ANO 4 Edição 65 - Fevereiro 2018 INÍCIO contactos

Simone Teodoro


Poemas

Midgard

 

O vermelho sodomiza
o azul
no céu retalhado por ângulos retos
de prédios
& monotonia
Deuses marcham para Valhalla
do meu coração obsceno
arcanjo desfolhando lábios 
por detrás das ramagens
Arremessar bolinhas de papel
contra o lustre
palavras amarrotadas 
deslocando a claridade inventada
movimento de pêndulo
hostilizando conexões elétricas
Desfaça-se a luz
my dear,
o verbo também 
inaugura o breu
No entanto
flechas de neon
vão e vêm
nas rotas incertas 
das minhas pupilas abertas
Não ficar em casa nesta noite
chocando o ovo 
da Solidão Pós -Moderna:
nas praças
fazedores de sonhos
dissolvem serpentes nos 
olhos humanos
A tristeza dobrada no bolso
esquerdo do meu casaco xadrez
pesada
como um império enterrado
De Midgard
rajadas de vento &
gelo
Árvores se agitam
Tapeçaria de flores 
ordinárias nos cabelos.

 

ERA uma tarde vermelha
e os pássaros
explodiam nos vidros
de nossas janelas fechadas

 

Já havíamos
comido nuvens
sorvido Daimes
& bebido a cobra curtida na cachaça

 

Você lambuzava meu corpo
com guache
& me desafiava a ir buscar a correspondência

 

& pronunciava Pessoa:

"tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte"

 

Eu ria
o riso dos demônios
que riam da enxaqueca do
deus que matava os pássaros

 

Você esboçando os contornos
do yin e do yang
ao redor
dos bicos duros dos meus seios

 

“Vá buscar a correspondência”
Se tornara Ordem
&
eu respondia
tecendo em silêncio
uma guirlanda de espinhos
para coroar sua cabeça loura

 

“Vá buscar!”
Você gritava no abandono das cores

 

“Vá buscar!”
Você uivava
Tirando da gaveta
a arma herdada do avô senhor de engenho

 

“Vá!”
O yin e o Yang
escorrendo 
rumo ao medo entranhado no buraco escuro do
meu umbigo

 

Você me culpou 
por todas as suas Estações no Inferno
& disparou
arruinando de vez
a linha do amor
que atravessava a palma 
da minha mão direita

 

 

O Baú I


The last day of summer, 
melancolia escapa pelos fones de ouvido, gás tóxico preenchendo as interrogações das orelhas.
Quando foi que me metamorfoseei em glândula de chorar pelo que
por descuido ou maldade
se derrama?
Quando estar só é um osso quebrado
delirar dragões que despencam
Sinfonias que matam
Árvores que apaziguam desalentos
Como não ser triste 
quando a morte é animal com fome
esperando no primeiro atalho do bosque?
Quando sulfurosa decrepitude
desavergonhadamente
sorve nossa seiva e sonhos?
Como não ser triste 
quando o que eu mais amo
sem explicação nenhuma
se desvanece?
Quando os brutos 
chupam o tutano das costelas dos mansos
em mesas fartas?
Quando os simples 
são atirados em compactadores de lixo
quando o chorume é o cheiro do mundo?
Como não ser triste 
quando
do Baú de minha infância
exumo cores
claves de sol
e as carcaças de todos os meus cães assassinados?

 

 

O Baú II


O pai morreu louco
gritando meu nome.
O céu desbotava em seus olhos.
A escuridão para sempre enterrada em meu peito.

 

(Jamais haverá cura para minha tristeza).

 

Toda noite
a chuva fabricava a lama 
que incharia seus ossos
Exumados do Baú da infância
onde a raiz se retorce
há gatos com gestos de príncipes
há vozes
vertigem
verão 
&
voragem

 

há a velha vitrola enguiçada

o pai jogando o gato na parede

os ossos se partindo
num estalo

 

(Jamais haverá cura para minha tristeza)

 

Todas as noites
a chuva fabricava a lama.
A escuridão sempre esteve
enterrada aqui

 

Pai, por que você está chorando?
Pai, por que você matou o gato?
Pai, por que deus está mancando?

 

 

Tennessine

 

Você tem sido brilhante
na tarefa de empilhar rancores
Tem sido também um matemático
na organização das decepções 
e na contabilidade diária das perdas

 

Entre uma memória e outra
 (esse universo estranho de gavetas de necrotério)
você guarda a morte dos outros
até o dia em que chegará a sua

 

Quando a noite vem
o vento
nunca avisa
e
desfia
os contornos do seu coração

alinhava
no vazio do sentido
na jaula de ossos do seu peito
o esgar apavorado de um pássaro

 

São sempre ruins os seus sonhos
Seus sonhos serão sempre ruins.

 

Você nunca vai se livrar
do ser de sombra
que te olha do escuro
enquanto você tenta se esquecer de.

 

Você não acredita em poesia
que não arda a ferida.

 

Por isso
 os solos tristes de guitarra que você ouve vão seguir 
sendo fios de arame em seu pescoço
que comprimem a sua jugular
até quase.
E mesmo que 
qualquer resto de amor
arraste um sistema solar para o seu nada
Você sabe que Tempo
é o nome de deus
e que ele não é bom nem ruim
Porque Tempo é para além.
E você sabe que Breu 
é o nome de deus
e que ele não é bom nem ruim
porque Breu é para além
E você sabe
que luz é só uma pausa.
Porque o fim
é logo ali

 

 

MAPA PARA MURILO MENDES

 

O medo, ao sul,
também me limita, Murilo.
Mas
 quando me colaram
no tempo
caí agarrando-me às linhas
que marcam os contornos 
dos mapas.

 

Desfiz desenhos
Enlouqueci rotas
Perdi para sempre alguns caminhos
sobretudo os de voltar.

 

Da Rosa dos Ventos
última chance
minha mão direita alcançou
ao norte
o gume que a feriu.

 

Nunca soube andar só, Murilo.
Minha existência tem sido
um tropeçar contínuo
em linhas emaranhadas de
mapas desfeitos.

 

Mas errar na neblina
como um personagem de Calvino

Errar na neblina
infla meus pulmões
e flutuo na nebulosa
do teu delírio.
Não deveria ser mais
simples regressar, Murilo,
já que conhecemos o caminho?

 

No entanto
as lágrimas de Circe
borraram as tintas
de todos os desenhos
de todas as nossas cartas de navegação.

 

Devo então
afastar o sal
e ajustar as cartografias a meu navegar impreciso

 

Nunca mais estarei perdida.
Estarei no ar, Murilo.
Contigo andarei no ar.

 

 

E, pelos ares, lá vai o gato


E, pelos ares, lá vai o gato.
Sobrevoa os cumes do meu delírio

 

Unhas em riste.
Atravessa a fímbria
da noite antiga
que adorna minha tristeza.

 

(Que nome de vento
batizou seus ossos?()

 

E pousa.
Sinuoso paraquedista
Arrepiada envergadura de coluna inflada

 

Pousa o silêncio
no telhado
 que mesmo partido
Jamais se moverá
sob a eletricidade de suas patas.

 

(Que o gato aterrise
também
suave assim no meu peito.
Que o veludo do gato vede
esta assassina sinfonia de colisões)

 

E quando eu estiver caindo
que o gato

 

(quântico bailarino)

 

me ensine
a insultar o abismo
com um passo de dança.

 

Simone Teodoro é poeta e  doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Minas Gerais. Publicou dois livros de poemas, “Distraídas Astronautas” ( Patuá, 2014) e “Movimento em Falso”  (Patuá, 2016). Nasceu e vive em Belo Horizonte. É leitora compulsiva.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2018


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Paginação:

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