ANO 4 Edição 65 - Fevereiro 2018 INÍCIO contactos

Mariana Outeiro da Silveira


Resenha: “Retratos imateriais”, de Jean Narciso Bispo Moura

 

Em seu mais recente livro de poemas, “Retratos imateriais”, Jean Narciso Bispo Moura explora a natureza do tempo em sua esfera não apenas inexorável, mas cansada de uma existência fadada aos dilemas humanos. O primeiro verso “o tempo envelhece na pele da humanidade”, do poema “desespero temporal”, revela um porvir poético de embate entre o homem e a palavra, numa esperança de salvação através dos poetas que prezam pela construção artesanal da beleza em versos.

 

Como já apontou Fabiano Fernandes Garcez em “A poética de Jean Narciso Bispo Moura: de narciso e aqualouco todo poeta tem um pouco”, a metalinguagem é a linguagem que mais ressalta na grande maioria dos poemas, ganhando uma dimensão descritiva de um fazer poético alimentado por imagens ora dissonantes, ora absurdas, porém potentes em meio ao caos profano em que vivem os homens.

 

Em “relógio” vemos uma querela entre o tempo em sua natureza selvagem e um tempo aprisionado em moldes humanos através dos cronômetros da vida contemporânea, almejando o eu-lírico que o homem ouça mais o tempo orgânico, único, que aquele dilacerado em compartimentos. Outro poema que aponta tal questão é “os peixes”, uma vez que, além do poeta revelar a insatisfação do objeto ampulheta, ele mostra que a existência humana é criativa, insistente na arte de errar, divagar mundo afora, constatando que o homem não tem controle sobre nada, como lemos em “estranha acrobacia”.

 

Muito da poesia não apenas de “Retratos imateriais”, mas também de sua obra anterior, “Psicologia do efêmero”, almeja efetivar construções contemporâneas de uma linguagem muito estimada no Barroco, as famosas “agudezas” que, segundo João Adolfo Hansen em “Retórica da agudeza”, as define como metáforas “da faculdade intelectual do engenho (…) efeito inesperado de maravilha que espanta, agrada e persuade”. Quando lemos “pulgas” impossível não lembrarmos de John Donne, grande poeta do período que, em seu célebre poema “a pulga”, constrói a imagem da união de um casal através do inseto que aos dois picou, sendo então a mescla dos sangues a consagração de um casamento, ao passo que no poema de Jean, as pulgas têm acesso ao ente amado e logo são odiadas pelo eu-lírico. Importante notar a perpetuação dos elementos metaforizados, universais neste jogo de criação poética.

 

Destarte, ao retomarmos o título do livro constatamos que estes poemas constroem relações entre substâncias orgânicas que se revelam potentes nesta poesia. A materialização das imagens ocorre na medida em que os elementos se encontram e passeiam no texto. Podemos notar que em “utopia”, o eu-lírico materializa-se na situação de estar enterrado e, neste mesmo tempo, ser “página coberta de poeira e amarelo”, exaltando a metonímia como linguagem de expressão recorrente em todo o livro, de modo a construir estas relações orgânicas através dos detalhes desse todo que é o dilema do homem-tempo.

 

Tais relações orgânicas que se constroem nesta obra habitam versos de grande síntese poética, poemas que lembram um pouco a essência do haicai, que segundo Barthes em “A preparação do romance, vol. 1”, p. 132, trata-se de uma forma baseada numa constante enunciação do “eu”, sendo um “eu”, que passa pelo corpo, pela sensação, pelo momento. Em “língua postiça”, vemos um exemplo disso “por que tenho tanto receio/ do que está por detrás/ da clandestina figura mitológica?”.

 

Em suma, “Retratos imateriais” incita o leitor a refletir sobre o fazer poético na relação entre o tempo em sua primeiridade existencial e o tempo organizado pelo homem, a agudeza dos elementos que nos fazem pensar e toda uma sutileza sintética da enunciação do eu em meio aos objetos circundantes e imaginários. Um verdadeiro primor na literatura contemporânea brasileira.
 

Bibliografia:

BARTHES, R. “A preparação do romance”, vol 1. Martins Fontes: São Paulo, 2005.

HANSEN, J.A. “Retórica da agudeza”, In: LETRAS CLÁSSICAS, n.4, REVISTAS USP, 2005.

 

Mariana Outeiro da Silveira, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo e mestra em Comunicação e Semiótica pela Pontíficia Universidade Católica de São Paulo.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2018


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