ANO 4 Edição 64 - Janeiro 2018 INÍCIO contactos

Alexandre Brandão


Que música é essa?

A primeira vez que ouvi Itamar Assumpção, eu estava chapado, bem chapado por sinal. Da segunda, não, mas, ao ouvir sua música, ao olhar para o palco e deparar-me com um negro esquálido, potente, chapei de novo. Nada a ver com o Milton Nascimento. Nada a ver com o Cartola, com o Simonal. Itamar entrou na sala, não pela cozinha, com consentimento branco. Ele meteu os pés na porta da frente, sentou-se no meio de todos e apresentou-se como “Benedito, nego dito, cascavel”1. E ai de quem lhe tenha virado o rosto.


Eu dirigia o Corcel do Gora, havia saído da avenida Getúlio Vargas, entrado na Contorno e parado no sinal do cruzamento com a rua da Bahia. O rádio começou a tocar “Por enquanto (Mudaram as estações)”, música do Legião Urbana, banda que nunca foi das minhas preferidas. Contudo a voz da cantora era de outra natureza, cheguei a pensar que fosse a Nana Caymmi, mas logo vi que não, era só meu ouvido buscando alguma familiaridade com o que soava tão novo. No final, a rádio anunciou o nome da Cássia Eller2. A música fez sucesso, tocou a torto e a direito, acho mesmo que a cantora nunca conseguiu se livrar dela. A mim, foi isso: um dia sem importância, no qual eu dirigia pelas ruas de Belo Horizonte, tornou-se inesquecível.


Nina Simone. A história começa antes de ouvi-la. Na noite anterior, eu e um amigo havíamos entrado numa confusão terrível em Copacabana. Acabamos na delegacia. Meu amigo, militar, ficou indignado. No outro dia, ainda bêbados, fomos aonde ele trabalhava registrar uma reclamação, algo assim, e um colega de farda do meu amigo nos aconselhou severamente a cair fora dali, não seria bom sermos vistos por um superior naquele estado. Fomos então a Niterói, na casa de uma família mineira que vivia lá, casa com muitas moças. Chegamos, tomamos cerveja (como foi possível?) e, de repente, Nina Simone saiu pela caixa de som à beira da piscina, provavelmente cantando “Feeling good”3. Na hora providenciei uma fita cassete com a clara intenção de presentear minha mãe. Nina Simone me fez lembrar-me dela, embora não saiba explicar o porquê. Perdi a fita na balsa que me levou de volta ao Rio de Janeiro, senão antes.


O Alejandro foi lá para casa naquela vez que seu apartamento foi inundado por uma dessas chuvas tropicais, que caem na cidade eternamente despreparada para elas. Eu não o conhecia nem o vi chegar. Com ele estavam sua companheira e outro casal, todos moradores do apartamento submerso. Na outra manhã, vi-os espalhados pela sala, mas apenas quando voltei da escola fomos apresentados uns aos outros. O Alejandro então, bom relações públicas, puxou uma fita cassete e botou para tocar. Era o disco “80/81”, do Pat Metheny. Pode ser que o primeiro impacto tenha passado despercebido, mas, ao longo dos meses que se seguiram, eu e Gonzalo, o amigo com quem eu dividia o apartamento e que abrira a porta aos desabrigados, ficamos praticamente reféns do disco, em particular da primeira música, “Two folk songs”4. Havia no apartamento um pequeno quarto, nem meu nem do Gonzalo, onde ouvíamos música, recebíamos os amigos. Na janela do quarto, uma grade. Não falo em vão as palavras refém e grade. Eu e Gonzy, ao som do Pat Metheny, vivíamos numa espécie de prisão, até que, enfim, recebi o sorriso de uma moça, e o Gonzy de outra. Veio então uma nova fase, mas, nem assim, “Two folk songs” deixou de embalar aqueles dias de estudantes.

 

Notas

1 Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=16QbOrvJJEU.

2 Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=IflD32ahaqs.
3 Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=D5Y11hwjMNs.
4 Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=CgBzCl5HtgE

Alexandre Brandão, contista e cronista brasileiro, é autor de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio), entre outros. Mantém o blog No Osso (noosso.blogspot.com.br).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2018


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Prior       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Prior, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Janeiro de 2018:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelaide Ivánova, Adriane Garcia, Alberto Bresciani, Alexandre Brandão, Almandrade, Bárbara Bezina, Cacildo Marques, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Demétrio Panarotto, Demetrios Galvão, Denise Bottmann, Fernando Fitas, Fernando Rocha, Filipe Papança, Filomena Barata, Flávio Otávio Ferreira, Geraldo Lima, Henrique Dória, Hermínio Prates, L. Rafael Nolli, Lenita Estrela de Sá, Lyslei Nascimento, M. de Almeida e Sousa, María Elena Blanco ; Viviane de Santana, trad., Marinho Lopes, Meret Oppenheim ; Katyuscia Carvalho e Malu Strauss, trad., Micheliny Verunschk, Moisés Cárdenas, Natalia Borges Polesso, Nathalie Lourenço, Oscar Steimberg ; Rolando Revagliatti, Patrícia Porto, Ricardo Ramos Filho, Rosane Carneiro, Sandra Santos, org., Silvana Guimarães


Foto de capa:

PIETER BRUEGEL THE ELDER, 'The hunters in the snow'


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR