ANO 4 Edição 63 - DEZEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Cinthia Kriemler


Minha avó lia Nietzsche, e outro conto

Toco a campainha. Gesto ridículo. Costume. Entrar na casa da avó sempre foi um ritual. Tocar, esperar que seus passos lentos equilibrassem o corpo magro e velho em direção à porta, escutar os quatro ou cinco cliques das chaves e cadeados feitos para impedir algum bandido de forçar a entrada para roubar móveis antigos e bibelôs saudosistas. Bolo de cenoura ou de milho, café passado na hora, manteiga de verdade, pães fresquinhos.

 

Coloco no chão as caixas de papelão que trouxe desmontadas e começo a testar as chaves nas trancas, bem devagar. Tão devagar que desperto os olhares do homem no fim do corredor de portas iguais. Ele entra indeciso no elevador, imaginando se sou a nova inquilina ou uma ladra bem vestida.

 

Estou dentro. O corpo retesado procurando fantasmas. Das minhas narinas sai um vento quente e rápido que conheço de sobra. Desde o meu divórcio tumultuado que é assim. Passei meses hiperventilando por qualquer besteira que me causasse ansiedade. E tudo me causava ansiedade. Até que a avó me viu em plena crise. Abriu a gaveta do móvel da cozinha e tirou de lá um saquinho marrom de papel, desses de padaria. Põe na boca, depois inspira e solta o ar dentro do saco, ela me disse. Recusei a oferta. Anda, ela insistiu, faz o que eu estou dizendo. Fiz. Parei de ficar tonta. E melhorei ainda mais um ano depois, após começar a terapia. Mas o artifício dos saquinhos carreguei comigo. Dentro da bolsa. Até hoje, em qualquer lugar, quando sinto que a respiração começa a descompassar, é só me afastar para um canto e soprar.

 

Os pelos do gato ainda estão nas almofadas. Talvez eu deva levar todas elas para casa, agora que Oscar Wilde está morando comigo. Ele vai gostar. Gato estranho. Desde que saiu daqui, parou de miar. O veterinário me diz para esperar, porque os gatos são avessos às perdas. Como as pessoas. Mas eu acho que ele não mia é de pirraça. Não gostou de se mudar.

 

Quantos livros. Vou encaixotar e mandar tudo para uma biblioteca. Nada disso me interessa. Coleções encadernadas de receitas, atlas, dicionários. Romances antigos de M. Delly que pertencem à minha mãe, constato pela assinatura nas folhas de rosto. Biblioteca das Moças é o nome da coleção. Um mundo condicionante de felicidade para jovens bem comportadas. 

 

Interessante. Nas prateleiras mais altas, Byron, Lorca, Flaubert, Balzac. Bela safra. Edições originais misturadas a livros traduzidos. São da avó, com certeza. Meu avô só lia jornais e novelas policiais. É uma estante ambígua. Definitivamente, ambígua. 

 

Vou montar mais uma caixa. Ainda faltam os livros da última prateleira. Deve ter uns vinte lá em cima. O que não tem é escada. Levei para casa junto com o gato. Tudo bem. O cabo do rodo resolve. Só tenho que cutucar. E aí vem o primeiro. A Gaia Ciência. Nietzsche... A avó lia Nietzsche? Talvez tenha sido presente de alguém. Uma folheada e vejo as expressões Deus está morto circuladas a lápis. São três. No rodapé de uma das páginas, escrita com a letra miúda e desenhada da avó, a anotação: "Declarar-lhe a morte não seria reconhecer-lhe a existência?", seguida de outras duas que não consigo ler. Em outra página, há uma frase inteira marcada: "Há qualquer coisa de estupidificante e monstruoso na educação das mulheres da alta sociedade, talvez nada mais haja tão paradoxal. Todos estão de acordo em educá-las numa ignorância extrema das coisas do amor...". Além dos comentários em Nietzsche, há expressões grifadas e questionamentos anotados em Sartre, Beauvoir, Camus. Desconcertantes. Como a mulher que os escreveu.

 

Finalmente, o último livro da prateleira vem para as minhas mãos. A capa amarrada por uma fita estreita chama a atenção: Cartas a um jovem poeta. Rilke subjugado, sequestrado, preso em seu próprio livro é um pensamento idiota, mas é tudo o que me vem à cabeça. Desfaço o laço empoeirado e quatro envelopes amarelados caem no meu colo. Eu me pergunto se devo ler; se quero ler. Mas meu constrangimento não resiste ao argumento conveniente de que as fatalidades não devem ser desprezadas.

 

No primeiro deles, uma carta que me parece em escrita lusitana. José de Arimatéia Sobrinho é o remetente. O texto é curto. A despedida magoada e piegas de um amante ressentido. "Não te importunarei mais. A nossa história morrerá comigo. Eu só estou a cismar como há-de ser possível que consigas viver ao lado desse gajo que teu pai escolheu para teu marido, porque eu sei que não és rapariga de aceitar cabrestos. Mas como tu mesma o disseste, isso não é da minha conta. Envio-te os retratos que pediste, e que tanta apreensão te causam."

 

Quem é esse homem? Que fotos são essas? A data na carta não deixa dúvida: a avó ainda era bem jovem quando a recebeu: Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 1950. Foi escrita aqui mesmo e não vejo carimbo dos correios, o que me leva a crer que tenha sido entregue por um mensageiro ou por um amigo comum, cúmplice de histórias obscuras. 

 

No segundo envelope, a data da carta é anterior à da primeira: Rio de Janeiro, 4 de junho de 1950. Talvez revele um pouco mais. Mas, não. O tal José de Arimatéia pede desculpas por não ser um homem livre e declara-se apaixonado. Mais adiante, escreve um parágrafo de desprezo por Alberto Vargas, a quem se refere como "o marido de conveniência”.

 

Não, José de Arimatéia. Alberto Vargas não foi um marido de conveniência. Foi o meu avô amado. Que me dava escondido as balas e os chocolates que mamãe proibia. Que me ensinou a andar a cavalo, a jogar cartas, a gostar de viajar, a caminhar pela praia às seis da manhã. Que foi o único pai que eu tive, depois que o meu morreu tão cedo. Você, sim, é um oportunista, José de Arimatéia. E eu não gosto de você. Aliás, eu detesto você. 

 

O terceiro envelope não está sobrescritado. Dentro dele, um recorte de jornal, com data de 23 de setembro de 1950, mostrando o desfecho daquela história incompleta: "Fogo em Laranjeiras mata empresário português". Na matéria, a dúvida da polícia entre acidente e incêndio criminoso, seguida de uma declaração da mulher do morto e de uma breve  menção aos três filhos do casal. 

 

No último envelope, também não endereçado, quatro fotografias em preto e branco. E é você, avó, em cada uma delas. Você, exibindo os seios para o homem atrás da câmera. Você, de braços levantados, de pernas abertas, equilibrando o corpo despido sobre os saltos altos. Você e uma nudez descarada sobre a cama desfeita de um quarto qualquer. Você feliz. De uma felicidade que dá estocadas nos meus olhos. 

 

Você sabia que seria eu, não? Quem mais? Sabia que eu encontraria o seu segredo, e que as minhas narinas iriam respirar rapidamente em descompasso, e que eu precisaria usar de novo os saquinhos de papel marrons, e que eu vomitaria no banheiro o meu pudor oportunista. Porque somente eu viria aqui. Para levar o gato. Para esvaziar o apartamento. Para folhear seus livros. Para invadir a sua morte. Você sabia. E preparou a armadilha da fita amarrada. Só não me preparou para você.

 

Tenho que levar as almofadas para Oscar Wilde. Ele sente falta delas. Colocar em caixas separadas as roupas de cama, a louça, os bibelôs. Avisar à transportadora que pode vir buscar os móveis da sala, da cozinha, dos quartos. Levar comigo os quadros menores; a coleção de M. Delly que vou devolver à mamãe; a caixa com os existencialistas, que acabo de doar a mim mesma para poder ler com atenção cada anotação.

 

Preciso de mais tempo para me decidir se vou rasgar estas fotos. Ou para me convencer de que isso já não faz diferença. Rasgada ou intacta no envelope amarelado, não importa, a avó dos bolos e da manteiga de verdade não é mais de verdade. Mas talvez a mulher nua das fotos seja. A mulher que esperou a morte para se apresentar honestamente a mim.

 

Decomposição

 

O olho vermelho me encara. Despudorado. Exige que eu fique imóvel, me cessa, me vigia. Sem me tocar. A língua preta pela qual deslizo passos que não são dos meus pés está quente. O movimento dissimulado deste corpo de metal, quase imperceptível, é somente rebeldia. Provocação ligeira. O olho vermelho me ignora. Ele sabe que não vou desobedecer. Conhece o que me impede. O medo do castigo. Das punições que paralisam. Dos açoites que chicoteiam os erros em desproporção.

 

O movimento das formigas pelas veias da cidade me faz cócegas. Pequenas carcaças picando a minha carne-armadura. Pequenos monstros que seguem rotineiramente, tediosamente traçados e linhas. Eu escapo das coisas retas. Sou a assimetria dos bueiros enferrujados escondendo a podridão dos dejetos. Sou as torres dos arranha-céus que lembram bicos desbotados de tucanos. Ferro e ferro.

 

O olho vermelho me liberta. A seu comando, sou novamente fuga. Sigo em direção ao sol. É só para lá que me ensinaram a ir. Para trás, paisagens-construções vão se tornando pontos e traços e círculos e chapéus de bruxa. Esfumaçados. Crayons semiapagados pela borracha de algum criador dividido entre o construir e o destroçar.

 

A língua que desliza agora sob as solas gastas dos meus sapatos migrantes é serpente lenta. Não me faz mal. Piso o seu couro áspero, mas ela não arma o bote. Ela sabe de mim. Que sou passante. Que tenho medo de pecados e de sinas. Que não é preciso peçonha para derrubar o meu corpo irresistente de ossos e sangue. Que basta me hipnotizar como aos pássaros que ela faz tombar dos galhos, sem grito e sem gemido, até a morte consumada. Mas ela não me quer.

 

É de cimento insosso e cinza o chão que me sobra. Meus pés-esquadros traçam perpendiculares entre as trilhas de abandono que vou reconhecendo no trajeto. Nem metal nem solados se interpondo entre a minha pele e as superfícies. Apenas pés descalços através dos quais escoo à força o choro dos meus olhos cansados de ver demais.  Quero os meus olhos secos. Estancados de sangradouros e tempestades que se anunciam escandalosos em convulsão de soluços. Secos para enxergar os riscados invisíveis da vida que respira atrás das portas. Para observar equidistâncias. Para antever no papel a arquitetura insidiosa que cria espaços de dominação e miséria. Para antecipar explosões multidirecionais de ferro, concreto, sêmen e pólen — multiplicando e contrapondo gente e opressão. Quero a visão destoldada. Sem montanhas blindando o céu. Sem linhas separando gente e gente. Sem tanto ou nada.

 

No chão de terra, meus pés impressentidos. Corpo de folha bailarina. De bicho que não faz barulho. O caos se desconverte. O olho vermelho chora.

 

 

Cinthia Kriemler é contista. Carioca, mora em Brasília.
É autora de Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance. Editora Patuá, 2017); Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos. Editora Patuá, 2015. Livro semifinalista do Prêmio Oceanos 2016); Sob os escombros (Editora Patuá, 2014); Do todo que me cerca (Editora Patuá, 2012); Para enfim me deitar na minha alma (FAC-DF, 2010).
Escreve para a Revista Samizdat. Tem textos publicados em: Mallarmargens, Germina, Escritoras suicidas, Diversos afins, Conto Afora, Revista Philos, Revista Biografia, Revista InComunidade.
Seu blog: http://cinthiakriemler.blogspot.com/

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Paginação:

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