ANO 4 Edição 64 - Janeiro 2018 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


Mensagem anti-natalícia, anti-anonovícia e de hipocrisia qb

Esta época, dita Natalícia, é um dos melhores reveladores da hipocrisia em que vivemos mergulhados como feto no líquido aminiótico da barriga da mãe. Li há pouco numa rede social um comentário de uma senhora de perfil muito bondoso, difusora de imagens de santos e presépios a desejarem Santo Natal, Muita Paz e Amor, Saúde e Vida Longa na graça de Deus, é claro, a propósito de um texto que recordava a passagem do aniversário do falecimento de Mário Soares. Escreveu a natalícia senhora: Esse já foi tarde!


Lá se foi pelo esgoto o verniz da paz e muito amor para si e toda a família. O que queria dizer a senhora (cristianíssma?) a propósito da morte de Mário Soares: «Foi pró caralho e ainda bem. O Diabo que o carregue!»


As mensagens de paz e bom ano dos chefes das grandes potências também nos deviam provocar um vómito, simultâneo com os gritos dos que são despedaçados pelas bombas que lhes enviam todo o ano, incluindo nesta época.


O povo, essa construção abstracta, mas que serve para estabelecer medianas de comportamento, associa instintivamente a verdade à realidade. É instintivamente anti-hipócrita. O exemplo mais claro que conheço de anti-hipocrisia ocorria há quarenta e alguns anos, com as mensagens de Natal dos soldados mobilizados em África para a guerra colonial. De microfone na mãe e falando directamente para a família nos cus de Judas continentais, desejavam aos parentes um Ano com muitas «propriedades», em vez das linguisticamente requintadas «prosperidades».


Os “educados” e letrados das classes médias urbanizadas ainda hoje fazem chacota com a troca. Julgo que os soldados populares expressavam o que lhes ia genuinamente na alma. Associavam naturalmente propriedade, posse de um bem, a prosperidade, boa vida, felicidade, do mesmo modo que a cultura popular associa gordura à formusura e não a colesterol e a AVC.


Os tradicionais desejos de paz e amor nestas datas são construções da hipocrisia religiosa, de desejo de uma ida para um paraíso imaginário, já que a realidade terrena é a da violência, da injustiça, da guerra, da miséria. Um inferno da porra e da massa!
Não deixa de ser significativo que quem mais desejos de paz e amor expressa e difunde sejam exatamente os sacerdotes religiosos e profanos que, na realidade, mais necessitam que os seus destinatários se iludam com esses desejos para viverem na opulência, no arbítrio, na luxúria, na corrupção.


À sua medida, o homem médio (outra mistificação), espalha nesta data fotografias de mesas carregadas para almoços e jantares, com a família sorridente e enfartada à volta.
Mas - há sempre um mas - debaixo da irremediável hipocrisia surgem sempre umas pepitas de ouro de verdade essencial e a língua portuguesa é riquíssima na arte de dizer em voz alta e rude que o rei vai nu e a rainha dorme com o pajem.


O Porto e o Norte em geral, por razões que os antropólogos e os linguistas, funcionalistas e estruturalistas explicarão, usam sempre com certeiro a propósito essas frases de anti-hipocrisa. A mais vulgar e certeira será, em minha opinião, o já referido: Vão pró caralho!


É o que digo para mim quando recebo votos de presidentes, reis, papas e bispos, ministros e banqueiros, artilheiros e corneteiros, deputados e senhoras de receber cavalheiros de posição em casa e ainda vendedores de automóveis, de telemóveis, de pingos doces e de continentes.


Ide então para aquela cestinha no topo do mastro da casca de noz dos barcos à vela e fiquei lá a ver se eu me ralo, se como bacalhau e rabanadas, se me lambuzo de açúcar ou de azeite, se estou em paz a dormir ou bêbado.


Eu mantenho os amigos e os votos de todo o ano. Certo dos amigos, descrente dos votos, mas civilizadamente hipócrita para os agradecer com sinceridade. 

 

 

Carlos Matos Gomes

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2018


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Paginação:

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