ANO 4 Edição 63 - DEZEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Recortes sobre o Mestre Antonio Candido

Morto em maio de 2016, aos 98 anos, o crítico Antonio Candido revive em cada página que dele lemos e relemos. Relê-lo é relembrá-lo e irrigar nossa leitura com a seiva lúcida de sua presença espiritual, que não se ausenta.    A primeira vez em que li alguma coisa de Antonio Candido, foi num livro de Carlos Drummond de Andrade, Rosa do povo, exatamente no poema “O medo”, que trazia essa citação em epígrafe: Porque há para todos nós um problema sério...Este problema é o medo. Antonio Candido, Plataforma de uma geração. Confesso que, naquela época, pouco me importava com as epígrafes, sedento que era do poema drummondiano, impressionado com os versos: E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo...E, se desprezei cândida e ingenuamente o nome do autor da epígrafe, iria me redimir algum tempo depois, descobrindo que, mais do que um farol para esse poema, Antonio Candido iria se tornar um verdadeiro holofote para que eu tivesse uma compreensão mais profunda de toda a obra do Carlos, principalmente a de dimensão familiar e social.  O nome do crítico, mediado pelo poema - ou o poema, mediado pela citação do crítico -iria me ensinar a mais elementar e profunda pedagogia: o texto artístico caminha junto com o texto ensaístico, a arte e a interpretação são indissociáveis, um ilumina e é iluminado por outro.


         
Há um pequeno livro do mestre, chamado Iniciação à Literatura Brasileira, que é um modesto resumo para principiantes, mas que faz qualquer iniciado sentir-se também um iniciante. A gente degusta o livrinho, revê alguns conceitos, aprende outros, percebendo mais uma vez que, atrás de um estilo simples e direto, Antonio Candido é um crítico profundo, alargador de horizontes para o estudioso de nossa literatura. Temos a impressão de ter o mestre ao nosso lado, com a voz mansa, ensinando a respeito do processo de formação de uma literatura derivada como a nossa:

 

          De que maneira ocorreu este processo, que não é necessariamente um progresso do ponto de vista estético, mas o é certamente do ponto de vista histórico? Poderíamos talvez esquematizá-lo, distinguindo na literatura brasileira três etapas: (1) a era das manifestações literárias, que vai do século XVI ao meio do século XVIII; (2) a era da configuração do sistema literário, do meio do século XVIII à segunda metade do século XIX;                
          (3) a era do sistema literário consolidado, da segunda metade do século XIX aos nossos dias.

 

Esse mestre não deixa distanciar a relação entre vida e literatura, formação humana, formação social, formação literária. Termo fundamental, enraizado no título de um dos seus grandes livros, Formação da Literatura Brasileira, em Candido a formação é ação e transformação, deixando claro que a forma é essencial, integrada ao conteúdo. Rastreando rapidamente alguns títulos de sua obra, não há como não ver essa bonita parceria entre o rio do texto e o rio da vida: Brigada ligeira, Vários escritos, Ficção e confissão, O discurso e a cidade, Os parceiros do Rio Bonito, Tese e antítese, A educação pela noite, Literatura e sociedade, Na sala de aula...


              Nós, mineiros, temos orgulho de saber que Antonio Candido nasceu em Cássia (1918) e, aos onze anos, mudou-se para Poços de Caldas. Completa seus estudos em São Paulo, formando-se em Filosofia e Ciências Sociais. Vai entrar nas veredas da literatura pelas mãos da sociologia. Funda a revista Clima, em 1941, com Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes e outros. Pelo título da publicação, vê-se que a integração texto e contexto era absoluta. Participa do grupo clandestino Frente de Resistência, opondo-se ao governo ditatorial de Getúlio Vargas. A revista dura 16 números, resistindo até novembro de 1944. O poema de Carlos Drummond de Andrade é dessa época, e dele extraio outros versos: Assim nos criam burgueses. Nosso caminho: traçado. E busco traçar meu itinerário pelas vários escritos do mestre que, sem dúvida, foi o crítico que melhor estabeleceu a conexão entre valores estéticos, teóricos e políticos. Sua militância é vívida: participou a fundação de dois partidos políticos: em 1947, do Partido Socialista Brasileiro; em 1980, foi membro fundador do PT. Como crítico, professor e historiador da cultura e da literatura, renovou os estudos literários - pois Antonio Candido sempre pôs a literatura como tema central de reflexão, soube conciliar a experiência afetiva e racional na construção de um discurso interdisciplinar. Como observa Silviano Santiago, Candido associa Estética e História, Sociologia e Psicologia, Economia e Filosofia, Lingüística e Antropologia, harmonizando, com isso, o máximo da vida e o máximo de ordem mental. Um trecho de Candido, evidencia, sobretudo, a preeminência e a múltipla funcionalidade do discurso literário:

 

Constatamos de início que as melhores expressões do pensamento e da sensibilidade têm quase sempre assumido, no Brasil, forma literária. Isto é verdade não apenas no romance de José de Alencar, Machado de Assis, Graciliano Ramos; para a poesia de Gonçalves Dias, Castro Alves, Mário de Andrade, como para Um Estadista do Império, de Joaquim Nabuco, Os sertões, de Euclides da Cunha, Casa-grande e Senzala, de Gilberto Freyre - livros de intenção histórica e sociológica. Diferentemente do que sucede em outros países, a literatura tem sido aqui, mais do que a filosofia e as ciências humanas, o fenômeno central da vida e do espírito.( Literatura e cultura- de 1900 a 1945)

 

          Lecionando literatura na USP, Candido recusou-se a ficar rotulado como teórico: foi um crítico que ensinava a teoria. Como escreveu muito tempo para jornais, desestabilizou a dicotomia entre teoria e prática: seus textos aproximam escritor e público, o crítico constrói uma visão adequada de mundo, ajustada a seu tempo, recorrendo a variados instrumentos de análise. Particularmente, me tocam muito os estudos que o mestre fez de alguns de nossos poetas: só fui entender Drummond, depois da profunda análise, publicada em Vários escritos, de onde colho este trecho:

 

          E é sem dúvida curioso que o maior poeta social da nossa literatura contemporânea seja, ao mesmo tempo, o grande cantor da família como grupo e tradição.

 

Célia Pedrosa, em sua tese Antonio Candido: a palavra empenhada, vê em Carlos Drummond, poeta lírico e modernista, como símbolo máximo do empenho crítico que caracterizou a geração de Antonio Candido. E é no ensaio “Inquietudes na poesia de Drummond”, onde o Mestre estabelece os vínculos entre experiência literária e existencial - individual e coletiva - na construção do discurso lírico. Observa Célia Pedrosa que Candido rastreou no itabirano o discurso como forma de viagem, cujo roteiro conjuga maneiras diferentes de convívio polêmico: seja no espaço geográfico ( entre Minas e o mundo, a fazenda e a cidade, a montanha e o mar); seja no curso temporal ( entre o passado e presente, entre o presente e futuro, entre a infância e maturidade); seja na vida social ( entre a ordem tranqüila da família patriarcal e a complexa instabilidade de outros laços afetivos e culturais); seja no interior de sua própria identidade individual ( entre os vários aspectos de sua  personalidade, entre a consciência do eu  e o apelo do nós ).


          A clareza sempre norteou o estilo desse mestre. Ao valer-se da psicanálise, não obscureceu as análises com “psicologismos” ilegíveis. Toma-se, como exemplo, um trecho da saborosa interpretação que fez do poema “Meu sonho”, de Álvares de Azevedo, publicada em Na sala de aula:

 

          “O “Eu”, que o vê desenfreado, sente remorso (...) porque está desejando praticar, ou efetivamente praticando, um ato que considera reprovável e merecedor de castigo. Que este ato seja de sexo, parece claro devido à conjugação de dois elementos de valor simbólico em contexto de sonho, isto é, em contexto de mensagem cifrada cujo código se pode encontrar. Refiro-me a “espada sangrenta”, órgão da virilidade, e ao seu       correlativo “vale”, a que equivaleria de modo metonímico “trevas impuras”, ambos simbolizando os órgãos sexuais femininos. De fato, correlacionando estes elementos, é sugestivo que uma espada ensangüentada, violadora, animada pela força vital do cavalo,       penetre ( como numa bainha, em latim “vagina”) no vale escuro de trevas impuras (visão depreciativa e pecaminosa da genitália da mulher)

 

Poderia alongar por páginas e páginas trechos de Candido, analisando e ousando nas investigações sobre nossas letras. Não há como negar, na formação de todos nós, professores de Literatura Brasileira, a incisiva presença desse mineiro de Cássia, suas sábias palavras, claras exposições, como nessa síntese a respeito dos romances de José de Alencar:

 

           O Alencar dos rapazes, heróico, altissonante ( O Guarani); o Alencar das mocinhas, gracioso, às vezes pelintra, outras, quase trágico ( A viuvinha); o Alencar dos adultos, formado por uma série de elementos pouco heróicos e pouco elegantes, mas denotadores dum senso artístico e humano que dá contorno aquilino a alguns dos perfis de homem e de mulher.( Senhora; Lucíola).


          Antonio Candido soube bem analisar autores do Modernismo brasileiro, como Mário e Oswald de Andrade. Desde os bancos da faculdade, afligia-me a hesitação entre optar por um desses dois paulistas: Mário ou Oswald de Andrade? Ambos, como se sabe, apesar do sobrenome igual e da cumplicidade no movimento modernista, terminaram brigados, morreram “de mal” um com outro. Pois foi Antonio de Candido, mineiro apaulistado, amigo de ambos, que nos dá a receita para saber  conciliar os dois Andrades:

         
Se vocês estão querendo saber qual dos dois acho mais importante, direi o seguinte: dependo do momento e do ponto de vista. Para quem estiver preocupado com os precursores de um discurso em rompimento com a mimese tradicional, seria Oswald.
          Para quem está interessado em um discurso vinculado a uma visão de mundo no Brasil, seria Mário. (...) Em resumo, foram dois grandes homens, sendo irrelevante “optar” entre eles. Historicamente, não se pode compreender o movimento modernista sem ambos.
( Entrevista à revista Trans- form- ação )

 

          Aliás, por falar em Oswald, é inacreditável o número de pessoas que pronunciam o primeiro O  como se fosse tônico, Ôswald, enquanto o certo é enfatizar a tônica no a, Oswáld, como defende Candido, inclusive num ensaio em Recortes. Em seu depoimento sobre o Mestre, a pesquisadora Telê Ancona Lopez afirma: Ser aluna de Antonio Candido é falar “Oswáld” e não “Ôswald”. Eu, que tenho um filho chamado Oswaldo, fiquei particularmente grato ao Mestre, quando li em Recortes um suculento ensaio em torno desse nome. E, principalmente, quando fui deparando com citações que Candido ia fazendo de um livro pouco “literário”, mas prenhe de informações sobre as memórias e tradições da família Junqueira. E anota o crítico que “senhoras de Baependi e Aiuruoca estavam sendo inovadoras, estavam introduzindo um nome antes inexistente por lá e que depois se tornou quase banal...
Mineiro é assim: enfeitiça-se logo se sua terrinha ou adjacências vêm à baila, não importa o assunto. E Antonio Candido, ao estudar João do Rio, fala de Caxambu ( que, como Baependi e Airuoca, fica perto de minha terra, Cruzília). Candido, comentando sobre a mais famosa das estâncias brasileiras do século passado, escreve sobre os chalés, surgidos no decênio de 1880, tão adequados ao cenário da montanha. Como não ter simpatia por alguém que, entre ditos eruditos, nos conduz à nossa terra e à nossa gente?


           Os antigos chalés de Caxambu... os derrubados chalés de Cruzília... e o Mestre nos acenando para a capacidade de perceber que a produção literária mantém uma relação contraditória com a realidade empírica. Quando li, no chalé de meu avô, as Memórias de um sargento de milícias, jamais imaginaria que, por detrás daquelas cenas de comédia pastelão, haveria tanta malandragem que seria estudada pelo prisma da dialética, captada pelo aguçado olhar de Antonio Candido. Para este crítico, como vê Célia Pedrosa, o dado empírico funciona como estímulo da sensibilidade estética, da capacidade analítica e dos imperativos éticos do crítico. O livro de Manuel Antonio de Almeida possibilita a Candido a discussão e questionamento da literatura erudita e burguesa: nas Memórias, os valores e práticas populares são revelados como livres de qualquer enfoque restritivo ou paternalista, tanto da parte do narrador como da parte do intérprete. Candido analisa a estrutura narrativa convencional como fusão inovadora de elementos clássicos e folclóricos, ficcionais e jornalísticos, antigos e atuais, a partir de um ponto de vista simultaneamente realista e reprodutivo e cômico e contestador. Hoje, o romance picaresco de Manuel Antonio de Almeida é um clássico que teria que apresentar, como definitivo prefácio, o ensaio “Dialética da malandragem”. É aqui que se traça o contundente estudo do Leonardo, o anti-herói malandro, que se move espertamente por entre os limites da ordem familiar e social, seguindo e arrastando companheiros, desrespeitando valores, rompendo com funções e espaços estabelecidos. Antonio Candido propõe a dialética entre a ordem e a desordem, avalia o significado político da indisciplina que reina ao longo do discurso ficcional, descobrindo nas questões estéticas as reflexões de caráter sociológico. Assim, como crítico e professor, Candido nos ensina que entre nós e o texto há a História, a Sociedade, a Política, a Cidade. Ler, então, passa a ser um permanente projeto de transformação, a nos instigar a provocar dúvidas onde as certezas teimam em ser mumificadas.

 

P.S.: A primeira versão desse texto foi publicada em 1998, na revista brasiliense Tira Prosa, organizada pelo inesquecível Jorge Ferreira, proprietário do restaurante Feitiço Mineiro.

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2017


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