ANO 4 Edição 63 - DEZEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Flávia Fernanda Cunha


A arte e a cultura de massa

Tudo o que nos constrói é desenvolvido a partir de uma ideia criadora. Em função dessa ideia, somos postos num processo de contínuo aperfeiçoamento. Os modelos seguidos para testar tal aperfeiçoamento nos indicam a constante busca pelo equilíbrio do nosso estado de compreenção ou entendimento, principalmente para o prazer ou para o que conhecemos como a felicidade. Nessa incessante busca, parece haver um desígnio do todo sendo apropriado para perceber que a felicidade não é um estado permanente. A felicidade, como tudo no funcionamento do universo, é alcançada ocasionalmente e ciclicamente.

 

Para exemplificar trazemos à ideia uma flor. Sabemos que existe seu momento de plenitude. Todo o seu ciclo é perfeito, efêmero, e belo. Contudo, também acaba. A maioria dos filósofos, no decorrer dos séculos, procura no universo as respostas para a compreensão do nosso mundo real, a fim de conhecer e prever as possíveis reações que nos envolvem, na tentativa de manter esse estado de plena satisfação. Ora, se o universo é belo, e se sua ordem de funcionamento tem grande maestria e ciclos perfeitos, como isso funciona dentro dos parâmetros também humanos, tendo a morte como parte da vida?

 

A filósofa Hannah Arendt (1906-1975) diz que a condição humana é um ciclo de exaustão e renovação, e sempre que nos depararmos com estados de perfeita ordem, estes são resultados da construção do nada no todo — ou vice-versa. Em sua obra, a estudiosa alerta: “A condição humana não é a mesma coisa que a natureza humana. A condição humana diz respeito às formas de vida que o homem impõe a si mesmo para sobreviver. São condições que tendem a suprir a existência do homem”.

 

Se partirmos do pressuposto do ato de “suprir”, passamos à dialética de que, apesar de a condição humana não ter o mesmo significado da natureza humana, a condição humana, assim como o universo, permanece em constante formação. Logo, a ela segue esse mesmo princípio. Tendo em vista essa condição, Alejandro Jodorowsky (...) disse: “Nós não somos. Nós estamos sendo”. Acreditamos ser esse o contraponto sobre a condição e a natureza. E é sobre esse fundamento formativo, em que todas as bases construtivas são elaboradas para dar suporte àquilo que buscamos, que chamamos de aperfeiçoamento das capacidades humanas, no qual devemos nos debruçar.

 

Nesse contexto, Hannah Arendt afirma: “O essencial é compreender. Esse é um processo complexo, requer atividade incessante e está sempre em constante mudança, por meio do qual nos ajustamos ao real. A compreensão é a criadora do sentido enraizado no próprio processo da vida, na medida em que tentamos, através dela, conciliarmo-nos com nossas ações e com nossas paixões, as quais são as origens tanto da raiz do isolamento quanto do desenraizamento”.

 

A ação, nessa perspectiva, é “a única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria”. Ação representa não só constructo da liberdade enquanto capacidade de reger o próprio destino, mas também a única forma da expressão da singularidade individual da felicidade. Conforme o termo grego Eudaimonia, quando compreendemos a felicidade em sua essência, como “florescimento”, podemos dizer que ser feliz é florescer. Quando nos propomos a aceitar essa condição de estarmos sempre florescendo e não apenas sendo flores, é que se abre o leque de possibilidades para a liberdade.
 
Sendo assim, é a partir dessa teoria que aprofundaremos as raízes de nossa proposta sobre a arte e a vida, que nos remete ao ato de dar a vida e ao tempo de criar vida com prazer e entusiasmo. O ato de criação procura abordar a multiplicidade e  a incompletude do desejo humano de modo adequado e harmonioso. No que se refere ao prazer estético dos movimentos cognitivos para a ação, se agregam força, concentração, energia, sentido de viver, disposição a defender uma causa justa e o pensamento de que toda ação está dedicada ao bem.

 

Nesse contexto, a energia canalizada no interior do homem flui por seus membros, braços, mãos e dedos. Nada mais é do que um desejo de perfeição que irradia de cada indivíduo. Sim, uma obra de arte pode provocar uma sensação de prazer quando o corpo produz um “som profundo” acompanhado pela concentração. Então não é o homem quem realiza, mas algo além, que não conhece o medo, porque encontrou suas próprias respostas no transporte das vontades legítimas e fundamentais para o plano das vivências profundas.

 

Portanto, se os estudos da arte sempre nos direcionam para a criação e para cultura de sentido de bem-aventurança e da vitória, por que esses conceitos têm se afastado da ideia de felicidade? Além disso, é sabido que todo homem necessita, ao longo de sua vida, de algo para se agarrar, um porto seguro, um pouco de glória e satisfação interior. Não menos relevante é traçar uma pequena linha no grande livro da história e dizer: “Eu contribuí com algo. Fiz algo. Criei”. Essa é uma necessidade inata do homem.

 

Henry David Thoreau (1817 – 1862), em sua obra A Desobediência Civil, disse: “Se uma planta não pode viver de acordo com sua natureza, ela morre. O mesmo ocorre com um homem". A negação disso traz, infelizmente, a destruição psicológica do ser humano em seus aspectos mais profundos. A falta de respeito pela dignidade humana apaga sua natureza analítica e faz aparecer características pré-históricas brutais. Desse modo pode-se dizer que existe um esgotamento nos padrões autossustentáveis, apresentados pela cultura da “plena felicidade”.

 

Se avaliarmos nosso universo, esse mantém seu equilíbrio nas constantes de neutralização entre força opostas. Então, podemos questionar onde se encontra esse equilíbrio nas bases de modelos dispersivos, que negam os processos de feedbacks e retroalimentação para a arte? O filósofo John Gray apontou: “Nós, humanos, somos menos livres que as bestas. Julgamos que a nossa "autonomia" (para usar uma palavra erudita) é a forma suprema de sermos livres. Estamos dramaticamente equivocados: não passamos de almas torturadas entre a experiência do passado e as expectativas do futuro. O fato de estarmos condenados a escolher não deixa de ser uma condenação”.

 

Essa mesma condenação foi agregada pelo sistema educacional, pois não seria necessária tamanha limitação se não tivéssemos que optar ou selecionar tanto. Em contrapartida, se pudéssemos experimentar as habilidades sem qualquer compromisso interessado, e sim globalizado até a idade adulta, teríamos uma rica estrutura para desempenhar nosso papel na sociedade. Porém perdemos nossa autonomia desde o início do processo criativo.

 

São diversos fatores que nos afastam da felicidade, sendo fácil perceber que um desses agravantes é causado pela forte hegemonia do imediatismo fabricado para o consumo, feito para beneficiar os detentores do poder. Esses estabelecem a forte cultura das bordas do pensamento para tirar vantagens, onde o totalitarismo avança consideravelmente e a população acaba sendo incorporada. Em síntese, a cultura da felicidade imediata e contínua elencada para bens e serviços nos entorpece, nos enche de ineficiência e nos deixa em estados frágeis de consciência daquilo que temos como alicerce real do pensar.

 

 Esse processo incessante ao qual estamos expostos torna o considerado belo e admirável em algo sem substância e, portanto, fugaz, caracterizando o tempo e a vida em raríssimos minutos da existência. Uma espécie de congelamento se instala. É necessária, contudo, uma atitude autotransformadora que não nos enrijeça, ao contrário disso, que possa nos oportunizar novas perspectivas para a própria vida com forte desejo de canalizar nossa potência. Só essa vontade é responsável por qualquer tipo de transformação verdadeiramente intelectual.

 

Baseando-se na história de celebridades como Bill Gates, os Beatles e Mozart, o escritor Malcolm Gladwell (1963) procurou em sua obra mostrar que ninguém se faz sozinho. Todos os que se destacam por uma atuação fenomenal são, invariavelmente, pessoas que se beneficiaram de oportunidades incríveis, vantagens ocultas e heranças culturais. Tiveram a chance de aprender, trabalhar duro e interagir com o mundo de uma forma singular. Esses são os indivíduos fora de série – os Outliers.

 

Sob essa perspectiva, o escritor Mario de Andrade (1883 – 1945) já concordava ao dizer: "Mas na verdade ninguém se faz escritor. Tenho a certeza de que fui escritor desde que concebido. Ou antes... Meu avô materno foi escritor de ficção. Meu pai também. Tenho uma desconfiança vaga de que refinei a raça". Assim sendo, para Gladwell, mais importante do que entender como são essas pessoas é saber qual é sua cultura, a época em que nasceram, quem são seus amigos, sua família e o local de origem de seus antepassados, pois tudo isso pode exercer um impacto no padrão de qualidade das realizações humanas.

 

Outro dado apontado pelo autor é o fato de que, para se alcançar o nível de excelência em qualquer atividade e se tornar alguém altamente bem-sucedido, devem ser necessárias nada menos do que dez mil horas de prática, o equivalente a três horas por dia (ou vinte horas por semana) de treinamento durante dez anos. Michael Foley professor e escritor nos fala sobre um grande paradoxo entre esforço e resultado: “Um intenso esforço é necessário para produzir a sensação de falta de esforço; intensa consciência para chegar à inconsciência; total controle para se chegar à falta de controle. E só aqueles que estiveram em plena posse do self poderão se entregar plenamente”.

 

Foley ainda complementa afirmando que quanto mais forte a sensação do self, maior o arrebatamento por escapar de sua tirania. Como também Freud afirmou, nosso cérebro está sob o comando do self, e Nietzsche, por sua vez, mencionou que “aquele que não puder obedecer a si mesmo será comandado”. Fato que vem acompanhando a história escravagista do homem. Contudo, quando um ser humano pensa nessas dez mil horas para aprender uma determinada função, isso enfraquece seu interesse, pois ele tem em vista suas possibilidades dentro do quesito disponibilidade de tempo. Além de não ter disponível à sua volta um mestre que possa auxiliá-lo num hábil processo de ensino.

 

Recentemente o escritor americano Tim Ferris (1977) apresentou uma possível mudança de estratégia e estruturação do pensamento chamada de meta-aprendizado, criando um passo-a-passo claro e útil para alavancar o processo de aprendizagem. Logo em seguida outro escritor, chamado Josh Kaufman, trouxe uma nova demarcação desse mesmo caminho. Ambos apostam no processo de aprendizagem, onde se configura o princípio de subdivisão da habilidade nos menores pedaços possíveis de conteúdos do saber, identificando as partes mais importantes e então iniciando a prática desses elementos.

 

Kaufman coloca, “para a quantidade de tempo que levará para adquirir essa nova habilidade é largamente uma questão de quanto tempo concentrado você está disposto a investir em prática deliberada e experimentação esperta e o quão bom você precisa se tornar para agir no nível que deseja”. Isso paralelo ao cotidiano. Eles sustentam que aprender um conceito novo requer praticar habilidades destes em questão, por significantes períodos de tempo, com foco sustentado e concentrado. E isso requer criatividade, flexibilidade e liberdade de determinar seu próprio padrão de sucesso. Um processo ativo e independente.

 

Ainda, segundo esses pesquisadores, os sistemas rigorosos de credenciamento previnem aquisição de habilidades justamente pelo custo de aquisição em tempo dispersivo ou pouco diretivo, tornando-os sem atratividade para o pensamento. Além disso, hoje não temos com tanta disposição mestres-modelos que exibam uma capacitação excelente para conduzir o aprimoramento técnico. Refletindo sobre esses dados, com a metodologia no ensino atual, podemos contrapor que existem pontos importantes a serem discutidos sobre eles. Assim, tenta-se localizar um motivo estratégico justificando o primeiro modelo coordenado em conceitos sobre habilidade, e ao segundo, a ação.

 

Nas palavras de Machado de Assis: “Pensamentos valem e vivem pela observação exata ou nova, pela reflexão aguda ou profunda; não menos querem a originalidade, a simplicidade e a graça do dizer”. Assim sendo, a população em geral não disponibiliza de tempo “a princípio”, nem mesmo tem interesse em dedicar-se a um novo e grande empenho para aprender o que quer que seja. Logo, é natural que esteja buscando satisfação em um caminho mais rápido e prazeroso a priori, pois a chama que projeta a imagem do conhecimento permanece apagada quando ao seu olhar é oferecido apenas sobras para reprodução.

 

Outro aspecto relevante a ser mencionado é que as instituições escolares têm cada dia mais evasão, pois os modelos de ensino são carregados por disciplinas sem disposição para o exercício das habilidades específicas. Tal padrão é hierarquizado e elitista. Nisso, as pessoas desistem sem nem mesmo ter iniciado o processo, pois todos têm em perspectiva que o aprendizado será demorado, sem prazer e sem sentido. Como consequência há desistência, pois suas vidas já são duras o suficiente devido ao sistema social disposto, onde só existe a projeção das sobras alheias.

 

Não menos importante é enfatizar que, de acordo com a primeira abordagem é certo que a maestria da habilidade exige dedicação de longo prazo e de treinamento, mas ao encontro da segunda teoria o aprendizado dessa habilidade não é necessário tal esforço. Esse exige apenas desejo e foco. Cada ponto desses modelos teóricos encontram-se em períodos distintos do aprendizado. Formal um processo sequencial, e não escalar, em que um é melhor que o outro. Ainda, no que se refere à vontade, esta criará novas e duradouras associações, trazendo benefícios fundamentais para serem utilizados em todo um percurso.

 

Portanto, pode-se dizer que o começo é árduo, contudo os frutos vindouros são gratificantes. Realmente a aquisição de conhecimento não é fácil nem vem de graça, precisa ser antes merecidamente internalizada e para isso o ponto de partida é a imersão por desejo. Ela deve ocorrer em um local onde o educando se aproxime com dúvidas específicas da sua fase, e possa ser corrigido naquele ponto onde se encontra. Enquanto a cognição se exercita num efeito transformador, a experiência modela o prazer.

 

Clarice Lispector menciona uma frase-chave nesse contexto: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". Ou seja, transcende, e esse transcender é onde se encontra o êxtase.  A partir disso, queremos mostrar ser o estado da arte um modelo gerador da dádiva da felicidade, pois são também nesses contextos de vivências onde se encontram o estado da possibilidade, cuja graça gera a expectativa de um novo despertar, e seu oposto causa o contrabalanço das emoções criativas de encanto e de beleza.

 

São esses os estados do agir da condição humana configurados com o pleno estado de liberdade, onde a felicidade pode ser exercitada e não adquirida, pois o esforço para aprender vale mais do que o aprendizado em si. Logo, se é do potencial da conquista que o infinito se ocupa, pensar sem propósito definido é a forma mais prazerosa de aprender. Por conseguinte, é o exercício da atenção plena, da prontidão, da clareza de consciência sem qualquer substância ou objetivo concreto, mas uma intensa atividade mental, que mantêm o fluxo de vida em constante evolução. São experiências alcançadas pela vontade própria, nutrida da possibilidade que oferecem processos intensos de significados.

 

Raduan Nassar (1935) nos fala sobre o exercício natural e livre desse modo: “[…] Rico só é o homem que aprendeu piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando aberto para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é”.

 

Nesse contexto, o tempo funciona como um passaporte, um cartão de felicidade oferecendo novas descobertas e recompensas a cada passo conquistado, uma garantia de exaltação pelo esforço dedicado. Manter-se atento ao aprender algo novo é como um elixir para a própria vida, uma forma de transcendê-la de modo a parecer ser estendido o tempo da vida. Esta é uma atitude especial dentro da educação, da filosofia, da arte, o qual se pode chamar de atitude verdadeiramente eclética, pois permite comparar todos os elementos, pegar os mais úteis e colocá-los em contato com toda a realidade.

 

Sabe-se que o aprendizado está sob o domínio da educação e esta ciência trata da capacidade do ser humano de extrair do conhecimento aplicado uma série de potencialidades que lhe permitem colocar-se em relação com a cultura e transmiti-la. Contudo, os alicerces da educação estão num regimento interno enraizado no pior tipo de regime, aquele retentor do saber cultural para manutenção do poder. Enfim, é fato que os modelos sociais interferem no processo de ensino-aprendizagem.

 

Assim, se o capitalismo é o regime do exercício da livre concorrência, ele não acontece na educação, pois podemos notar nitidamente que o regime interno acadêmico encontra-se preso em conceitos ultrapassados. Ele permanece vinculado à grande hierarquia, continuando a tratar tudo e todos como meios para determinados fins, e isso é o fator que mais contribui para a baixa evolução do pensamento, sendo o pensador o seu grande algoz.

 

Na concepção de Zygmunt Bauman, o conceito de cultura tornou-se uma “subjetividade objetivada”. É, portanto, um esforço para entender o modo como as ações individuais podem ter validez coletiva e como as múltiplas interações entre indivíduos podem construir “uma realidade dura e implacável”, de uma sociedade alienada, que distingue as esferas públicas e privadas da vida humana. Ele declara que, através da cultura, o homem se encontra hoje “em um estado de revolta constante, uma revolta que é uma ação” contra o estado paralisador voltado unicamente para o privado.

 

Bauman ainda enfatiza: “O mundo é ambivalente, embora seus colonizadores e governantes não gostem que seja assim e tentem a torto e a direito fazê-lo passar por um mundo não ambivalente. As certezas não passam de hipóteses, as histórias não passam de construções, as verdades são apenas estações temporárias numa estrada que sempre leva adiante, mas nunca acaba. Mais nada? Muita astúcia foi utilizada e muito veneno destilado em relação à ambivalência – esse flagelo de toda intolerância e de toda pretensão monopolística [...].”

 

Outro Nobel, Noam Chomsky (1928), em seu artigo Consentimento sem consentimento: a teoria e a prática da democracia, disse: “Não há mais motivo para se acreditar que somos coagidos por leis sociais misteriosas, e desconhecidas, e não por decisões simplesmente tomadas dentro de instituições sujeitas ao desejo humano”. Chomsky também relata: “Não há mais qualquer necessidade social para os seres humanos serem tratados como elementos mecânicos no processo produtivo; podemos superar e devemos superá-lo por uma sociedade de liberdade e de livre associação, em que o impulso criativo que eu considero intrínseco à natureza humana será de fato capaz de realizar-se em qualquer forma onde quer que ele esteja”. 

 

Ainda no entendimento de Machado de Assis, em Dom Casmurro: “A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...”. No entanto, para ser isso realmente excelente, necessitamos estar dispostos a quebrar paradigmas gerais, adotar novos padrões e sustentar apenas aquilo mais adequado ou adaptado naturalmente aos interesses das pessoas.

 

Hoje, basicamente, as instituições de ensino tem proposto o mesmo ato de dar um livro em braile para quem tem olhos, distante da Paideia, ou seja, distante da pedagogia do olhar descrito pela narrativa (ensino), delimitando os horizontes do saber. Esse processo está fadado ao fracasso graças à globalização do saber virtual, mas sabemos que o problema continuará a existir fortemente, por falta de modelos vivos atuantes para oportunizar vivências na vida real gerenciando o aprendizado. É por isso que o papel do mestre nunca será substituído, pois quando se tratar da excelência para moldar habilidades, se faz necessária essa troca entre educador e educando.

 

Rubem Alves disse que “o fato é que, sem que o saibamos, todos nós estamos enfermos de morte, e é preciso viver a vida com sabedoria para que ela, a vida, não seja estragada pela loucura que nos cerca”. Em detrimento do sistema social do “imediatismo mercadológico”, não se consegue suscitar uma demanda comportamental autêntica e eficaz. Precisamos, portanto, de proposta com linearidade mantida em longo prazo, uma vez que não existe processo completo.

 

Nas palavras de Manoel de Barros, “a maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou eu não aceito. Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às seis horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai, mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas”. Tão certo como o poeta disse, a incompletude da condição humana nos põe em conformidade com o universo. Na nossa infinita complexidade, não são as ofertas de produtos ou de serviços que nos garantem o prazer, mas é a renovação da própria criatividade o combustível para a vida.

 

Constatamos este fato em toda atividade fútil de consumo, pois a felicidade encontra-se entre a união indissociável do processo cognitivo com a ação, uma espécie de transfiguração da arte em beleza. Comer um chocolate é bom, mas ter seu próprio paladar é fundamental. Scruton (1944) nos deu uma magnifica comparação a esse respeito dizendo: “Na experiência da beleza, o mundo surge diante de nós e nós, diante do mundo. No entanto, sua manifestação é especial: dá-se por intermédio de sua apresentação, e não de seu uso”.

 

Outro ponto passível de discussão é o favoritismo atual oferecido pela cultura da atividade física. Questiona-se como essas propriedades podem ostentar elementos díspares, bem como aponta seu papel contraditório, destinado ao efêmero, pois o mesmo tem estimulado o esforço à morte de todo processo natural evolutivo de qualquer estado da arte humana. Nisso o mundo da atividade física também tem acompanhado a demanda, propondo o mesmo que as culturas de mercados oferecem àqueles dispostos a dar credibilidade à mágica resposta do corpo.

 

Buscando saciar anseios imediatos ditos hoje como “necessários”, afirma-se a falsa impressão de tudo ser solucionado a partir da prática simplista, ou mera execução. Porém, é fato que a atividade física é um meio para fins concretos, e seu valor é verdadeiro, mas está aquém da arte. Cândido Portinari, sobre sua arte, disse: "O alvo da minha pintura é o sentimento. Para mim, a técnica é meramente um meio. Porém, um meio indispensável".

 

Então, podemos dizer que a arte é a mãe de todos os mecanismos indispensáveis na elaboração e na construção desses “outros” modos operantes que precisam ser aprimorados ao longo da existência, a qual não tem um fim em si mesmo se não o propósito de auto-evoluir com o universo. E é possível afirmar ser a arte, tão exaltada pelos gregos, e pela sociedade contemporânea a mãe dessas interações. Enfim, existem denominadores comuns nessa relação conceitual, as práticas criativas, necessárias nas principais motivações da origem do processo criativo, que tanto nos regeneram.

 

Os instrumentos comuns nessa perspectiva são: a técnica, a estética, a intuição, a memória, a percepção, a imaginação, a inspiração, a inteligência, o pensamento, a simulação, a estratégia, a energia, os códigos, a força, o consciente e as pulsões inconscientes. Existe nesse eixo uma compatibilidade que tem sido substituída por conceitos vazios, pois o processo inteligível se encontra na busca de respostas cognitivas ricamente concebidas nos processos livres para a imaginação.

 

Dessa forma, o olho vê, a mente pensa, o coração sente e instrui o corpo a criar ou a realizar. Esse é um processo de ensino/aprendizagem que constitui verdadeiramente todas as particularidades e competências de um natural e próprio processo de educação. Na arte, quando a habilidade é aprendida, sua dinâmica e exercícios cognitivos serão sempre novos, passo-a-passo, aquisição de novas estratégias e destrezas são desenhadas pela mente. Pode-se dizer que é como escrever um novo livro, tocar uma nova sinfonia, pintar um novo quadro, e assim por diante as possibilidades permanecem infinitas.

 

Esse elo é o motor da evolução de ambos os conceitos formativos na construção do ser. Além disso, a arte favorece a interação e a comunicação entre os seres humanos, fatores responsáveis pelo desenvolvimento da vida bela e inteligente na terra, mas o seu processo de realização nas bases cognitivas são personalizadas. Segundo Ingmar Bergman (1918 – 2007), “a arte não dá respostas, políticos dão respostas, estar só é se fazer perguntas; arte é encontrar as respostas”. Nisso imaginamos haver uma combinação perfeita entre a inteligência criativa e os processos da educação que fundamentam o elo aparentemente dicotômico da arte e a cultura de massa.

 

A riqueza consiste na relação com o outro e consigo mesmo, mas não temos a intenção de apontar uma utilidade para esses conceitos, o que pretendemos aqui é disponibilizar reflexões e comparações para que o próprio leitor faça suas observações e consiga distinguir o que lhe servir, percebendo racionalmente para tê-los em mente. Assim como afirmou Roger Scruton, o que interessa antes de qualquer coisa é o certo tipo de julgamento para o qual o termo técnico estético tem sido hoje comumente empregado. A sugestão dele é de que poderia haver um valor estético Supremo – ao qual se deveria reservar apenas ao termo Beleza.
 

Para essa beleza suprema entendemos que a arte é um estado de valor real e universal indispensável na formação do nosso mundo, pois tudo que liberta o processo cognitivo de exercer uma reflexão consciente ou atenção dirigida, aplicada ao manejo da técnica com foco na habilidade, desassocia e suprime os sentidos do prazer. Nisso, Kant  abordou um padrão dizendo “de modo que existe um exercício das faculdades racionais que é dotado de objetivo e que, ao mesmo tempo, aponta para além de qualquer objetivo, isto é, para contemplação do modo como as coisas se apresentam”.

 

 

Meu nome é Flávia Fernanda Cunha. Sou brasileira natural de Uberlândia estado de Minas Gerais. Professora, mestre em Ciência do Envelhecimento Humano pela Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul onde vivo há 22 anos com esposo e filho.
Autora nos livros:
* Um Ano de Golpe: Crônicas da Resistencia 2017 Editora ComPactos;
* Amantes da Poesia 2017 editora Modocromia
* O Cuidado no Envelhecimento Humano: multiplos olhares; editora Méritos 2016
* Bioética e Envelhecimento Humano: Anseios e Perspectivas; editora Méritos 2017

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Henrique Prior, Beatriz Leal, Bruna Mitrano ; Natasha Felix, Caio Junqueira Maciel, Carlos Orfeu, Carol Piva, Cecília Barreira, Cinthia Kriemler, Cláudia Cassoma, Eduardo Waack, Flávia Fernanda Cunha, Gil Cleber, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jean Narciso Bispo Moura, José Ángel Valente ; Sandra Santos, trad. e org., José Gil, Laís Barros Martins, Laura Szwarc ; Rolando Revagliatti, Maria Amélia Elói, Maria Estela Guedes, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ricardo Ramos Filho, Rosângela Vieira Rocha, Saulo Henrique Nunes


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Paginação:

Nuno Baptista


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