ANO 4 Edição 64 - Janeiro 2018 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Algumas considerações sobre o pensamento de António José Saraiva

“O amor humano e o amor divino confundem-se, o que pode ser interpretado como uma sacralização do amor humano ou uma mundanização do amor divino, ou talvez antes como uma impossibilidade de distinguir os dois planos”
António José Saraiva,  “A Cultura em Portugal, Bertrand, 1981, p. 207.

 

Nascido em Leiria a 31 de Dezembro de 1917, António José Saraiva é filho de uma família numerosa. O pai tirara o curso de História e era professor de liceu.

 

Durante a faculdade trava conhecimento com Óscar Lopes (mais ou menos 1938) com o qual, a partir de 1953,  inicia a notável “História da Literatura Portuguesa.

 

Em 1942 conclui o doutoramento em Filologia Românica na Universidade de Lisboa com a tese “Gil Vicente e o Fim do Teatro Medieval”. Envolve se numa luta contra o regime salazarista, tendo militado no Partido Comunista Português. Por causa do seu posicionamento político foi expulso do ensino universitário e, para sobreviver, foi dar aulas em vários liceus.

 

Consta que foi expulso do ensino universitário por rebeldia e  lecionou no liceu Passos Manuel onde o pai era reitor. Em 1949 é demitido  por apoiar a candidatura do General Norton de Matos e por pertencer ao Partido Comunista Português.

 

Em 1960 emigra para França onde fica como bolseiro do Collège de France e em 1961 integra o Centre National de Recherche Scientifique de Paris.

 

De Paris partira para a Holanda com o cargo de professor catedrático na Universidade de Amsterdão. A partir de 1974, com a Revolução de Abril, é convidado para catedrático da Universidade de Lisboa.

 

Morre em Lisboa a 17 de Março de 1993, com 76 anos.

 

Na obra “A Cultura em Portugal-Teoria e História (1981), Saraiva analisa a saudade portuguesa, o “complexo de ilhéu” e o posicionamento do País entre Espanha e o oceano.

 

Em 1980 publica “Filhos de Saturno: Escritos sobre o Tempo que Passa” e refere no prólogo: “ Cada homem é um deus aprisionado num corpo. Ou por outra palavras: é um ser transcendental limitado e condicionado pelo mundo fenomenológico. Há uma intuição profunda no mito cristão da encarnação. Os teóricos discutem: como pode Deus padecer e morrer? Pois é esse  o problema do Homem, que assiste à sua limitação, à sua mudança e à sua morte. É como ser transcendental que o Homem aspira a abolir o tempo por meio de filosofias, de religiões e da própria Ciência, a qual se pretende verdadeira, independentemente do espaço e do tempo(…)” (“Filhos de Saturno: Escritos sobre o Tempo que Passa, Bertrand,1980 p. 11).

 

Apesar de ter sido aderente às ideias comunistas na juventude, em 1980 demarca-se:

 

“ São as revoltas da Hungria, a revolta dos operários alemães em 56, as revoltas da Polónia, e para cúmulo o conflito entre a Rússia socialista e a China socialista. Verificou-se, contra a ideia do internacionalismo operário, que cada vez que se instalava um governo comunista nascia uma divergência com o governo soviético, a não ser que este, por via da vizinhança, pudesse dominar militarmente o novo adepto do bloco, ou então torná-lo dependente por via da dominação económica, como foi o caso de Cuba” (“Filhos de Saturno”, idem, p. 202).

 

Em 1981, na obra de referência “A Cultura em Portugal, referencia  que iniciou  um percurso desde 1951 sobre a história da  cultura e que  os métodos estatísticos próprios da história económica nada têm a ver com os “movimentos espirituais”:
“ O historiador da civilização, permita-se a comparação, faz a história dos instrumentos; o historiador da cultura, a história das criações musicais “ ( “A Cultura em Portugal, Bertrand, 1981, p. 8).

 

Nessa obra tornou-se interessante o capítulo sobre a “personalidade cultural  portuguesa” que entronca com a obra “O Labirinto da Saudade” de Eduardo Lourenço.

 

Porque nos parece particularmente relevante as teorias trabalhadas nessa obra, lembro o “complexo de ilhéu” no qual o Português mitifica tudo o que é estrangeiro e a “oscilação pendular” entre o “orgulhosamente sós” e  a  “Europa connosco”.

 

Outro aspeto é o “messianismo”, “filosofia de exilados e de infelizes”, desde Camões até ao 25 de Abril de 1974.

 

A “saudade” é presença obsessiva na literatura portuguesa e intraduzível em outras línguas. A saudade é por um lado uma “dor da ausência “ e um “comprazimento da presença pela memória”. O amor português seria todo ele baseado nesta ausência e distância do ser amado. Também o amor seria um tema obsessivo na literatura portuguesa desde Bernardim Ribeiro, a Camões, Bocage, Garrett, Camilo.

 

Também o culto da dor. De “ser triste”. O Fado a canção dessa tristeza. A auto ironia. Eça de Queiroz seria o expoente máximo da ironia.

 

Outro aspeto luso é o “culto da Virgem” que o autor considera de índole psicanalista. Fátima é não só um ligar de peregrinação como o êxtase de Maria. Também o culto dos mortos. Embora Saraiva explicite que é em Espanha que se encontram os místicos, desde Santa Teresa de Ávila, a Juan de la Cruz.

 

O misticismo espanhol seria mais confrontado com Deus e o português precisa da mediação de santos, santas e de Maria.

 

Na Arte, Saraiva reconhece que em Portugal escasseia o gótico,  e o manuelino é  a “negação” do fogo.

 

O que não temos de filósofos, temos de historiadores. Desde Fernão Lopes, a Oliveira Martins, e tantos outros: o culto do passado tem a ver com uma procura de uma idade de ouro.

 

Inspirando se em Unamuno, Saraiva refere que a filosofia é para ser encontrada nos poetas e no lirismo português. O autor considerava que os portugueses tinham uma “indiferença filosófica”.

 

No plano amoroso, os portugueses sempre se miscigenaram com as nativas dos povos que iam conhecendo e explorando: Índia, Brasil, Cabo Verde, África.

 

“A brandura dos costumes” e o aldeanismo constituem outros aspetos de uma personalidade portuguesa, desde o século XV. Portugal seria mais uma “mátria” do que uma “pátria”( palavras inventadas pelo Padre António Vieira, diz o autor):
“Os Portugueses comportam-se como um povo que teve mãe, mas é órfão de pai, o que historicamente até se poderia explicar de uma maneira positivista pela emigração massiva dos chefes de família durante a maior parte do tempo da nossa história. E esta explicação poderia ter desenvolvimentos psicanalíticos (António Jose Saraiva, “A Cultura em Portugal”, Bertrand, 1981, p.112).

 

Já em “Maio e a Crise da Civilização Burguesa”, de 1970 expunha ideias muito próprias sobre a civilização ocidental:
“Há hoje no mundo uma cultura que não seja burguesa? Há, mas unicamente fora dos países industrialmente avançados. É a antiquíssima cultura camponesa que desapareceu inteiramente na Norte-América e quase inteiramente na Europa e no Japão, mas que conserva a sua vitalidade na Sul-América e em quase toda a Ásia. De tal modo que o mundo se pode dividir hoje em duas civilizações: a burguesa e a camponesa. A civilização camponesa é atualmente o único foco de resistência ao aburguesamento geral do mundo” ( António José Saraiva,  “Maio e a Crise da Civilização Burguesa”,  Gradiva, 2005, p. 28).

 

E acerca das mentalidades:
“E também (há) cada vez mais psiquiatras para “normalizar” os homens rebeldes à norma uniforme. Estes homens, cada vez mais padronizados, fazem cada vez mais o que os economistas (…), os psicólogos, os especialistas de marketing, esperam que eles façam. (…) Será que finalmente a subjetividade foi abolida pelo conhecimento? Não, o que se passou foi outra coisa.(…) Até o amor se faz segundo o que vem escrito nos livros, «cientificamente». (…) a psiquiatria não existe senão para obrigar o sujeito rebelde a conformar se com a sua imagem objetiva”.  ( António José Saraiva,  “Maio e a Crise da Civilização Burguesa”, idem, pp.32-33.).

 

Na  mesma obra refere: “ Quase toda a gente à minha volta precisa de uma revolução cultural, sobretudo os que armam em mestres ( incluindo eu próprio). A violência é ainda um produto da sociedade tradicional. Os não-violentos talvez não tenham razão agora, mas são precursores. E também há que acabar com o fanatismo, irmão da hipocrisia, que é a mais hermética e inquebrantável carapaça em que podemos mumificar a alma” (António José Saraiva, “Maio e a Crise da Civilização  Burguesa”, idem, p. 69).

 

Apresenta o conceito de “minoria atuante” com o qual pretende observar os grupos de elite que se encontram na política.

 

António José Saraiva, Historiador de Cultura, é um nome incontornável do século XX português. Além da colaboração intensa na famosa  “História da Literatura Portuguesa” ( Porto editora, 1955), juntamente com Óscar Lopes, é um  estudioso da “personalidade” específica da cultura lusa , ao mesmo tempo que vai observando  a Europa e Espanha. Vê aí a “insularidade”, o “complexo de ilhéu”, a “saudade”, a espiritualidade, o conceito de Mátria, o “aldeanismo”. Saraiva foi um escultor dos conceitos sobre cultura em Portugal, trabalhando desde Gil Vicente, até à Geração de 70, passando pelo episódio épico de Maio 68 em Paris, ou às reflexões sobre o 25 de Abril em Portugal.

 

Bibliografia

 

Calafate, P. (2006). Portugal como problema – Século XX: Os dramas de alternativa. Lisboa : Fundação Luso-Americana.
Saraiva, A. J. (1972). Para a história da cultura em Portugal. Lisboa : Europa-América.
Saraiva, A. J. (1994). A Cultura em Portugal – Teoria e História. Lisboa: Gradiva.
Saraiva, A. J. (1942). Gil Vicente e o Fim do Teatro Medieval. Lisboa.
Saraiva, A. J. (1956). O Humanismo em Portugal. Lisboa: Europa-América.
Saraiva, A. J. (1969). Inquisição e Cristãos-Novos. Lisboa : Estampa.
Saraiva, A. J. (1970). Maio e a Crise da Civilização Burguesa. Lisboa: Europa-América.
Saraiva, A. J. (1977). Herculano e o Liberalismo em Portugal. Amadora : Bertrand.
Saraiva, A. J. (1979). A Épica Medieval Portuguesa. Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa.
Saraiva, A. J. (1990). A Tertúlia Ocidental. Lisboa: Gradiva.
Saraiva, A. J. (1990). O Crepúsculo da Idade Média em Portugal. Lisboa: Gradiva.
Saraiva, A. J. (1996). O discurso Engenhoso. Lisboa: Gradiva.
Lopes, O. & Saraiva, A. J. (2001) História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto Editora(1955).

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH

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