ANO 4 Edição 63 - DEZEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Carol Piva


Cobrir (com silêncio) dia-após

(cenas de) um casamento

 

dia desses fiz anos
nunca fui de (reclamar)
rituais (presentes) pujanças

 

(sábado era para ser) dia de feira
e de encostar o corpo (uma na outra)
por descanso (com prazer) ou improviso-nosso

 

(as manhãs e) tardes ditas-úteis
passamos em obrigações
a rotina pedindo (seus fôlegos)

 

(os dias muitos) tenho a impressão de que você nem vê
mas chega em casa tão desatenta
(sem intensidade)

 

não fez questão do meu aniversário (dia desses) —
tantos (outros)
mais cruciais...

 

e terá com outras —
os sossegos
harmonias (regozijos)

 

e você ainda os relata (sem que eu saiba)
a quem (mesmo à distância) comanda —
os seus dias-em-dias

 

(a sua oferta generosa) de afagos e histórias e abraços que não são para mim

 

 

(judiaria)

 

deve ser porque tenho as mãos finas
cabelos serelepes (para lá e para cá)
(a voz baixa) falta de rispidez enorme
um coração vivo dentro do peito
delicado o corpo
feito de (dedos) dentes e olhos —
que são de mulher

 

assim fica difícil as pessoas enxergarem — é isso?
menina correndo atrás de menina
enrabichada uma na outra
segredando coisas (querendo)
sem direito
a nenhuma dessas experiências que às vezes
uma vida inteira não será capaz
de permitir de novo —
(esse doce)
(lucilar de entressaias)
em harmonia-de-estar

 

mas não é só isso
(que oprime)
que silencia e escorraça
(o amor)

 

(e) assim (o amor vai)

 

vejo você desconceder
ternura (em alegria)-parceria
só para não tomar a peito (apetites)
entradas por janelas de olhar dentro
(afastando) inclusive (cantarolas) quando está simplesmente — feliz?

 

(e mantendo) sem anúncio (sem indício) —
(para não ofender queridos — queridos?) 
que é comigo —
que você dorme
e sangra (todos os dias)
e come e dança e ri —
que as mãos se juntam em busca de algum sentido

 

(ou então) você deixa num vão cruciante (cenas)
da não palavra
(do não afeto)
de uma querença-proibida-de-aparecer
o que de melhor resiste
no entreamor —
o cuidado de estar presente
a oferenda (quando é preciso cuidado)
desagonias sendo desfeitas com esperança
sorrisos de pura brincadeira
só de multicruzar o olhar uma com a outra
e ser apanhada
num prazer até esdrúxulo
de tão singelo (sereno) exorbitante —
(que pulsa dentro)

 

(melhor quando assim
em vez de desoferecer
é nem sonhamar)

 

eu só queria ser
a primeira
que você lembrasse de beijar
quando a vida chama

 

Foto: Roberta Simão, durante o Sarau das Minas GO, nov/2017.

 

Carol Piva é brasileira, tem 37 anos, nascida em Minas Gerais, é doutoranda em Arte e Cultura Visual na Universidade Federal de Goiás (UFG). Servidora do TRT da 18ª Região, é também tradutora literária, ficcionista, editora do jornal O Equador das Coisas e colunista d’A Redação, de Goiânia. Este tríptico integra seu primeiro livro de poemas, estranho é (quando a imagem poesia) o amor,que ela pretende lançar em 2018.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2017


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Paginação:

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