pacto com o sol
E acabe de vez com a penúria do roer de unhas
Enquanto a ponta da caneta desenha gatafunhos sem nexo
Perante a mente programada
Sem energia própria permanecendo em justiça adiada

 

Os suínos dançam e riem como hienas em esquizofrenia dissimulada
São sofistas da trampa mercadores de carne humana
Negócio incoerente vive para o armazenamento o lucro
O ouro e dinheiro o luxo neste registo demente
Pregando nos desafortunados a chapada estridente
E a fileira de seres humanos continua até à crucificação final
Por entre o frio da noite nebulada
Esperançados em alcançar a segurança social

 

Mas engano!
Devorados pelo caos anunciando a rutura
Ignoram que a salvação está nas ações
Mas a corrente é pesada e invisível gerando o atraso da paz
Enquanto se espera o alívio da morte em atitude calada

 

O famigerado  grito fará eco no futuro
Mesmo doente em fraqueza derruba-se e salta-se o muro
E os porcinos permanecerão eternamente
Nas pocilgas infestadas que fizeram
Enquanto o riso das hienas lhes fará companhia
E não haverá grilhões para o humano
Apenas um flutuar entusiástico de alegria

 

Ana Maria Rodrigues Oliveira nasceu a 17 de Fevereiro de 1960, em Portugal, no Alto Alentejo no distrito de Portalegre e concelho de Castelo de Vide. Em 1986 finalizou a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa. Licenciatura que lhe permitiu dar aulas de filosofia durante alguns anos. Edita o seu primeiro livro de poesia em 2008 através da Corpos Editora “Grito de liberdade”. Este livro é uma forma de partilhar emoções e vivências, encarando a poesia como uma catarse. Dedica este livro a todas as mulheres, pela luta e determinação com que enfrentam as adversidades de uma sociedade que ainda manipula e escraviza. Faz uma edição de autor “Espírito Guerreiro”, o seu segundo livro de poesia, em 2014. Mantém alguns sites onde divulga a sua escrita. Ultimamente mantém-se ligada ao projeto “Filosofia para crianças”.
http://paula-esperar.blogspot.pt/
https://www.facebook.com/pages/Estilha%C3%A7os-no-Caminho/355449187906566?ref=hl
http://www.assinaturaeletromagnética.blogspot.com
https://devirquantico.blogspot.pt/

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2018


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Foto de capa:

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Paginação:

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