ANO 4 Edição 64 - Janeiro 2018 INÍCIO contactos

Denise Bottmann


Ao farol, uma leitura

To the Lighthouse, de Virginia Woolf, foi lançado em maio de 1927 pela Hogarth Press, a editora do casal Virginia e Leonard Woolf, numa tiragem inicial de 3 mil exemplares, com reimpressão no mês seguinte. Saiu nos EUA também em 1927, com tiragem inicial de 4 mil exemplares e pelo menos mais cinco reimpressões no mesmo ano. Aqui com a sobrecapa feita por Vanessa Bell, irmã de Virginia.

 

 

Obra permeada de citações, temos lá Tennyson, os irmãos Grimm, Shelley, Charles Elton, Shakespeare, Walter Scott, Cowper, Wordsworth, Liév Tolstói, William Brown, sem contar as várias menções ao ciclo arturiano e à Bíblia. Vejamos alguns aspectos.

 

ONDE

 

   *    Um local indeterminado na costa das Ilhas Hébridas, adiante do qual se estende uma baía e, além, um farol.

 

Tida como a obra mais autobiográfica de Woolf, note-se que sua ambientação nas Ilhas Hébridas é inspirada em St Ives, na costa da Cornualha, onde os pais de Virginia alugavam uma casa para a temporada de verão.

 

QUEM

 

   *   a família Ramsay: Mrs. Ramsay, Mr. Ramsay e os oito filhos, Cam, Prue, Rose, Nancy, James, Andrew, Jasper, Roger;

   *   empregadas e ajudantes eventuais: Mildred, a moça suíça, Mrs. McNab, Mrs. Bast;

   *   hóspedes e visitantes: Lily Briscoe, Minta Doyle, Mr. William Bankes, Mr. Augustus Carmichael, Charles Tansley, Paul Rayley;

   *   MacAlister, pescador e dono do veleiro que faz a travessia até o farol, seu filho, também pescador;

   *    o encarregado do farol e seu filho, apenas citados e vistos ao longe;

   *   vários figurantes secundários, apenas citados: a copeira Marthe; o pintor Mr. Paunceforte; Elsie, moradora local pobre e doente; o casal Doyle; tia Camilla; a família de Charles Tansley; a esposa falecida de Mr. Bankes; o criado de Mr. Bankes; os jardineiros Kennedy, George e Davie MacDonald;   o homem maneta colando o cartaz; o operário cavando um dreno; grupos não identificados de intelectuais, estudantes, operários, garçonetes etc.

 

Aliás, o barco pesqueiro de MacAlister, no qual Mr. Ramsay, Cam e James finalmente vão ao farol, devia ser um dos últimos a usar velas. A partir de 1910, os pesqueiros passaram a ser majoritariamente a motor, e em 1914 a pesca a linha tradicional das Ilhas Hébridas praticamente se extinguira (no livro, em 1918, o filho de MacAlister ainda pesca a linha segundo a tradição).

 

QUANDO

 

   *   Parte 1, “A janela”: um dia em meados de setembro de 1908, começando à tarde (duas, três horas?) e se prolongando até algum momento passada a meia-noite;

   *   parte 2, “O tempo passa”: dez anos sumariados em dez capítulos, de setembro de 1908 a setembro de 1918;

   *   parte 3, “O farol”: um dia de setembro de 1918, antes das 7 da manhã até por volta do meio-dia.

 

Note-se que a seção do meio, Time passes, cobrindo os dez anos de intervalo entre a primeira e a terceira seções, está disposta em dez capítulos. Não é casual, é deliberado, como se pode ver pelo manuscrito, que traz um plano geral para a composição da segunda parte, especificando: “Ten Chapters Now the question of the ten years”.

 

CROMATISMOS

 

Romance manifestamente pictórico, destaca-se a insistente presença das cores.

   *   Branca é a fachada da casa; branca é a tela de Lily; brancas são as flores da grinalda com que Mrs. Ramsay segue pelo campo da morte (quase uma "noiva da morte", uma Perséfone); brancas as flores da árvore que Mrs. Ramsay escala mentalmente ao ler um soneto de Shakespeare; branca é a crista das ondas que cercam a ilha, o farol, os pensamentos e os sentimentos;

   *   roxa é a clematite que reveste a frente da casa; roxas são suas flores e a paixão que Lily sente por Mrs. Ramsay, roxa será a sombra no quadro de Lily para representar Mrs. Ramsay; roxo é o mar tempestuoso no conto dos Grimm e roxa a mancha no mar durante a guerra; roxa (com amarelo) é a fruteira no centro da mesa de jantar, e também as uvas na fruteira, que evocam a Mrs. Ramsay a lembrança de um quadro de Baco, provavelmente um Caravaggio; roxa era a capa do livro com que passeava o fanático e ardoroso Charles Tansley; roxo o figurativo pé esmagado pela insensibilidade de Mr. Ramsay.

   *   azuis são o céu, as águas da baía, as ondas do mar, as nuvens, algumas névoas distantes, vapores no horizonte, os olhos de Mrs. Ramsay (que às vezes se acinzentam), mas também de Mr. Ramsay (miúdos), de James Ramsay (intensos e puros), de Mr. Bankes (claros), de Charles Tansley (fundos e amedrontadores), de Paul Rayley (brilhantes); a faixa azul da jarreteira da Rainha Vitória, pratos de porcelana, a plumagem de algum pássaro, tinta na paleta e na tela de Lily Briscoe. O azul parece remeter ao sentido da visão e sobretudo a vagueza, delicadeza, beleza, distância, indistinção; se não diretamente feminino, vem muitas vezes associado à feminilidade e à sensibilidade.

   *   vermelha é a masculinidade, seja como gênero sexual, símbolo de autoridade ou agressividade, a grosseria ou a rusticidade: o vermelho do arminho no tribunal;  os gerânios vermelhos companheiros de reflexão de Mr. Ramsay; a cara vermelha de raiva de Mr. Ramsay à mesa de jantar; o tecido vermelho dos assentos nos bares enfumaçados que Rayley irá frequentar; as flores vermelhas ao lado das amarelas ou brancas na escalada shakespeariana de Mrs. Ramsay, bem como os vermelhos e azuis no cartaz anunciando o circo, em todas essas ocorrências sugerindo uma composição masculino/feminino; o rosto rubicundo da faxineira Mrs. McNab; acima de tudo, a meia marrom-avermelhada (reddish-brown) que Mrs. Ramsay tão femininamente tricota para entregar ao pai do menino no farol, e em particular os red-hot pokers [nossos lírios-tocha], tão eretos e verticais, de um vermelho tão incandescente, entre a sebe que fecha o terreno da casa: “[...] aquela brecha na sebe densa, guardada por lírios-tocha vermelhos como braseiros de carvão incandescente, entre os quais as águas azuis da baía pareciam mais azuis do que nunca”.

 
A propósito dos lírios-tocha, é interessante pensar em sua dupla função: é por onde se passa na entrada que dá acesso ao terreno da casa com sua fachada branca, mas também na saída para a baía e suas águas sempre azuis, de onde se enxerga o farol.

 

Ainda sobre o simbolismo das flores e das cores:

   *   A propósito do roxo como cor da paixão, vale lembrar que o roxo é a mistura do vermelho (masculino) e do azul (feminino);

   *   se o branco, soma de todas as cores, é o que caracteriza a casa, a tela e o farol à distância, vale lembrar que o asfódelo, flor que simboliza a morte, também é branco;

   *   en passant, o farol parece branco apenas à distância; conforme se aproximam dele, vê-se que tem faixas pretas - no outro extremo, ausência de cor, o simétrico inverso do branco;

   *   Mr. Ramsay, no final, depois de chegado ao farol, deixa tombar de sua altura (tanto da altura em que está, o alto da pedra, quanto da altura de seu intelecto, de sua "mente esplêndida") o tributo derradeiro à beleza do mundo, personificada pela falecida Mrs. Ramsay: uma coroa de asfódelos brancos e violetas roxas, e assim Mr. Ramsay consegue se reconciliar com a vida e com a morte.

 

Por fim, um aspecto sugestivo é que o livro começa e termina com duas frases iniciadas por um “sim”, pelas duas protagonistas, Mrs. Ramsay e Lily Briscoe: “‘Yes, of course, if it's fine tomorrow,’ said Mrs. Ramsay” e “Yes, she thought, [...] I have had my vision”.

 

         Se lembrarmos a angústia de Lily: "Era naquele momento fugidio entre a imagem e a tela que se via atacada pelos demônios que tantas vezes a levavam à beira das lágrimas e faziam dessa passagem da concepção à execução algo tão assustador quanto, para uma criança, seguir por um corredor escuro", de fato chega a ser emocionante que ela tenha conseguido terminar o quadro, tenha conseguido pôr na tela a apaixonada visão que lhe assombrava a mente.

 

Denise Bottmann nasceu em Curitiba em 1954Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR,1981). Mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1985). Doutorado inconcluso em Filosofia (UNICAMP). Tem experiência na área de docência e pesquisa em História e Epistemologia das Ciências Humanas. Atua na área de tradução de obras de literatura e humanidades desde 1984. Atualmente dedica-se a atividades de tradução e pesquisas sobre a história da tradução no Brasil.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2018


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PIETER BRUEGEL THE ELDER, 'The hunters in the snow'


Paginação:

Nuno Baptista


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