ANO 4 Edição 64 - Janeiro 2018 INÍCIO contactos

Adelaide Ivánova


Poesia, videopoesia

a banana

 

no porão tinha
uma mala dentro dela
josefine
que aí se escondia com
a ajuda da mãe para
que não fosse estuprada
afinal só se estupra alguém
que se acha o destino da
mãe não se sabe mas
josefine
está bem obrigada aos 11 anos
comeu banana pela
primeira vez oferecimento do
oficial francês que também
dava abortos às alemãs
que não tinham martelos
ou malas.

 

 

 

 

para laura

 

em 1998 quando encontraram
o corpo gay de matthew shepard
sua cara tinha sangue por todo lado
menos duas listras
perpendiculares
que era por onde suas lágrimas
haviam escorrido
naquele dia o ciclista
que o encontrou não
ligou para polícia logo que o viu
porque o corpo de matthew
estava tão deformado
que o ciclista achou ter visto
um espantalho

 

sábado passado em são paulo
a polícia matou laura
não sem antes
torturá-la laura
foi filmada ainda viva
por outro sujeito
que em vez de ajudá-la
postou no youtube o vídeo
d'uma laura desorientada
e quem não estaria
tendo sangue na boca e na parte
de trás do vestido

 

laura tem um corpo
e um nome que lhe pertencem
laura de vermont presente!
foi assassinada pela nossa indiferença
e pela polícia brasileira
tinha 18 anos
sábado passado.

 

 

 

 

o urubu

 

corpo de delito é
a expressão usada
para os casos de
infração em que há
no local marcas do evento
infracional
fazendo do corpo
um lugar e de delito
um adjetivo o exame
consiste em ver e ser
visto (festas também
consistem disso)

 

deitada numa maca com
quatro médicos ao meu redor
conversando ao mesmo tempo
sobre mucosas a greve
a falta de copos descartáveis
e decidindo diante de minhas pernas
abertas se depois do
expediente iam todos pro bar
o doutor do instituto
de medicina legal escreveu seu laudo
sem olhar pra minha cara
e falando no celular

 

eu e o doutor temos um corpo
e pelo menos outra coisa em comum:
adoramos telefonar e ir pro bar
o doutor é uma pessoa
lida com mortos e mulheres vivas
(que ele chama de peças)
com coisas.

 

 

 

 

o cachorro

 

a mulher do grupo
de ajuda é boa como
um cão preciso encontrar
esteio e ela me conforta
adivinhando a primeira obsessão
não se avexar tudo
voltará ao normal
não acredito mas parece
fazer sentido se fizer
algum sentido que hoje
não dou como sei que
gosto e Humboldt fode
como fodem os
maridos.

 

 

 

 

a sentença
         duas releituras de duas odes de ricardo reis
 
I
pesa o decreto atroz, o fim certeiro.
pesa a sentença igual do juiz iníquo.
pesa como bigorna em minhas costas:
         um homem foi hoje absolvido.

 

se a justiça é cega, só o xampu é neutro:
quão pouca diferença na inocência
do homem e das hienas. deixem-me em paz!
         antes encham-me de vinho

 

a taça, qu'inda que bem ruim me deixe
ébria, console-me a alcoólica amnésia
e olvide o que de fato é tal sentença:
         a mulher é a culpada.

 

 

 

II
pese do fiel juiz igual sentença
em cada pobre homem, que não há motivo
para tanto. não fiz mal nenhum à mulher e
         foi grande meu espanto

 

quando ela se ofendeu. exagerada, agora
reclama, fez denúncia e drama, mas na hora
nem se mexeu. culpa é dela: encheu à brava
         a garbosa cara.

 

se a justiça é cega, só a topeira é sábia.
celebro abonançado o evidente indulto
pois sou apenas homem, não um monstro! leixai
         à mulher o trauma.

 

 

 

 

o ministro

 

pudessem os homens brancos em bruxelas
e thomas de maizière ouvir este meu poema
estaria resolvido o problema das fronteiras
veja bem sr. ministro
em minha cama não se pede visto já troquei
lençóis e fronhas sujos de sêmen made in
espanha hungria áustria zimbábue iraque
alemanha fazemos a alegria uns dos outros
e diga-me sr. ministro
se não fôssemos nós quem mais a faria? e quem
faria o crescimento dos seus índices demográficos?
segundo fatou diome deste somos
40% responsáveis diga mesmo sr. ministro
sem nós expatriados de onde viriam tantas delícias
as teses os ensaios a vida as baladas os bares e os
quadros com os quais lucram vossos museus
de onde viriam os livros premiados com os quais
lucram ou lucravam suas poeirentas livrarias?
haveria para pasolini este homem europeu um futuro
mais duradouro tivesse pasolini se refugiado?
talvez fosse morto na síria na líbia ou na casa
de caralho menos por ser refugee e mais por ser
viado (sim outro grande problema mas esse não é
hoje o foco do poema) já deitei em futons tapetes
colchões e carpetes de toda sorte de gente inclusive
os de budapeste os mais cabrões atualmente
(os jogadores de golf de melilla não são menos sinistros)
o segredo sr. ministro
deixa eu explicar é abrir fronteiras e coração sermos
bons como lou salomé que fez a caridade de comer
nietzsche e para o próprio deleite ainda deu pra rée e (dizem)
rilke sermos bons com quem vier não importando a cor
do passaporte nem do sujeito apenas dando muito seja lá
do quê - um visto um teto um trabalho um hallo um meio
de transporte mais seguro e ventilado que um caminhão
um destino mais humano que o injusto e raso para onde
eu você e petra laszlo mandamos o pai em fuga e seu filho
(o chão).

 

 

 

 

o duplo

 

Fair and foul are near of kin
And fair needs foul, I cried
W. B. Yeats

 

golyádkin é golyádkin
septimus é clarissa e
neo é ao mesmo tempo
smith e mr. anderson
leão precisa de aquário
e touro faz bem pra
escorpião qual era o
signo de eva será que
dava certo com o signo
de adão?

 

para constantino
o primeiro cristão
entre estupro e adultério
não havia diferença e
em carta de abril de 1880
dostoiévski escreveu
a uma certa ekaterina
algo como a duplicidade
minha amiga é musa
e é tormenta

 

o que seria de jesus
sem judas? não sei
mas me aterroriza o
pensamento o príncipe é
uma pessoa e é isso o que nos
faz iguais paus pessoas
constantinos e outros césares
as small – they say – as I*

 

 

 

 

a mulher casada

 

sento-me
em círculo
conforme
o evento
engulo
o vinho
deposito no
cantinho
caroços
de azeitonas
controlo
o período fértil
finjo-me
cadastrada
carteirinha
de vacinada
belo
animal doméstico
celebro
banalidades
participo
da conversa
volto pra casa
de carona
e muda
tenho na cabeça
coisinhas
sexo
biquíni
navalhas
viagens
as azeitonas
os guardanapos
os óvulos
canela amêndoa
ursos polares.

 

 

 

 

a moral

 

poderia escrever    
um poema    
de amor
para o    
fato de    
que atravessamos
todas as ruas sem respeitar os semáforos eu    

 

vejo um    
atrevimento de    
sua parte
não ter   
medo de    
morrer sua    
certeza que    
os carros vão parar para você passar eu    

 

pararia eu
ainda paro    
fico olhando    
fingindo não
olhar na
contraluz os
seus ossos
seus pêlos
não aparados    
o seu pau que não chupei porque você não deixou
   

alegando não
moral mas    
sei lá    
o quê    
esqueci estava
bêbada mesmo
assim dormiu
nu bem
aqui quando    
levantou vestiu a calça sem cueca quisera eu ser esse jeans achei

 

que depois
de cruzar
todos os
sinais fechados
ao seu
lado arriscando    
minha vida
teria o direito de chupar seu pau até amanhecer mas
    

a única
coisa sua
que comi    
foi uma
mozartkugel nojenta    
com recheio
de marzipã.

 

 

 

 

o bom animal

 

quantos palmos
de largura tem
o seu quadril?
desconfio que
o meu seja
mais largo
ao menos
foi o que senti
ao sentar
em você
queria eu
ter sentado
na sua cara
gentil
como um bom animal
e submissa
como um bom animal
eu me alegraria
com sua língua em mim
e grata
como um bom animal
eu lamberia
sua cara
molhada
pegajosa
cheirando a mim
mas minha língua
minha pobre língua
só lambeu suas
pálpebras
Humbert Humboldt
eu não sou nenhuma
Henriette Herz
me deixe pousar
a cara em seu pau
e me afogar no
silêncio entre
suas coxas e testículos
sua magreza me insulta
Humboldt
mas para cada osso
Humboldt
me deixe lembrá-lo
há a carne
correspondente.

 

 

 

 

o domador

 

te estupraria
agora sei
entendo o príncipe
romano último
filho de rei
que violou criadas
esposa súditas galinhas
te estupraria
Humboldt
agora sei
de puro ódio
por não me quereres
muito embora eu tenha me arrumado
e quase pedido
muito embora essa coisa não se pede
te estupraria
Humboldt
domador de tigres
de paisagens de colchas
aos retalhos
na tua cama
te estupraria
se pudesse
por vingança
pelo não-obrigado
por teres me rejeitado
mas não tenho
corpo necessário
mal posso crer
ser algo algoz e carne
como é de carne
o último príncipe de roma
o quarto o quinto o sexto
tarquínio que me violou.

 

 

 

 

the metal project

 

the metal project from adelaide ivánova on Vimeo.

 


[retrato do fotógrafo alemão Jakob Ganslmeier]

 

Adelaide Ivánova (Recife, 1982) é poeta e fotógrafa brasileira, lançou os livros Autotomia (Pingado-prés, fotos) e Polaróides (e negativos das mesmas imagens) (Cesárea, 2014, poemas e crônicas), Erste Lektionen in Hydrologie (und andere Bemerkungen) (edição da autora, 2014, fotos) e O martelo (Douda Correria, 2016, poemas). Tem trabalhos fotográficos publicados por diversas revistas internacionais. Adelaide Ivánova vive e trabalha entre Colônia e Berlim, na Alemanha. https://adelaideivanova.com

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2018


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Foto de capa:

PIETER BRUEGEL THE ELDER, 'The hunters in the snow'


Paginação:

Nuno Baptista


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