ANO 4 Edição 63 - DEZEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Beatriz Leal


O desenho de Luís

“Três latas de tinta branca, um rolo para pintura, e um fim de semana inteiro para pintar um muro e duas portas de banheiro”, dizia o bilhete da escola. “O que é isso aqui, meu filho?”, perguntei a Luís, que não me respondeu.

 

A coordenadora do Ensino Fundamental me mostrou o muro pichado: o símbolo marcado umas sete vezes. Depois carimbado nas portas de banheiros de dois andares diferentes. “Tem certeza de que foi o Luís?”. “Dê uma olhada nos livros dele”. Cheguei em casa, abri o de Matemática. Dezenas do símbolo estampado nas páginas, também nos livros de História, Geografia e nos cadernos.

 

O que ele estava tentando comunicar? O que ele andava lendo? Quem era meu filho, afinal? Gritei com Luís. Ele se fechou no quarto e, como com frequência, chorou. Tentei amansar a voz, entrei no quarto com uma folha em branco e pedi para ele me ensinar a fazer.

 

- Se você olhar bem, mãe, são dois desenhos, duas pecinhas de Tetris, desenhadas ao contrário uma da outra, uma em cima da outra, cruzando bem no meio, perpendiculares.

 

- E por que desenhar tantas vezes? Olha só seus livros como estão…

 

- Quando o professor fica só falando para a gente ouvir, fico desenhando, que é para me forçar a prestar atenção.

 

- E por que esse desenho?

 

- Não sei, mãe. Acho que inventei. Aí fiquei tentando desenhar perfeitamente, sem réguas. Está vendo como melhorei? Se você for lá na página tipo cem do livro de Matemática, vai ver que tá bem mais perfeito do que na página 40. As linhas estão perfeitamente retas, cruzam-se no meio. E os ângulos… São oito ângulos retos! E olha como já estou conseguindo fazer perfeito, sem régua. Aí, se você olhar direito, tem um losango escondido nesse desenho. Como se cada lado do losango tivesse sua linha desenhada só até a metade. E aí, se você completa essas linhas, tchan-rã! Um losango! E aí você descobre mais quatro ângulos retos escondidos! Não é legal?

 

- Mas filho, é um símbolo muito feio…

 

- Como, mãe?! —  Ele me interrompeu de forma abrupta e me assustou um pouco  - Oito ângulos retos! Eu gosto! E fui eu que inventei.

 

- Não filho, não foi você quem inventou. Deve ter visto em algum lugar…

 

- Não mãe, fui eu que inventei.

 

- E por que você pichou isso pela escola?

 

- Depois que o Tiago viu meu livro de Português todo rabiscado, cochichou com o Lucas e com o Edu. Qualquer pessoa que folheasse algum dos meus cadernos, começava a me olhar estranho. Mas sabe que foi bom, mãe? Pararam de ficar pedindo minhas lições de casa para copiar. O problema foi quando chegou nas meninas e a Júlia, que senta lá na frente, sabe?, contou para a professora, que gritou comigo na frente de todo mundo. “Você sabe o que isso significa?!”.

 

- E o que você respondeu?

 

- Nada, né mãe. Queria dizer “significa que sua aula é chata”, ou que eu gosto de desenhar a mesma coisa diversas vezes até ficar perfeito. Mas não consegui falar nada.

 

- E aí você chorou?

 

- Na frente da sexta série inteira.

 

- Mas então por que você não parou de fazer o desenho?

 

- Porque é meu desenho, mãe. São oito ângulos retos mais quatro secretos!

 

- E as pichações?

 

- Eu queria que as pessoas vissem que meu desenho é muito legal.

 

- E você não conseguiu explicar, que nem está fazendo agora para mim…

 

- Ninguém ouve, mãe. Ninguém me deixa completar as frases ... — E aqui ele foi aumentando a voz. Luís detesta ser interrompido — Ninguém me ouvia e só ficavam dizendo que era feio, que era feio, as professoras gritavam, me mandavam para a coordenação, e eu não conseguia entender por que eu tinha que parar de desenhar um desenho tão bacana, são oito ângulos retos!

 

- Filho, então vamos fazer o seguinte... Vou te ensinar um desenho que é bonito, que vai compensar toda essa situação... Aí nenhuma professora vai gritar com você de novo, que tal?

 

- Tem ângulos retos?

 

- Retos não, mas complementares. Mais legal, né?

 

- Mas se não são retos, vou precisar de transferidor…

 

- Só no começo, Luís, depois você aprende a fazer sozinho.

 

- E como é esse desenho?

 

- São dois triângulos. Um em cima do outro, um virado para cima e o outro virado para baixo. Tipo o seu desenho, duas formas iguais, uma para um lado e a outra para o outro, sobrepondo-se, de forma que tudo fique perfeitamente simétrico.

 

- Ok, estou ouvindo…

 

- É isso, acabou. Um triângulo para cima, depois outro para baixo, um em cima do outro. Faz aí. Você vai ver, forma uma estrela!

 

Luís desenhou. O primeiro ficou meio mais ou menos, embora ele já fizesse as linhas perfeitamente retas. O difícil era colocar um triângulo sobre o outro cruzando as linhas nos pontos exatos.

 

- Gostei, mãe... Mas vai demorar para eu ficar bom nisso. - Ufa, pensei, vai mantê-lo ocupado - Mas mãe, por que inventaram que aquele desenho era feio e que esse agora é que é bonito?

 

Expliquei, ele ficou muito sensibilizado com a história, motivo pelo qual eu evito o mundo para ele. A cada acontecimento histórico que “aconteceu de verdade, mãe?”, sim aconteceu de verdade, são algumas noites sem dormir, livros e filmes que temos de assistir juntos, obsessivamente, até esgotar o assunto e ele voltar a ter paz, sabendo que aquele episódio  —  Holocausto, Hiroshima, romanos perseguindo cristãos, cristãos perseguindo protestantes, mulheres em fogueiras…  —  terminou no mundo. Não sei o que fazer para ensiná-lo a viver em um mundo onde a história ainda não parou de acontecer.

 

Algumas semanas depois, fui dar uma olhada nos livros do Luís, coisa que eu sempre deveria ter feito. As estrelas de seis pontas estavam lá, obsessivamente perfeitas. Só que agora cada uma vinha acompanhada de uma meia-lua crescente à esquerda. Qual será a desculpa dessa vez…? Lua não tem ângulo.

 

Beatriz Leal é brasileira, nasceu em São Paulo, em 1985, e chegou em Brasília em 2004. É autora do romance Mulheres que mordem (2015), indicado para o 58o Prêmio Jabuti e segundo lugar do International Latino Book Awards. Conto de sua autoria recebeu o prêmio de primeiro lugar – de 1.274 contos inscritos - no 14o Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães (Passo Fundo, 2017). Escreveu o texto de curadoria e editou o catálogo da exposição A Cara de Brasília (2014). É jornalista, com especialização em Relações Internacionais, Comunicação Pública e com pós-graduação em Gestão de Políticas Públicas em andamento.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2017


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Paginação:

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