ANO 4 Edição 63 - DEZEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Eduardo Waack


“O Boêmio”, 27 anos de entrega!

 

Em 2017, O Boêmio (cultura popular independente e evolucionária) entrou em seu 27º ano de circulação ininterrupta na cidade de Matão, sendo também enviado aos mais distantes rincões do território nacional, do Rio Grande do Sul ao Amazonas. Data especial que merece ser lembrada com carinho, pois nos orgulhamos de contar com uma legião de leitores que esperam ansiosamente a cada mês uma nova edição deste alternativo cultural.

 

Somos alternativos porque buscamos maneiras de sobreviver e divulgar ideias libertárias sem nos vender ao sistema ou deixarmos de lado os ideais que nos guiam e iluminam. Aqui, não mentimos nem bajulamos! Mas precisamos da colaboração de todos: patrocinadores, leitores, assinantes e simpatizantes. Precisamos da crítica e do elogio. E queremos em troca a leitura sincera e entregue. Naveguemos unidos nesta grande aventura do conhecimento, da paz e da solidariedade...

 

Assim, dia após dia, desde 26 de junho de 1991, formamos gerações de pessoas mais conscientes, e o sorriso e amizade que recebo ao distribuir cada jornal é o maior dos prêmios que alguém possa receber. Estamos juntos nesta caminhada!

 

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Numa tarde de junho de 1991, após conversar com o grande pintor matonense, agora radicado em Araraquara (SP), Pedro Borracha, surge a ideia de editar um jornal-toalha, formato 44 x 32 cm, papel sulfite, que seria distribuído nos bares, restaurantes e lanchonetes de Matão, um frequentador da vida noturna, por isso o seu nome lógico O Boêmio. E o que era sonho foi aos poucos se transformando em realidade. No mesmo dia foi aquela correria, corre a fazer textos, entrar em contato com amigos e patrocinadores, definir as primeiras metas da pequena publicação que nascia. Existia a linha mestra: saúde, educação, ecologia, cultura, aventura. E poesia, acima de tudo muita poesia, em suas várias formas de existir.

 

          O primeiro número foi publicado dia 26 de junho de 1991, coincidentemente, dia da primeira edição de dois outros grandes jornais culturais de nosso país: “O Capital”, editado por Ilma Fontes em Aracaju (SE), e “Blocos”, editado por Leila Míccolis e Urhacy Faustino, na capital carioca. Que força tão intensa habitaria os céus nesta noite fria? Eis as matérias que integraram a primeira edição: editorial de apresentação; entrevista com a professora Ana Caparelli Cadioli, bicampeã estadual de voleibol 1968/1970; texto sobre a importância da amamentação; poesias de Manuel Bandeira, Eduardo Waack e Ana Terra; pensamentos de Luis Fernando Veríssimo (“Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo”), Roberto Freire, Dom Claudio Humes e Leonard Matlovich; matéria sobre a nova safra de cana, as queimadas e seus efeitos negativos na saúde humana; e um pedido: preservem a Matinha do Bosque (o que hoje é uma realidade). A Matinha do Bosque era uma reserva de mata nativa situada no coração da Terra da Saudade, e foi transformada em um parque ecológico.

 

          Permanecemos neste formato de jornal-toalha até o número oito, lançado no dia nove de dezembro daquele mesmo ano, quando estreamos logotipo novo, que permanece, criação de Antonio Herci Ferreira Junior. Nossa nona edição foi publicada no início de 1992, e aqui a novidade era a mudança radical que o jornal sofrera: passávamos a ser um periódico com oito páginas, formato 31 x 21,5 cm, em papel jornal, e logicamente enfocando outros temas de interesse de nossos leitores, então já em vários pontos do país. Aqui apareceu efetivamente nosso primeiro grande colaborador: o escritor Edmílson Caminha, que de Brasília (DF) nos enviava sua excelente coluna “Pote de Balas”, enfocando a vida, a obra e as atitudes de grandes valores de nossa literatura e cultura. Outro que chegou nessa mesma época, e não mais partiu, foi o etnógrafo e historiador Mário Souto Maior, de Olinda (PE), e seus textos inteligentes fazem a cabeça dos leitores até hoje, pois apesar de falecido em 2001, o folclorista pernambucano é constantemente consultado, citado e republicado. Nos livros de Souto Maior, está explicitada a essência da alma brasileira.

 

          Aos poucos as matérias foram ficando mais extensas, era necessário falar, libertar tudo aquilo que esteve preso por muito tempo, e outra mudança aconteceu: em nossa edição nº 35, lançada em 30 de julho de 1993, ganhamos um formato mais prático, 29 x 38,5 cm, e oito páginas. A essa altura, já possuíamos assinantes na Alemanha, Espanha, França, Cuba, Peru, Chile, Argentina, Estados Unidos, Paraguai, Itália, Israel, México, Japão, Canadá, Uruguay e Portugal, além de todo o Brasil, e contávamos com mais de 200 patrocinadores. A distribuição d’O Boêmio também foi se solidificando: bancos, escolas, comércio, indústria, consultórios médicos e odontológicos, repartições e órgãos públicos, além de bancas de revista, vídeo-locadoras, farmácias, açougues e padarias. 1994 foi um ano de árduas batalhas, insegurança e instabilidade na política vigente, a economia nacional dando sinais de exaustão, e a sofrida população a ponto de explodir (e aguentando o tranco calada). Só a duras penas um jornal independente e alternativo, porque cultural, poderia atravessar incólume este conturbado ano e adentrar 1995 com força total. Foi o que aconteceu. Aos quatro anos engatinhávamos vivendo toda a ludicidade desta idade! Fomos ousados, fomos usados.

 

          O tempo passou, e a família aumentando e solidificando-se, junto com o jornal. Nossa própria maneira de encarar o mundo aos poucos mudou, deixando de lado o supérfluo caminhamos serenos confiantes de que o essencial é mínimo, por isso amplo, profundo, gentil. Mergulhamos na área cultural, pois um grande vazio dominava as publicações nacionais. Dia sete de agosto de 1998, a edição nº 111 inaugurava novo formato, meio que por acaso, e que persiste até hoje. Explico porquê. Numa quarta-feira qualquer de mormaço, chegava em casa o office boy da gráfica que imprimia O Boêmio, com um bilhetinho manuscrito do proprietário da mesma, dizendo que a partir da próxima edição o custo da impressão teria um reajuste para maior, e o formato deveria mudar, o jornal encolheria adaptando-se à nova máquina. Mudamos de gráfica após pesquisa minuciosa na região, e em Jaboticabal (SP) deixamos no formato 47,5 x 32,5 cm, com 12 páginas.

 

          Atravessando o milênio, tivemos visões futuristas, acreditamos muitas vezes e outras tantas nos perdemos. Ampliando o número de colaboradores e de leitores. Formando uma geração mais consciente, que é posta em contato com a vanguarda mundial, mas não de uma maneira pedante, sem a falsa ilusão do esnobismo inútil, fazendo da humildade nossa profissão de fé. Sempre chega uma nova assinatura ou aparece alguém disposto a reavivar a chama quando ela quase quer se apagar. Sopra uma energia interior e o lírico guerreiro, que não pode jamais deixar de lutar, prepara uma nova edição, pois cada número que surge é como um novo parto, e os jornais são filhos que temos soltos pelo mundo transmitindo nossas ideias e os ideais de um povo que acredita na diferença, na igualdade, no absurdo, na banalidade, no grandioso e no sublime, no pequeno e no feio, mas sabe diferenciar cada momento como se fosse o último. Contribuir para que as futuras gerações tenham um mundo melhor, esta a nossa sina.

 

          Hoje O Boêmio é parte do cotidiano cultural da cidade e do país, e com sua maneira diferente fala de Matão e do mundo. Diminuiu de tamanho (21,0 x 32,0 cm) mas não de combatividade. Entrevistas, opiniões, reportagens, textos, ensaios, cartuns, fotografias, artes gráficas, poemas e ampla correspondência deixam registrado o dia a dia de um povo que caminha para a vitória. A quem agradecer tudo isso? Em primeiro lugar, aos nossos leitores, que são a força e estímulo que nos permitem prosseguir. Em segundo lugar aos nossos patrocinadores, já passam dos quinhentos, muitos até já fecharam suas portas e estão buscando outros rumos profissionais. E a todos aqueles que contribuíram com suas ideias e força de vontade. A liberdade de um povo se conquista com sua liberdade de expressão. Estamos aprendendo a andar sozinhos, nos cuidar aos 27 anos, que outros aniversários venham e nos tragam a longevidade.

 

          Muitos caminharam conosco quando tudo parecia muito difícil. Na longa noite da ignorância humana nos emprestaram sua luz para iluminar frágeis passos imprecisos. Por eles, estamos aqui!

 

 

 

Nascido em 1964, Eduardo Waack faz versos desde que aprendeu a escrever, na escola primária. Tem nas palavras sua companheira fiel. Publicou várias obras, de modo independente, formando um painel honesto e claro de sua passagem pela vida. Não é comprometido com nenhum grupo nem pertence a panelinhas elitizadas. É simples, como um riacho descendo a montanha, solitário, cujas águas oferecem alento a quem delas prove. É fundador e director do jornal “O Boêmio”, que é distribuído em todo o Brasil desde há 27 anos. Publicou, a partir do ano de 1979, poemas, matérias, contos e crônicas em revistas, jornais, fanzines, camisetas, intervenções, sites e blogs do Brasil e exterior, incluindo (entre outras) as exposições: Tercera Exposición Internacional de Poemas Póster de Poetas Iberoamericanos Contemporáneos (16-21/10/2000), St.Thomas University, Fredericton, Canadá; “Os Pássaros”, exposição foto-poética (com Sêrgio Sàbará), 2009 e “Terras de Zumbi”, exposição foto-poética, 2012. Entre seus livros, destacamos “Canções do Front” (1986), “Água” (1988), “Pessoas & Lugares” (2015) e “Daquilo Que Se Pode Dizer” (2017).

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2017


FICHA TÉCNICA


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Henrique Prior, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Dezembro de 2017:

Henrique Prior, Beatriz Leal, Bruna Mitrano ; Natasha Felix, Caio Junqueira Maciel, Carlos Orfeu, Carol Piva, Cecília Barreira, Cinthia Kriemler, Cláudia Cassoma, Eduardo Waack, Flávia Fernanda Cunha, Gil Cleber, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jean Narciso Bispo Moura, José Ángel Valente ; Sandra Santos, trad. e org., José Gil, Laís Barros Martins, Laura Szwarc ; Rolando Revagliatti, Maria Amélia Elói, Maria Estela Guedes, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ricardo Ramos Filho, Rosângela Vieira Rocha, Saulo Henrique Nunes


Foto de capa:

'Natividade', de PAULA REGO (2002)


Paginação:

Nuno Baptista


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